A Copa e o complexo de vira-latas

O deputado Luiz Claudio Romanelli (PSB) escreve que é possível deixar para trás o “complexo vira-latas” encontrando uma saída para a crise, nas próximas eleições, através do dialogo, da democracia, do voto popular, da mudança de postura de todos, dos políticos e da sociedade em geral.

A Copa e o complexo de vira-latas

Luiz Claudio Romanelli*

“As vaias são os aplausos dos desanimados”. (Nelson Rodrigues)

Pesquisa do Instituto Datafolha divulgada no dia 12 de junho revelou que 53% dos brasileiros afirmam não ter nenhum interesse com a Copa do Mundo. Somente 18% dos entrevistados disseram que têm grande interesse pela competição, mesmo percentual dos que dizem ter interesse médio. O levantamento mostra que a taxa de desinteresse de agora é a pior às vésperas de uma Copa desde 1994, quando o Datafolha pesquisou o tema pela primeira vez. Naquele ano, apenas 17% não tinham interesse no Mundial.

No país do futebol, a pátria em chuteiras, como dizia o grande cronista, jornalista e autor teatral Nelson Rodrigues, o desinteresse e o distanciamento em relação à Copa do Mundo chegam a causar estranhamento. Assim como causa certo desconforto perceber que há muita gente que vai torcer contra o time que um dia foi o símbolo de orgulho do brasileiro.

Acredito que vários fatores levam a esse alto desinteresse com a Copa: a crise econômica, a situação política e a descrença nos rumos do país, o desencanto com a seleção após a eliminação traumática em 2014 em casa, o legado às avessas que a realização da Copa deixou para o país, a elitização do esporte, a insatisfação com a administração do futebol no Brasil e a corrupção na CBF.

Pesquisa realizada em abril pela Mindminers, empresa especializada em pesquisas digitais, mostra que 54% dos participantes não acreditam que uma eventual vitória da seleção brasileira aumentará a autoestima dos brasileiros. 58% entendem que os escândalos na CBF afetam, de alguma maneira, a vontade de torcer pela seleção.

Em artigo no El País Brasil, Breiller Pires analisa o tema e aponta que o “descrédito popular que tem colocado em xeque o poder da seleção de mobilizar massas e unificar a identidade nacional a cada quatro anos não é fruto exclusivamente do mau humor dos que não enxergam a poesia que emana dos gramados. As causas transcendem o campo de jogo”.

“Há décadas o esporte nacional é gerido à base da troca de favores, politicagem barata e interesses comerciais sustentados pela lógica da propina. Por mais vitoriosa que seja sua história em campo, não há instituição que passe incólume a tantas mazelas fora das quatro linhas. O que ajuda a explicar a perda de apelo não só da seleção, mas do futebol brasileiro como um todo”, analisa.

O ex-presidente da entidade José Maria Marin, de 86 anos, está preso em Nova York. Ele foi condenado pela Justiça dos EUA em dezembro do ano passado por seis crimes de corrupção no futebol, delitos de lavagem de dinheiro e fraude em subornos envolvendo a cessão dos direitos de televisão e marketing de competições. Seu sucessor, Marco Polo del Nero, foi banido para sempre do futebol pela Fifa em abril deste ano.

Até a tradicional camiseta amarela da seleção canarinho deixou de ser unanimidade. O uniforme perdeu prestígio e passou a ser um símbolo daqueles que foram às ruas pedir o impeachment de Dilma Rousseff entre 2015 e 2016.

O articulista do El País Brasil lembra que é bem provável que, com o início dos jogos na Rússia, se o Brasil mantiver o bom nível de atuação, o clima de Copa se espalhe tal qual em 2014, quando o grito de “não vai ter Copa” deu lugar a euforia nas ruas.

“Mas não resta dúvida de que os acontecimentos desde o Mundial passado, principalmente os escândalos de corrupção na CBF, arranharam a imagem do nosso futebol e, por tabela, a da seleção. Aquele que torce contra a pátria de chuteiras não é menos brasileiro que aquele que comemora fervorosamente cada gol anotado pelos comandados de Tite. Pois nada tem a ver com antipatriotismo. O “torcer contra” é, acima de tudo, uma resposta dos que não se sentem representados pelas instituições que se apropriaram da seleção. Um direito tão legítimo quanto o de quem prefere torcer a favor, apesar das contraindicações”.

Arrisco dizer que talvez estejamos sendo mesmo afetados pela complexo de vira lata na definição também de Nelson Rodrigues. “Por complexo de vira-lata” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima”, escreveu o dramaturgo.

Para superar a descrença, o descrédito nas instituições, o pessimismo, o Brasil precisa encontrar uma saída para a crise, nas próximas eleições, através do dialogo, da democracia, do voto popular, da mudança de postura de todos, dos políticos e da sociedade em geral. Estabilidade política gera estabilidade econômica que gera a estabilidade social. Só assim para recuperarmos o orgulho e a alegria de sermos brasileiros.

Boa Semana! Paz e Bem!

*Luiz Cláudio Romanelli, advogado e especialista em gestão urbana, ex-secretário da Habitação, ex-presidente da Cohapar, e ex-secretário do Trabalho, é deputado pelo PSB á. Escreve sobre Poder e Governo