Milton Alves vê traços ‘bonapartistas e autoritários’ em Bolsonaro

O ativista social Milton Alves, filiado ao PT de Curitiba, após analisar o discurso de posse, vê ‘traços bonapartistas e autoritários’ em Jair Bolsonaro (PSL).

Resistência ativa para derrotar o governo Bolsonaro, de neoliberais, generais e tribunais! Por Lula Livre!

Milton Alves*

Em artigo publicado em 4 de novembro, uma semana depois do resultado do segundo turno, escrevi sobre a necessidade de um eixo tático de resistência que agrupasse a esquerda em torno da palavra de ordem ‘Por Lula Livre’. Republico o texto novamente acrescentando, porém, duas notas: uma sobre a decisão do PT , PSOL e frações do PCdoB de não participar da solenidade de posse do governo Bolsonaro. A segunda, com base nos discursos de posse e das primeiras medidas anunciadas pelo novo governo, acerca do tipo e do caráter da oposição que o PT e a esquerda devem construir a partir da nova conjuntura política pós-eleições.

Nota 1 – O Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) acertaram politicamente quando decidiram não participar da solenidade de posse do novo governo no Congresso Nacional. O show de horrores e as provocações de Bolsonaro explicitaram, mais uma vez, que está em curso uma tentativa de mudança de regime, um novo modo de governar com traços bonapartistas e autoritários. Um regime de democracia limitada e tutelada pelo alto comando das Forças Armadas (FFAA). Além do ultraliberalismo entreguista na economia e do esmagamento dos direitos sociais e econômicos dos trabalhadores e dos pobres.

Nota 2 – Desde o golpe, via impeachment, que derrubou o governo da presidente Dilma Rousseff segue uma disputa polarizada na sociedade brasileira centrada em duas narrativas básicas que disputam os rumos políticos do país, os corações e as mentes dos brasileiros. A polarização é um fato objetivo e segue ditando o comportamento dos atores políticos decisivos e do conjunto de classes e categorias sociais.

A prisão política de Lula e a vitória eleitoral de Bolsonaro são faces do mesmo e único processo. Se temos essa compreensão de conjunto, a questão nos remete, inevitavelmente, para a natureza do combate político que deveremos travar contra o governo dos neoliberais, generais e tribunais.

Logo, as altissonantes proclamações por frentes amplas e de união da esquerda com o centro tem pouca valia, se não identificarmos quem serão os nossos aliados fundamentais e as forças motrizes e centrais para derrotar o projeto dominante em curso.

Somente uma resistência ativa e de massas, impulsionada a partir das bases sociais dos trabalhadores organizados, do precariado dos grandes centros urbanos, da juventude e das camadas médias profissionais -, será capaz de criar uma muralha política para derrotar o projeto da extrema-direita. Sem essa base social mobilizada e em luta por um projeto alternativo, a esquerda será cada vez mais batida e isolada.

O maior desafio, portanto, é como vamos atrair, reunir e mobilizar esses setores e segmentos sociais para uma efetiva e sólida resistência: a forma e o conteúdo político ganham importância nesse novo cenário. Ao mesmo tempo, as dificuldades que se apresentam são imensas: os sindicatos e centrais seguem distantes dos trabalhadores na base; as organizações estudantis tradicionais estão esvaziadas e sem poder de mobilização; as frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo ainda operam no circuito restrito das camadas mais mobilizadas de ativistas sociais. MST e MTST ameaçados de criminalização. Ou seja, a esquerda precisa reinventar novas formas organizativas de protesto social, explorar com habilidade e inteligência os novos recursos de mobilização social aberto pelas redes sociais (os “coletes amarelos” da França, são um exemplo positivo nesse sentido).

Nesse sentido, para romper o círculo de ferro imposto pela extrema-direita, que compõe o núcleo duro do novo governo, a esquerda vai precisar agir com mais audácia política, com mais vigor militante e assertividade organizativa, fortalecendo as ações extra-parlamentares, de rua – atuando de fora para dentro das atuais instituições – tensionando no limite a legalidade institucional do novo bloco dominante, das instituições parlamentares e dos tribunais.

É uma rota de acumulação de forças, que demarca com qualquer tentativa de acomodação e adaptação ao governo da extrema-direita.

Serão tempos de sangue, suor e lágrimas…

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A seguir artigo publicado em 04 de novembro:

Por Lula Livre, agrupar o PT e a esquerda para a avançar a resistência popular

Ainda estão crepitando as brasas da disputa eleitoral encerrada no último domingo (28), que, segundo os analistas políticos, foi a eleição presidencial mais polarizada na história do País. Grosso modo, dois projetos se defrontaram nas urnas, nas ruas e redes sociais. A vitória do candidato da extrema direita, Jair Bolsonaro (PSL), encerra um ciclo político iniciado com o processo de redemocratização, que aposentou os governos da ditadura e formulou o pacto político e social da Constituinte de 1988.

Aqui neste breve texto, o objetivo não é a realização de nenhum exame das causas da derrota do projeto democrático e popular, representado pelo candidato do Partido dos Trabalhadores, Fernando Haddad, mas, sim, prospectar os caminhos da necessária e inevitável resistência popular.

A vitória de Jair Bolsonaro (PSL), candidato de uma coalização de setores empresariais, banqueiros, militares, de segmentos do aparelho judiciário, do agronegócio mais reacionário, igrejas pentecostais e de grupelhos neofascistas, alcançando 57, 7 milhões de votos (55,13% dos votos válidos) contra 47,03 milhões (44,87%) de Fernando Haddad (PT), abre uma etapa de novos desafios políticos para a esquerda e redesenha o mapa da correlação de forças no país. Candidatos conservadores também venceram as eleições para os governos estaduais de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Ou seja, uma nova situação que vai exigir do conjunto da esquerda, em particular do PT, um esforço para a construção de uma frente política de resistência ao novo governo, tendo como núcleo central os partidos de esquerda e os movimentos sociais, para impulsionar uma potente oposição de caráter popular, construída pela base e unificada na defesa dos trabalhadores e dos pobres, da democracia, dos direitos sociais e da soberania nacional.

Nesse contexto, a retomada com todo vigor da campanha nacional e internacional por “Lula Livre” é um dos eixos centrais do combate ao governo autoritário, ainda mais agora com a nomeação do juiz Sérgio Moro para o Ministério da Justiça. Além disso, avulta a luta em defesa das liberdades democráticas e da soberania nacional. O que demanda também o debate mais aprofundado na esquerda da palavra de ordem de convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte – bandeira demonizada pela direita e a mídia monopolizada.

Por último, a experiência de toda uma geração de militantes da esquerda, incluindo os petistas, se deu num quadro de ascenso de massas, de grandes mobilizações populares, de vitórias eleitorais e de ocupação de espaços no aparelho de Estado em diversos níveis. Mesmo durante o período de hegemonia neoliberal dos governos de FHC, a luta social avançou e o PT se fortaleceu, acumulando sempre mais força. Porém, a situação mudou de qualidade. Há uma evidente defensiva entre as camadas de trabalhadores organizados, a classe média se deslocou para o conservadorismo e temos um cenário internacional e latino-americano de avanço da direita.

É nessa conjuntura adversa que estamos chamados a travar o combate em defesa de nosso projeto civilizatório de nação, com audácia, resiliência e com o otimismo da esperança.

Resistir é o primeiro passo…

*Milton Alves é ativista político em Curitiba e filiado ao PT. (Artigo publicado originalmente no Blog do Esmael em 04/11/2018 e em diversos sites especializados em política).

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