Por Esmael Morais

Putin mata Trotsky pela quinta vez em série da Netflix, diz articulista

Publicado em 13/02/2019


O ativista social Milton Alves, de Curitiba, faz uma acurada análise da série Trotsky, veiculada pela Netflix, onde chega à conclusão de que o atual presidente da Rússia, Vladimir Putin, mata pela quinta vez o ex-comandante do Exército Vermelho.

O revisionismo de Putin e a ‘quinta morte’ de Trotsky na série da Netflix

Por Milton Alves*

Assisti aos oito capítulos da série sobre o revolucionário russo ainda no mês de dezembro e fui provocado a escrever alguma coisa. Sem risco de cometer spoilers, creio que a maioria dos amigos e leitores com quem conversei já assistiram o polêmico seriado. As diversas análises sobre a série Trotsky partiram de visões históricas e do papel político do companheiro de armas de Lênin e um dos principais líderes da Revolução de 1917.

Neste texto vou procurar desenvolver uma outra abordagem, não vou centrar a minha análise nas imprecisões históricas ou na estética da obra, aliás bem produzida. Ou mesmo em tentar refutar a visão deturpada veiculada na série sobre aquele processo político e social, que sacudiu o século XX e inaugurou a emergência de um movimento de caráter socialista radical em escala mundial, culminando com a criação da III Internacional Comunista e as tentativas de revolução na Alemanha.

A série é demolidora no trato da reputação dos líderes bolcheviques e de seus objetivos. Em rápidas pinceladas: Lênin é apresentado como um oportunista, um sujeito manipulador e sem qualquer escrúpulos para atingir seus objetivos políticos. Trostky é despido de qualquer traço humano, é uma espécie de demônio, frio, arrogante, ditatorial, devorador de almas burguesas e de mulheres. Stálin é um anão político ressentido com o brilho e a liderança de Leon Trotsky. Parvus é o caixa-2 da revolução, financiando com dinheiro alemão a insurreição bolchevique contra o poder czarista.

Em traços gerais, como um novelão, os personagens reais e os fatos históricos são mesclados com amplas doses ficcionais, mas que servem ao projeto de revisão histórica atualmente em curso na Rússia.

O governo de Putin opera uma ampla revisão histórica com o objetivo político de consolidar o longo domínio de sua camarilha política no país . As populares séries produzidas pela televisão estatal russa buscam construir um imaginário de uma nova Rússia unificada, revitalizando o conhecido expansionismo grão russo. As séries “Demônio da Revolução” sobre Lênin, “Os Caminhos da Tormenta”, sobre a agonia final das classes dominantes russas pré-1917, e “Trostsky” tratam de construir uma nova narrativa da história do país. O diretor da série Trotsky, Alexander Kott, e o produtor, Konstatin Ernest (produtora Sreda), possuem fortes vinculações com o partido de Putin, o Yedínaya Rossíya (Rússia Unida).

A “Era Putin” seria, assim, a síntese do melhor da história russa: agregando os valores unificadores e expansionistas da monarquia, aliado ao clero da Igreja Ortodoxa (a maior intérprete da alma profunda russa) e as conquistas científicas e o protagonismo mundial (incluindo a Grande Guerra Patriótica de resistência ao Nazismo) do período soviético.

A série reserva também momentos de densos diálogos como uma imaginária conversa entre o líder bolchevique e o psicanalista Sigmund Freud em Viena sobre o “caráter feminino das massas” e as discussões intimistas e perturbadoras com o jornalista Frank Jacson (Ramón Mercarder) no exílio forçado em terras mexicanas.

A série foi um sucesso de público na Rússia e popularizou Leon Trotsky para as novas gerações. Depois das sucessivas “mortes” do Trotsky real: a primeira, a morte políticacom o exílio forçado e a destituição da cidadania soviética; a segunda, a morte afetiva, com a separação e a liquidação física de sua família; a terceira, a morte física do próprio Trotsky  patrocinada pelo estado soviético stalinizado, tão bem retratada na trilogia de Isaac Deutscher (O Profeta Armado, O Profeta Desarmado e O Profeta Banido). A quarta, a morte da memória e do legado, uma ação não só do stalinismo, mas também de seus seguidores com as sucessivas cisões e cismas quase religiosos na minguada e esquizofrênica IV Internacional, que gerou facções políticas em nome do trostskismo como as sectárias e escatológicas correntes posadistas (do argentino Juan R. Posadas) e morenistas (do argentino Hugo Miguel Bressano, conhecido como Nahuel Moreno).

E agora, Putin, para fortalecer o poder autocrático da sua liderança, decretou a quinta morte de Trostsky. 

Como uma “alma penada” da mitologia portuguesa, Trotsky parece não ter desencarnado em definitivo da vida terrena, seu espectro ainda ronda a alma dos vivos.

*Milton Alves é ativista social e filiado ao PT de Curitiba. Ele é titular o blog Milton Com Política.