Sobre as Copas de 2014 e 2018: um olhar crítico

O ativista social Milton Alves atribui à ‘subjetividade’ a falta de empolgação dos brasileiros com a Copa da Rússia. Segundo o articulista, não torcer pela seleção é um gesto progressivo de rebeldia que surgiu naturalmente.

Sobre as Copas de 2014 e 2018: um olhar crítico

Milton Alves*

No texto ‘Nem ufanismo, nem derrotismo: Agora, é torcer pelo Brasil!’ – que escrevi em 05 de junho de 2014 sobre a Copa e o pano de fundo da luta política de então – apresentei argumentos para além da polarização existente entre os governistas e os grupos de oposição, que naquela altura do campeonato iniciavam a acumulação de força política para anos depois derrubar, via o golpe do impeachment, o governo petista. Para além dessa polêmica, havia na esquerda (dentro e fora do PT) quem buscava a construção de um caminho de superação dos impasses e reconhecia o esgotamento do modelo de governabilidade baseado na conciliação e na acomodação de interesses antagônicos. Já naquela Copa de 2014, a população manifestava o seu descontentamento com o evento e via como balela os propalados (e pífios) legados diante da enormidade dos gastos. O desfecho da Copa de 2014 já conhecemos duramente dentro e fora de campo.

Agora, novamente em 2018, na Copa que começou nesta quinta (14) na Rússia, setores de esquerda (minoritários, é verdade) contaminados pelo mesmo ufanismo primário de 2014 criticam o saudável distanciamento do povo com o evento. Mais: criticam (no fundo) o repúdio dos brasileiros aos adereços da CBF – a camiseta amarelo-coxinha, o mascote da CBF e a ausência de decoração verde-amarela nas ruas e praças de todo o país.

Somente uma enorme cegueira mental não consegue entender que o país atravessa uma catástrofe social sem precedentes, como por exemplo, um desemprego de tempo de guerra. Uma escalada antidemocrática perigosa, onde a prisão do ex-presidente Lula é apenas o símbolo mais gritante. Um governo de terra-arrasada, que promove como eixo de ação a exclusão dos pobres, a destruição do aparelho estatal de prestação de serviços à população e outras barbaridades.

Nesse contexto, não torcer por uma seleção da CBF composta por jogadores desconhecidos pela imensa maioria da população é um gesto progressivo de rebeldia do povo – e que surgiu naturalmente. É também um repúdio semi-inconsciente, talvez, ao atual estado de coisas. Apesar dos esforços do establishment para mobilizar o ufanismo das massas, da intensa publicidade de bancos e da Rede Globo, sócia-menor do empreendimento Copa 2018.

Portanto, torcer ou não torcer é um aspecto secundário da polêmica. A dissonância com o evento é o traço mais relevante. Um ganho de consciência. E que a esquerda consequente deve processar e ter em conta no seu acionar político, considerando os seus efeitos nos próximos embates. Atentar para o estado de ânimo, de espírito, a subjetividade da população que tem surgido nos últimos acontecimentos, como o catártico apoio aos caminhoneiros em greve.

Por isso, faz todo sentido a falta de empolgação do povão com a Copa. Além disso, ninguém em sã consciência dança na beira do abismo.

Quanto ao futebol, continuará como uma das paixões dos brasileiros, apesar da cartolagem criminal da CBF/FIFA, dos sequestros dos nossos talentos e do mercantilismo perverso.

*Milton Alves, ativista social, militante do PT de Curitiba e editor do Blog miltoncompolitica.com