Por Esmael Morais

O PT nasceu da adversidade

Publicado em 30/10/2018

O deputado Enio Verri (PT-PR) minimiza a derrota parcial na eleição de 2018 ao afirmar que o Partido dos Trabalhadores nasceu da adversidade.

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“O PT nasceu da adversidade do chão da fábrica, do enfrentamento ao autoritarismo contra as minorias e o pensamento divergente. Nascemos num momento em que o País vivia uma sangrenta ditadura militar, quando expressar sua ideologia podia custar a vida. Lutamos muito e não foram poucos os que tombaram torturados e assassinados por um governo militar a serviço de uma minoria endinheirada. A história já demonstrou que industriais participaram de sessões de tortura. O PT foi ponta de lança na luta pelas Diretas, em 1984. A democracia e as liberdades individuais são valores muito caros para essa sociedade tardiamente democratizada. Nunca desistiremos deles”, escreve o articulista.

Nascemos da adversidade

Enio Verri*

É difícil compreender a escolha da maioria dos eleitores, no último domingo (28). Quem votou em Bolsonaro o fez por ódio ao Partido dos Trabalhadores (PT), ou porque é rico e tem interesses na política antinacionalista que ele defende. Já a maioria de quem se absteve, também carrega esse sentimento deletério contra o partido, e não percebe que, ao se eximir, não é apenas ele quem será prejudicado, mas sim o Brasil e a classe trabalhadora como um todo.

Uma campanha suja, impulsionada por centenas de milhares de robôs, ao custo de dezenas de milhões de reais, orientou o voto de 57,6 milhões de brasileiros. Durante a campanha, as mensagens veiculadas eram vazias de propostas de como fazer a economia do Brasil se recuperar e gerar empregos. No mais das vezes, mentiras absurdas e ataques contra a honra de Haddad e Manuela. Porém, mais espantoso que a campanha de mentiras foi perceber a crença das pessoas nos absurdos ali proferidos. Isso revela a quantidade de ódio inoculado e o nível da ignorância geral.

A perplexidade seria ainda maior se não soubéssemos que o brasileiro é o segundo povo do mundo em percepção equivocada da realidade. Entre 38 países pesquisados, ficamos apenas atrás da África do Sul. A campanha vencedora, ao invés de levar informação para esclarecer a população e promover o debate entre os projetos, se valeu da condição da população para aprovar uma campanha mentirosa e difamatória. Ódio e desinformação fizeram milhões de brasileiros votarem no projeto que matou de fome, ao fim de 2002, 300 pessoas por dia. À época, o desemprego era de 12,2%, a inflação de 10% e uma taxa de juros de 19%. Enfim, foi eleito justamente um modelo que trouxe desemprego e fome para a maior parte do Brasil.

Os eleitores do Bolsonaro são os únicos do mundo que não acreditam que ele cumprirá com suas promessas, como: varrer opositores, tirar direitos da classe trabalhadora, vender o patrimônio nacional, paralisar os necessários processos de reforma agrária e de demarcação de terras indígenas e quilombolas. Bolsonaro já declarou que mulher deve ganhar menos que homem e votou, na reforma trabalhista, a favor de gestantes e lactantes trabalharem em lugar insalubre. O voto feminino a ele só é possível de entender a partir da falta de conhecimento e da quantidade de ódio inoculado, ao longo de anos, contra o partido que tirou 40 milhões da fome.

Para os que o elegeram, não importa que, ao longo da campanha, ele não tenha se apresentado para debater com os outros candidatos. Depois dos 23 dias acamado, Bolsonaro fugiu de qualquer situação em que fosse instado a defender o seu projeto de governo. Enclausurou-se sob uma desculpa de ameaça de atentado. Recusou-se a dar entrevista, ou participar de algum debate em lugar seguro, como a sua casa. Enfim, os quase 60 milhões de brasileiros aceitaram votar em alguém que se escondeu durante todo o período eleitoral.

O PT nasceu da adversidade do chão da fábrica, do enfrentamento ao autoritarismo contra as minorias e o pensamento divergente. Nascemos num momento em que o País vivia uma sangrenta ditadura militar, quando expressar sua ideologia podia custar a vida. Lutamos muito e não foram poucos os que tombaram torturados e assassinados por um governo militar a serviço de uma minoria endinheirada. A história já demonstrou que industriais participaram de sessões de tortura. O PT foi ponta de lança na luta pelas Diretas, em 1984. A democracia e as liberdades individuais são valores muito caros para essa sociedade tardiamente democratizada. Nunca desistiremos deles.

Desde o golpe de 2016, nos encontramos onde nascemos, na oposição. Sempre estivemos e estaremos ao lado da soberania, da democracia e dos direitos, civis, políticos, sociais e trabalhistas. Votamos contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, contra a entrega do pré-sal aos estrangeiros, contra a PEC do teto de gastos, contra a reforma trabalhista e a favor da cassação de Temer. Acreditamos no povo e com ele estaremos em todos os momentos, principalmente agora, que uma plutocracia acaba de se instalar na Presidência do Brasil e aprofundará a crise econômica.

Mais coesos estamos nessa nova fase de resistência, pois temos a consciência de que o grande prejudicado não foi o PT, mas o Brasil. Lutamos e lutaremos, sempre, o bom combate, contra a opressão e pelo direito da classe trabalhadora ter acesso às riquezas que ela produz. Estaremos na oposição para defender, inclusive, a parte do Brasil que bebeu veneno na intenção de matar o PT. Desejamos que os prejuízos sejam os menores para a população e para a soberania do País. Porém, do projeto vencedor, prosperidade para a maior parte dos brasileiros é o que não devemos esperar de quem foi eleito pelo mercado financeiro.

*Enio Verri é deputado federal pelo PT do Paraná.