O político desnudou o juiz

O deputado federal Enio Verri (PT-PR) acusa o juiz Sérgio Moro de ser incoerente. “Ele afirmou que seria colocar em dúvida o seu trabalho à frente da Lava Jato ocupar cargo político”, escreve.

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O político desnudou o juiz

Enio Verri*

Ao aceitar o convite para fazer parte do governo Bolsonaro, Sérgio Moro se desnuda, em um ato falho típico das vaidades indomáveis. Seu gesto arrastou o Poder Judiciário para o centro de um debate, já pleno de elementos que colocam toda a operação Lava Jato sob suspeita. A Instituição que ganhou corações e mentes pode ter o seu herói desacreditado. Ministros do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal, bem como procuradores, juízes, uma pequena parte da imprensa nacional e uma considerável parte da imprensa internacional, se considerarmos a projeção dos veículos, se manifestaram com, no mínimo, estranheza.

Além dos ministros Celso de Melo e Marco Aurélio, os primeiros do STF a se pronunciarem, o vexame do Brasil foi internacional. Um dos juízes que conduziu a operação italiana, Mãos Limpas, alter ego da Lava Jato, Gherardo Colombo, declarou que Moro deveria, ao menos, afastar-se por um tempo da magistratura. A Associação Brasileira de Juristas pela Democracia criticou a “conduta excepcionalmente ativista do juiz”. Os jornais “The New York Times” (EUA), “The Guardian” (Ingl.) e “Liberátion” (Fran.) disseram que a polarização de Moro pode custar ainda mais caro à credibilidade do Judiciário.

Ainda segundo essa imprensa, o juiz fortalece a tese do Partido dos Trabalhadores, de que ele atua em franca perseguição política ao partido e a Lula, principalmente. Com provas que não se sustentam, ele encarcerou o candidato favorito, que venceria as eleições no Primeiro Turno, Lula. A seis dias das eleições, abriu o sigilo parcial de uma delação há cerca de oito meses desacreditada pelo Ministério Público. Interrompeu férias, desrespeitou a hierarquia do Judiciário e deu ordens a quem não tem autoridade para tal, para se meter em habeas corpus sobre o qual ele não tinha jurisdição alguma.

Segundo a defesa do ex-presidente, Moro mantinha contato com a cúpula da campanha do candidato eleito. Mas a perseguição e o desrespeito são antigos. Desde a condução coercitiva de Lula, que nunca se negou a depor, à criminosa divulgação de uma conversa entre a presidenta Dilma e Lula. Os maus passos não foram observados e corrigidos no sentido de se fazer cumprir a lei. O resultado é o espetáculo dantesco de autoritarismo, de Moro, como se a sociedade estivesse alheia a tudo, ou não merecesse respeito, ou que a uma determinada casta, tudo é permitido.

Mas a imagem de Moro sairá ainda muito mais chamuscada. Ele é incoerente. Em 2016, afirmou que seria colocar em dúvida o seu trabalho à frente da Lava Jato ocupar cargo político. Moro está embarcando em um governo cujo ministro extraordinário da transição é um confesso Caixa 2. Um governo contra o qual há suspeita de impulsionamentos de mensagens de campanha, nas redes sociais, por robôs, ao custo de dezenas de milhões de dólares, doados por empresas, o que é crime. Sem autoridade para pedir celeridade às investigações, o apequenado TSE deu uma coletiva à imprensa, da qual se pôde depreender que ele não tem nada a ver com isso. São essas submissões que permitem que o autoritarismo e a tirania avancem. Tempos difíceis.

*Enio Verri é deputado federal pelo PT do Paraná.

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