A esquerda fora do segundo turno?

O jornalista Ricardo Cappelli, em minuciosa leitura da pesquisa Datafolha, prevê uma tragédia eleitoral para a esquerda brasileira caso Lula seja impedido de disputar a eleição de outubro. Segundo ele, a mídia controlada pela direita vai abrir espaços aos pré-candidatos progressistas visando a pulverização dos votos. Para Cappelli, a Globo saiu na frente. “O apresentador Luciano Huck é o principal vencedor da amostra. Sem ser candidato empata com o governador Geraldo Alckmin.” Entretanto, o articulista afirma que a esquerda unida vai ao segundo turno e pode ganhar a eleição.

A esquerda fora do segundo turno?

Por Ricardo Cappelli*

Ler pesquisa de acordo com os seus interesses pode acabar distorcendo a realidade. É foto do momento. Um momento de grande instabilidade.

Lula é um fenômeno que organiza e desorganiza o jogo. Sua prisão é uma possibilidade real. Seu encarceramento vai fortalecer o Mito? Tirá-lo de circulação e do noticiário vai fazer seus números derreterem?

O Lulismo não tem coloração ideológica. É maior que qualquer partido. O PT continua sendo o primeiro na preferência nacional. Entretanto, isso não garante uma transferência automática de votos para um petista. O voto é no Lula. “A pesquisa diz que sua influência é enorme.” Verdade. Considere, entretanto, tratar-se neste momento do eleitor que está frustrado, um lulista no “calor da perda.”

Economia

Mas, e a Dilma? Lula estava no poder com cerca de 90% de aprovação. Pôde se dar ao luxo de eleger uma candidata que errava o nome de todos e não completava dois parágrafos transmitindo um mínimo de emoção. Esta é a situação agora? São vários os casos de candidatos que abusaram de colocar Lula na TV como cabo eleitoral e naufragaram. Existem exemplos para todos os lados.

É razoável considerar que um candidato petista tenha dois dígitos, entre 10 e 15%. Uma transferência de quase 50% dos 37% que Lula tem na pesquisa. Mais que isso é futurologia. Circula que o baiano Wagner não teria topado. Haddad começaria sendo surrado na própria casa pelo PSDB.

Ciro cresce quando Lula sai. Sem outro candidato do PT no jogo pra valer é difícil saber se isso será sustentável. É um nome nacional muito qualificado. Até agora continua isolado. Nos melhores cenários sem Lula fica em torno de 13% dos votos.

Bolsonaro parou de subir mas não caiu, mesmo após ter apanhado bastante. Demonstra resiliência. Pode estar sendo escolhido pela direita como adversário. Com 18% dos votos pode garantir uma vaga na disputa final. É um sparing de luxo, o sonho de segundo turno de todos.

Na disputa com a Avenida Paulista, a Globo saiu na frente. Huck é o principal vencedor da amostra. Sem ser candidato empata com Alckmin. O Governador Paulista parte de um “estado-nação” muito forte. É o preferido da Banca. Se não conseguir deslanchar logo a especulação em torno da operação Huck-Globo vai aumentar.

Marina é o plano C da Banca. Sem partido, isolada, é um nome na mão do mercado que pode ser sacado em caso de naufrágio de Geraldo ou da desistência definitiva do apresentador global.

Manuela surpreende chegando a 3% em alguns cenários. Isolada, como todos da esquerda, é uma promessa com um desafio gigantesco pela frente.

Quando Lula sai temos 32% de brancos e nulos. Segundo os diretores do Datafolha, um fato histórico. A saída de Lula adiciona 13% aos brancos e nulos. É a materialização da política de destruição da política. Um buraco pensado, com o objetivo deslegitimar a democracia para fortalecer o mercado e os setores antinacionais da burocracia estatal.

Para onde vão estes 13% de brancos e nulos saídos de Lula? Setores da esquerda acreditam que estão estacionados “numa vaga” esperando o ex-presidente indicar o nome. Para a direita estão na mesma vaga, só que a espera do “novo.“

A grande mídia vai estimular a divisão na esquerda. Interessada na pulverização vai dar espaço maior para todos os candidatos. Podemos ter quatro candidatos da esquerda. PT, PDT, PCdoB e mais algum do PSOL. Sendo otimista, dois candidatos de um dígito e dois de dois dígitos, com teto de 15%. Ocupariam todo o espaço deste espectro político. E ninguém iria para o segundo turno.

O campo conservador, cedo ou tarde, vai se unificar e colocará pelo menos 20% dos votos em algum candidato. Se ficar difícil, Marina, o Plano C, está à disposição.

A esquerda unida vai ao segundo turno e pode ganhar a eleição. Dividida pode ser esmagada e acabar em casa vendo, desolada, uma disputa entre o fascismo e a direita. Diante da defensiva absurda, da hipótese real de prisão de seu principal líder, por que não unidade desde já em torno do Programa de uma Frente Democrática? Nomes e espaços partidários enquanto o país afunda e a democracia é assassinada? A unidade é uma exigência histórica. Se não se der nas urnas, pode acabar acontecendo na prisão e na derrota. Que Brizola, Arraes e Amazonas nos iluminem. E joguem muita luz principalmente sobre a cabeça de Lula.

*Ricardo Cappelli é jornalista e secretário de estado do Maranhão, cujo governo representa em Brasília. Foi presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes) na gestão 1997-1999.

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