Por Milton Alves

Establishment quer um ‘bolsonarismo’ sem Bolsonaro

Publicado em 20/05/2019

O establishment político-empresarial, os barões do mercado daqui e de fora, as grandes corporações transnacionais, com atuação no país, começam a fraquejar na sua fé e a duvidar da capacidade do presidente Jair Bolsonaro (PSL) de entregar o prometido: Ou seja, transformar o país no território livre do capitalismo selvagem, sem qualquer regulação, com desnacionalização completa da economia e rédeas soltas para a exploração dos trabalhadores, sem direitos e mal pagos.

Na semana mais difícil da curta existência do pífio e desastroso governo Bolsonaro, os alquimistas do mercado e seus braços políticos e midiáticos iniciaram uma operação para encontrar mais uma saída por cima, sem povo, e de preferência com aparência de legalidade.

Trata-se da busca de uma saída política e institucional que preserve o programa econômico de Paulo Guedes e a agenda conservadora bolsonarista. Uma fórmula tipo um bolsonarismo de baixo teor, sem a turbulência tuiteira e a agressividade olavista do ex-capitão. Algo como um bolsonarismo light.

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As cartas começam uma a uma a serem apresentadas e testadas, por ora, em ambientes refinados de São Paulo e Brasília e em editoriais dos jornais quatrocentões. Ainda de forma experimental, mas, grosso modo, se examina duas alternativas: O “parlamentarismo branco” com Rodrigo Maia (DEM-RJ) empoderado e Bolsonaro esvaziado, tolhido em sua iniciativa política e contido por esse arranjo. O grande empecilho para essa solução é a capacidade de resistência do proprio Bolsonaro e de seus batalhões mais aguerridos e fanáticos de apoiadores.

A segunda alternativa é mais problemática e também implica em variáveis que podem sair do controle. O movimento pelo impeachment de Bolsonaro e a entronização do general Hamilton Mourão na presidência. Uma operação que o establishment espera contar com a anuência dos militares, do Supremo e também de, pelo menos, parte da oposição, constituindo um autoproclamado governo de união nacional, com a manutenção das reformas neoliberais (Previdência, reforma regressiva do Estado) e a continuidade da Lava Jato.

O clã Bolsonaro e suas tropas já farejaram a armação e partiram para o combate, convocando atos e manifestações de rua para o domingo, dia 26 de maio. Acossada, a extrema-direita é mais bestial e provocadora. Apesar do veloz desgaste, o bolsonarismo ainda mantém uma base social orgânica até mesmo em camadas mais pobres da população. Além de uma forte presença na baixa oficialidade das Forças Armadas, setores da Polícia Federal, nas polícias militares e em agências de prestação de serviços de segurança. Esses segmentos foram os mais contaminados pelo ideário bolsonarista e são um fator de permanente tensão nos cálculos de uma estratégia política que implique na remoção de Jair Bolsonaro.

Por sua vez, o PT e a esquerda precisam continuar apostando as suas cartas na resistência popular e na acumulação política por uma saída democrática da crise, sem alimentar qualquer ilusão com arranjos por cima e de atalhos políticos tipo impeachment de Bolsonaro. Povo na rua e mobilizado é o mais seguro capital político que podemos contar para o futuro imediato e a longo prazo.

A presidente nacional do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), refutou nessa semana com assertividade a tese que vem sendo construída pela velha mídia de que a alternativa a Jair Bolsonaro seria o general Hamilton Mourão, Sérgio Moro ou Paulo Guedes. Para a dirigente petista, “o momento é difícil e triste no Brasil e pediu para que ninguém se iluda com as saídas ‘Mourão, Moro e Guedes’. Porque, segundo Gleisi, eles representam o programa [neoliberal] implantado no País”.

As numerosas e unitárias manifestações estudantis e populares do dia 15 de maio apontaram o caminho da resistência e da luta contra a totalidade da agenda do governo Bolsonaro. O que indica que as condições melhoraram para a construção de uma resistência ativa e de massas, impulsionada a partir de uma agenda política contra a reforma da Previdência, contra o desmonte dos direitos sociais, da Educação, da Saúde, contra o desemprego, pelo fim da Lava Jato, pela liberdade de Lula e todos os presos políticos e pela convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte.

Somente com uma agenda de ruptura é que seremos capazes de contribuir para um futuro democrático, de inclusão social e de prosperidade, contemplando os verdadeiros anseios do povo trabalhador e pobre do Brasil.