Por Esmael Morais

O MEC e a guerra ao ‘marxismo cultural’ nas universidades

Publicado em 15/04/2019

O ativista social Milton Alves analisa que a substituição de Vélez Rodriguez por Abraham Weintraub no Ministério da Educação (MEC) significa uma aposta de Jair Bolsonaro (PSL) na continuidade da disputa ideológica, com maior intensidade e coordenação, na área educacional. Também foi um gesto político que fortaleceu o núcleo mais extremista do bolsonarismo em detrimento do espaço dos militares no primeiro escalão do Ministério.

O MEC e a guerra ao ‘marxismo cultural’ nas universidades

Milton Alves*

Weintraub, como Vélez, foi uma indicação do jornalista Olavo de Carvalho para atuar numa área considerada pelo governo sob “controle” da esquerda. Portanto, segundo essa leitura reducionista e arbitrária, uma frente de combate ideológico. Logo era necessário ajustar as peças para iniciar a guerra ao impreciso e vago conceito de “marxismo cultural”, mas que tem materialidade e concretude no corpo técnico especializado e de carreira do MEC, no funcionamento das instituições universitárias, nos reitores eleitos pela comunidade, na autonomia universitária, nos programas e projetos pedagógicos.

A partir dessas premissas, a agenda do novo ministro indica um período de tensão política no interior do MEC e do sistema federal de ensino, abragendo também instituições como o INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e a rede federal de universidades tecnológicas.

Em outra frente, o ministro Weintraub, um cruzado neoliberal, será o elo com o ideário econômico de Paulo Guedes, que opera o fim das vinculações constitucionais às despesas obrigatórias em Educação, Saúde e nas demais áreas sociais. Um projeto de desmonte sem precedentes do aparelho estatal construído desde a década de 30.

A combinação de guerra ideológica e impulso privatizante será a bússola estratégica da política desenvolvida pelo comando do MEC. O combate ao “marxismo cultural nas universidades” é apenas a primeira etapa do projeto de longo alcance de destruição do sistema público de ensino superior.

Para isso acontecer, é necessário estigmatizar as universidades (não esqueçam do recurso odioso da Lava Jato na Educação), quebrar a autonomia universitária, desacreditar o corpo docente, eliminar a escolha democrática dos reitores e acabar também com o Plano Nacional da Educação, com o Fundeb e esvaziar paulatinamente o Enem.

Um cenário que aponta em perspectiva para uma dura batalha em defesa do conjunto do sistema educacional público, laico e universal no país. Uma luta profundamente ligada aos destinos da democracia no Brasil.

Portanto, o discurso de combate ao “marxismo cultural” nas universidades funciona como uma espécie de Cavalo de Troia para implantação de um outro modelo educacional – privatizado, excludente e regressivo.

Em memória de gigantes como Gustavo Capanema, Anísio Teixeira, Osvaldo Cruz, Noel Nutels, Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Sérgio Buarque de Hollanda, Dona Ruth Cardoso, entre outros, que contribuíram com a grande epopeia civilizatória da criação de um amplo e inclusivo sistema público de ensino em nosso país, devemos lutar com toda energia contra o criminoso e obscurantista projeto bolsonarista para a Educação.

*Milton Alves é ativista político e social, militante do PT de Curitiba. Autor do blog Milton Com Política.