Por Esmael Morais

Ricardo Cappelli: O “Botão do Condomínio Queiroz”

Publicado em 13/03/2019

O jornalista Ricardo Capelli afirma que para se derrubar um governante é preciso vontade política e um fato comprometedor. O fato seria o “botão de ejetar”. Bolsonaro já expôs seu “botão” muito precocemente com as maracutaias dos Queiroz. Se houver a vontade política, basta que o botão seja pressionado.

O “BOTÃO DO CONDOMÍNIO QUEIROZ”

Ricardo Cappelli

A política é movida por vontades e fatos, nesta ordem. Collor não caiu por causa da Fiat Elba. FHC e Lula “pedalaram” tanto quanto Dilma e não caíram. Temer teve malas de dinheiro e áudios indecentes em seu colo, mesmo assim cumpriu seu mandato até o fim.

O fato cumpre o papel de ser o famoso “botão vermelho de ejeção”. Quando as forças políticas decidem que o ocupante da cadeira se tornou indesejado, elas apertam.

Os donos do poder inteligentes gastam parte do tempo tentando esconder seu “botão”. As demais forças fazem o esforço inverso, tentam desnudá-lo, seja para tomar sua cadeira ou apenas para abocanhar um naco maior de poder.

Bolsonaro expôs seu botão vermelho muito precocemente. No curto prazo, será a batalha da previdência que definirá se ele será apertado ou não.

É improvável que o presidente ou algum de seus filhos tenha participado do assassinato de Marielle. Mas as ligações da família com grupos paramilitares são evidentes. Boa parte da população sabia disso quando o elegeu.

No “Escritório do Crime”, o ex-assessor Fabrício Queiroz parece ser um dos cotistas. Além da suspeita de lavagem de dinheiro, sua ligação com milicianos foragidos da “Operação Intocáveis” é clara.

Homenagens na Assembléia Legislativa, filho namorando filha, fotos e vizinhança não decretam envolvimento. Mas são indícios de afinidade e proximidade, no mínimo.

Resta saber o que fará a oposição. A verdade é que o Capitão não tem até aqui uma oposição de fato. O que existe são falas isoladas, disputas inócuas e atitudes de “lacração” nas redes para os já convertidos.

A recente lavada de roupa suja em praça pública – com xingamentos e troca de acusações – entre Ciro Gomes e Gleisi Hoffmann é a expressão de uma oposição perdida e dividida.

Os flancos abertos pelo governo são abundantes. A “receita de Chicago” vai abrindo contradições. Na redução das tarifas de importação do leite, os produtores nacionais gritaram.

Moro e Vélez Rodrigues também vão prestando serviços à oposição. A “Lava Jato da Educação” apavorou empresários e fundos bilionários que atuam no setor.

A maior fissura foi aberta por um dos pais do Plano Real, o economista liberal André Lara Resende, um intelectual respeitado que dinamitou a receita de Guedes para o país.

Relação com milícias, agronegócio ressabiado, educação em polvorosa, economistas liberais rachados e a esquerda se estapeando. Faz algum sentido?

Enquanto isso, Doria anuncia a expulsão de Aécio do PSDB e a provável alteração de nome da sigla, manchada pelas estripulias do mineiro. Duvido que o “João Trabalhador” não esteja procurando todos os setores contrariados.

É cedo ainda para afirmar que o “botão vermelho do condomínio Queiroz” será apertado pelo sistema. Mas o jogo não para. Vai ficando clara a insuficiência das atuais estruturas e lógicas da autoproclamada esquerda para o momento histórico que vivemos.

A direita está tentando se reinventar. Por que só ela?