Precisamos falar de analfabetismo político

Para o deputado Enio Verri (PT-PR), enquanto desvia a atenção com a prisão de Lula, a lava jato ataca a Petrobras e está desmantelando o setor de óleo e gás do País, com um prejuízo de R$ 140 bilhões.

Precisamos falar de analfabetismo político

Enio Verri*

É atribuída a Bertold Brecht a autoria de um famoso poema intitulado O Analfabeto Político. Segundo o autor, é deste que nasce o mau político, o corrupto. No Brasil, por exemplo, um baixíssimo nível de politização não permite perceber que se elege alguém para criar leis em favor de 15% e em detrimento de 85% da população. Porém, ninguém é analfabeto por opção, mas por condição. O espaço é muito pequeno para demonstrar, historicamente, como essa ignorância foi criada e desesperadamente mantida pela e para o bem da casa-grande. É um perigo quando a senzala aprende a ler.

Até antes da instauração da República era legítimo excluir os escravos e as ralés produzidas por uma abolição para inglês ver. Desde então, a classe dominante, como em outras partes do mundo, usa veículos de comunicação para legitimar o controle das riquezas nacionais e a manutenção de seus privilégios. São mais de 500 anos no controle dos espaços de decisão política, mantido com truculência e com a virulência dos veículos de comunicação que a elite controla. A tecnologia avança e, junto com ela, a narrativa ideológica do Estado Mínimo, de que a disparidade social é legítima e natural, que uns nascem para servir e, outros, para serem servidos.

O conteúdo do discurso não difere do usado em veículos de comunicação de países onde a elite também os usou para controlar a opinião pública. A polarização da luta de classes, no Brasil, nunca esteve tão evidente quanto no processo eleitoral deste ano. Os veículos de comunicação são fundamentais para influenciar os resultados eleitorais. A direita, formada pelo o que a imprensa venal chama de Centrão, faz a política do Estado Mínimo, de um Brasil para poucos e colonizado por outros países. Superar o analfabetismo político passa por denunciar esses veículos de comunicação. E argumento é o que não falta. Todos os dias a imprensa desses veículos engana a sociedade.

Ela escancara que mente e não esconde para quem trabalha. Segundo essa imprensa, a greve de 11 dias de um único segmento profissional, o dos caminhoneiros, é a causa da economia patinar. Ou seja, o país que há pouco tempo era a 6ª economia mundial não sai da paralisia econômica por causa dessa mobilização. Os veículos que analisam a conjuntura econômica dessa forma escondem que, em junho, o Índice de Expectativa do Consumidor recuou 4,5%. A conjuntura econômica é de estagnação e este imenso País vive da expectativa do desembolso de PIS e a venda do patrimônio nacional.

A economia não deslancha porque as famílias não consomem, porque estão desempregadas, porque os empresários não investem, porque o governo também não o faz. A imprensa abandona o jornalismo. As grandes redes de TV mal noticiaram e não cobraram do governo resultado da pesquisa Vox/Populi, divulgada na sexta-feira (27), segundo a qual a vida piorou para 70% da população, desde que Temer deu o golpe de Estado. Para 28% a vida está mais ou menos do mesmo jeito e, apenas 3% aprovam o desgoverno do ministério de notáveis golpistas de Temer.

Caixa de ressonância da perseguição contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os maiores veículos de comunicação do País ignoraram um evento de apoio a Lula, em que se reuniram cerca de 80 mil pessoas, nos Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro. A imprensa nacional é ridicularizada pela imprensa internacional que cobriu o evento. Essa mídia parece não fazer parte do planeta, ou entende ser mais realista que o restante do mundo. O sequestro do maior líder popular do Brasil é denunciado em dezenas de países, sem que a imprensa venal brasileira faça a devida cobertura que o fato merece.

Na a quinta-feira (26), Lula recebeu a visita do presidente da Comissão de Economia do Parlamento Europeu, o eurodeputado Roberto Gualtieri. Em declaração a veículos não alinhados ao golpe, ele se disse chocado com a inépcia da acusação. Gualtieri observou que, na própria sentença, o juiz Sérgio Moro afirma que o tríplex não é de Lula. Porém, o ex-presidente segue preso e nenhum grande veículo de imprensa brasileiro se dá o trabalho de questionar instâncias superiores e de controle do Judiciário para saber o porquê de o maior líder popular brasileiro ainda estar preso.

A concentração de mídia nas mãos de meia dúzia de famílias, em meio à pluralidade de 208 milhões de brasileiros, denuncia a ausência de acesso democrático à comunicação. A população deve se conscientizar, de uma vez por todas, que a mídia hegemônica não está a serviço da informação, mas de quem lhe sustenta, o mercado financeiro. Essa imprensa reverbera comemoração do governo pela criação de 536 mil postos de trabalho, nos últimos 12 meses. Porém, não informa à população que mais de 300 mil são empregos informais.

Portanto, a informação correta não é a retomada da criação de empregos formais, no Brasil, mas a ampliação das pessoas que trabalham como autônomos, ou que se sujeitam a trabalhar sem carteira assinada e com todas as precarizações impostas à classe trabalhadora, pela reforma trabalhista. Pesquisa realizada pelo banco suíço de investimentos, Credit Suisse, revela que a taxa de desemprego retornará à casa de um dígito somente em 2023, caso o País cresça 2% ao ano. Porém, com as incertezas de investimentos se torna improvável a retomada de geração de empregos formais.

A comunicação é outra dimensão do debate. A narrativa da esquerda se alinha aos anseios de 85% da população, mas são 15% que detêm um poder hegemônico que invisibiliza a maioria e mantêm seus privilégios. Durante o processo eleitoral é fundamental apontar quem são os veículos de comunicação a serviço de forças ideológicas prosélitas do Estado Mínimo, que operam à margem do jornalismo para vender a ideia de um país colonizado, eternamente retratado pelo seu bucolismo, e não por desenvolvimento industrial, econômico e social. Para tanto, se valem de mentiras e omissões para legitimar um País para poucos.

Um grande jornal, de circulação nacional, noticiou que a Polícia Federal (PF) recuperou, depois de quatro anos de investigações, R$ 2,6 bilhões desviados da Petrobras. Os peritos estimam os valores desviados entre R$ 6,4 e 42,8 bilhões. Seja como for, os resultados pífios e ofensivos, frente aos prejuízos causados ao País. Ao invés de apenas prender os malfeitores, a Força Tarefa atacou a Petrobras e está, desde então, desmantelando o setor de óleo e gás do País, com um prejuízo de R$ 140 bilhões.

O jornal julgou ético esconder da sociedade que a operação comemora a recuperação de 0,03% enquanto se destrói um segmento da economia que representa 2,12 do PIB. Provavelmente para não alarmar a população, o jornal também omitiu que a operação Lava Jato, aliada à conjuntura politica, contribuiu para os mais de dois milhões de desempregos nas extensas e complexas cadeias produtivas das indústrias de petróleo e naval. A comunicação é inerente ao debate e o combate ao analfabetismo político é parte da luta de classes. Respeito, fraternidade e argumentos são fundamentais para o esclarecimento e a reflexão deve ser provocada. Combater a ignorância é vital.

*Enio Verri é deputado federal pelo PT do Paraná.

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