Por Esmael Morais

Enio Verri: Tomar o Brasil de volta

Publicado em 19/12/2017

Tomar o Brasil de volta

Enio Verri*

A pobreza e a miséria, mazelas históricas do Brasil e fortemente combatidas entre 2003 a 2015, voltam a atemorizar milhões de lares e o País corre o risco de figurar novamente no Mapa da Fome, monitorado pela ONU. Entre 2004 a 2015, o número de pobres extremos, com renda mensal de R$ 133,72, caiu de 23,3 milhões para 10 milhões de pessoas. Queda de 9%. Já o número de pobres, com renda mensal de R$ 387,07, caiu de 83,2 milhões para 43,1 milhões. Menos 22,3% de gente passando fome.

De 2015 a 2016, o número de pobres extremos aumentou em cerca de cinco milhões, passando de 13 milhões de pessoas no total. Já o número de pobres é de 52,2 milhões, um acréscimo de nove milhões. Voltamos a patamares de 2009 e 2011, respectivamente. A diferença de hoje para os números daqueles anos é que a tendência era de queda na quantidade de famélicos. Ao contrário de agora, que não para de subir. Com as medidas liberalizantes, recessivas e entreguistas adotadas pela camarilha Temer, o número do desemprego e subemprego vai aumentar e a pobreza não vai diminuir.

As políticas favorecem a uma entidade chamada mercado, em detrimento de pelo menos 85% dos 207 milhões de brasileiros. O golpe atua em várias frentes. Executivo e Legislativo destroem a economia, a política e entregam a nação aos interesses dos países centro de poder. Por suas vezes, Judiciário referenda as medidas traidoras da Constituição e a imprensa interessada no golpe mantém uma população historicamente despolitizada, confusa com bastante a desinformação.

O Judiciário e os órgãos de fiscalização e controle têm papel de destaque no golpe de 2016. O de impedir o ex-presidente Lula de participar das eleições de 2018. Suas interposições, como pedido de reconhecimento de perícias em documentos, ou para serem ouvidas testemunhas de defesa, são sistematicamente negadas pelo juízo da 13ª Vara de Curitiba. Às vésperas de 2018 e com a popularidade de Lula em franca e pujante ascendência, o TRF4 acelerou o andamento do julgamento dos seus recursos.

Estarrecida e decepcionada, a população toma conhecimento, graças às redes sociais, tanto das arbitrariedades da Lava Jato, quanto da ligação da Força Tarefa da operação ao pagamento de uma propina de U$ 5 milhões, para livrar uma multa de U$ 15 milhões. Até o momento, ouve-se dos conselhos nacionais de Justiça e do Ministério Público um silêncio cúmplice. A população está entregue à própria sorte, não há a quem reclamar. Os poderes e os órgãos de fiscalização e controle estão juntos, “com o Supremo, com tudo”, para “estancar a sangria”.

É preciso observar o golpe em toda a sua plenitude. Em suma, ele veio para implantar uma radical política liberal. Ela pode ser observada na precarização máxima das condições de trabalho, como a terceirização generalizada e a contratação temporária, com salários aviltantes, para a classe trabalhadora se consumir em vários subempregos, sem tempo para estudar e se politizar.

Em outra frente, o ministério de notáveis golpistas, sabujos e entreguistas cessam as riquezas energéticas e as empresas estratégicas brasileiras ao interesse do capital internacional, privado e estatal. Temer e Henrique Meirelles estão criando empregos e promovendo o desenvolvimento de outras nações, enquanto desemprega e desinveste no Brasil. A população despolitizada não compreende que a soberania do País e a autodeterminação de desenvolvimento da nação brasileira passam a ser do interesse de outros países, de outros povos.

Nesse sentido, assim como disse ontem, afirmo novamente, hoje, a necessidade de se instalar o máximo de comitês populares, em todo território nacional. Não é pouca coisa que está em jogo e a população percebe, no dia a dia, as consequências dos ataques da elite entreguista à nação. Os comitês têm a tarefa de mobilizar e organizar a população para a instalação de uma determinada e muito clara de razões, desobediência civil.

A população não pode e não vai aceitar inerte a usurpação da soberania nacional e da sua capacidade de decidir o seu desenvolvimento. Tomar o Brasil de volta, esse é o objetivo. Os comitês populares são os espaços para construir os caminhos necessários parta se alcançar esse objetivo. O Brasil não pode admitir ser referência em covardia, como explicitado na Argentina. Durante manifestações contra uma reforma da Previdência, pretendida pelo presidente Maurício Macri, quando as ruas de Buenos Aires foram tomadas, as palavras de ordem eram: “Isto aqui não é Brasil”.

*Enio Verri é deputado federal pelo PT do Paraná.