Gazeta do Povo recua de plataforma para ‘deduragem digital’ de professores

Após três dias, o blog Gazeta do Povo tirou do ar uma plataforma que estimulava a ‘deduragem digital’ contra professores. O ex-jornalão reconheceu em editorial que a ferramenta acabava por “incitar, na escola, o clima de denuncismo e perseguição”.

O gestor público Miton Alves previu em sua coluna que a ferramenta da Gazeta do Povo iria estimular uma verdadeira guerra contra os educadores, incentivando uma odiosa patrulha militante e instituir, na prática, uma espécie de censura pedagógica.

Entendida por educadores e forças vivas da sociedade como uma ferramenta de ‘deduragem digital’ a serviço do projeto “Escola Sem Partido”, a Gazeta do Povo faz autocrítica dizendo que o “Monitor da Doutrinação”, criado por ela, geraria a quebra de confiança entre aluno e professor. “Portanto, torna-se utópico querer que, em sala de aula, o professor apresente um conteúdo sem que isso seja influenciado por aquilo em que ele acredita.”

Ao final, o blog Gazeta do Povo pediu a “compreensão” daqueles que se sentiram atingidos pessoal ou profissionalmente pela ferramenta.

Abaixo, leia a íntegra do editorial da Gazeta do Povo:

Gazeta do Povo tira do ar “Monitor da Doutrinação”. Entenda por quê

Na quarta-feira (6), a Gazeta do Povo pôs no ar uma ferramenta que se propunha a receber relatos de doutrinação ideológica nas salas de aula brasileiras, que seriam publicados após rigorosa apuração jornalística. O “Monitor da Doutrinação” provocou forte repercussão entre parte dos leitores, como também entre professores e seu sindicato no Paraná, advogados e empresárias.

A reação nos levou a refletir se a ferramenta era condizente com o papel da comunicação, a finalidade editorial e a personalidade da Gazeta do Povo. Se contribuía efetivamente para a construção de um ambiente permanente de debate cordial e construtivo. Se nos colocávamos de forma amiga, respeitosa e inspiradora para fortalecer a educação brasileira. Se estávamos, de fato, cumprindo o propósito de dar poder às pessoas para compreender e transformar para melhor o seu ambiente. Se colocávamos, nesta ferramenta, a comunicação a serviço do desenvolvimento de nossa terra e nossa gente, como é missão deste veículo. 

Como regra geral, em todas as áreas e temas de cobertura, buscamos uma visão mais propositiva. São mais valiosos modelos inspiradores do que a simples denúncia – o que não reduz a relevância e importância da denúncia para a sociedade e o exercício do jornalismo. 

Após essa reflexão, dizemos com total tranquilidade que concordamos em parte substancial com críticas contidas na nota da APP-Sindicato, divulgada na sexta-feira (8). Embora nem de longe fosse nossa intenção, a ferramenta acabava por “incitar, na escola, o clima de denuncismo e perseguição”. 

Uma sociedade é mais forte quanto mais sólidos forem os laços de confiança entre seus membros. Aquilo que o político e diplomata francês Alain Peyrefitte definiu como sociedade de confiança: “o elo social mais forte e mais fecundo é aquele que tem por base a confiança recíproca – entre um homem e uma mulher, entre os pais e seus filhos, entre o chefe e os homens que ele conduz, entre cidadãos de uma mesma pátria, entre o doente e seu médico, entre os alunos e o professor, entre um prestamista e um prestatário, entre o indivíduo empreendedor e seus comanditários – enquanto que, inversamente, a desconfiança esteriliza.” 

Um dos grandes males da sociedade é a quebra de confiança. Estimular essa ruptura, no segmento que for, é capaz de ferir mortalmente a democracia e a busca pelo bem comum. O dano é amplificado quando se trata de crianças e jovens ainda sem maturidade para avaliar corretamente se a postura de quem está diante de si para ensiná-los é adequada ou não. 

Entendemos, ainda, ser impossível que se prescinda totalmente de que se acredita. Nossos valores e visão de mundo são pano de fundo para nossos atos e manifestações. É algo inafastável da realidade humana. Naturalmente, vale também para docentes. Portanto, torna-se utópico querer que, em sala de aula, o professor apresente um conteúdo sem que isso seja influenciado por aquilo em que ele acredita. 

Por outro lado, não concordamos com situações de abuso. Elas existem e têm se tornado muito frequentes, tanto com a manifestação recorrente de opiniões de caráter partidário quanto com a exposição de temas moralmente inadequados. Temos total certeza de que é possível identificar abusos e desvios. Cabe, portanto, ao jornalismo o trabalho de identificar e apurar essas situações. 

Quando se deparar com estes casos, a Gazeta do Povo não deixará de atestar sua veracidade e publicá-los após rigorosa apuração jornalística. Porém não mais com o uso do “Monitor da Doutrinação”, tirado do ar a partir do momento da publicação deste texto. 

Este não é – como jamais foi – o foco único da editoria de Educação da Gazeta do Povo. Indicamos caminhos bem-sucedidos pelo mundo, como os modelos do Chile, da Coreia do Sul, da Finlândia e de Cingapura. Mostramos práticas inovadoras como os benefícios de se ensinar economia básica na escola, o uso da meditação para reduzir problemas de disciplina, o “whole brain teaching” e técnicas para estimular a leitura nas crianças em tempos de smartphone sempre à mão. Discutimos políticas públicas como associações entre municípios para a gestão da educação e a Base Nacional Curricular Comum. 

Contamos com a compreensão daqueles que se sentiram atingidos pessoal ou profissionalmente pela ferramenta. Também com a confiança daqueles que têm na Gazeta do Povo um jornal que traz olhar e valores únicos sobre as diversas áreas de cobertura. Seguimos em frente em nossa missão como veículo de comunicação, sempre abertos a reforçar a permanente reflexão sobre nosso papel sempre que os leitores e a sociedade assim desejarem.

Comentários encerrados.