Quem Moro protege ao não aceitar delação de Palocci? Para quem ele quer mostrar serviço?

Publicado em 27 junho, 2017

Chamou mais a atenção do país a negativa do juiz Sérgio Moro à delação do ex-ministro Antonio Palocci do que a condenação, propriamente dita, a 12 anos de prisão por corrupção envolvendo a Odebrecht.

Na sentença condenatória, o magistrado afirma que a proposta de delação de Palocci parece muito mais com uma “ameaça” do que com uma “declaração sincera de que pretendia colaborar” no âmbito da lava jato.

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Ameaça a quem cara-pálida? Moro não fundamentou exatamente a quem Palocci “ameaça”. Seria ao corrupto sistema bancário cujo “roubo” perpetrado contra todos os brasileiros se dá à luz do dia?

O senador Roberto Requião (PMDB-PR), crítico contumaz do desvirtuamento da força-tarefa, ao seu jeito, ironizou a decisão do juiz da lava jato fazendo uma debochada enquete sobre o tema: “Você gostaria de ver a denúncia do Palloci?”, perguntou no Twitter e, logo em seguida, ofereceu as seguintes opções de respostas: “1) Claro; 2) O MPF NÃO VAI DEIXAR; e 3) Não, com banco não”.

Ao barrar Antonio Palocci de fazer delação estaria o juiz Sérgio Moro fazendo uma média com o capital financeiro, ou melhor, sinalizando para os bancos, haja vista ser ele o “único” capaz de fazer frente ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo o Datafolha?

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Aliás, a pesquisa foi divulgada justamente no mesmo dia em que saiu a sentença. A simbologia é de tal magnitude que também coincide com o discurso da velha mídia segundo qual é preciso descolar a crise “política” da “economia”, etc.

Não é a primeira vez que Moro refuga quando é contrariado o projeto do ‘núcleo político’ dos integrantes da lava jato em Curitiba. O magistrado já proibira antes perguntas formuladas pelo ex-deputado Eduardo Cunha, entendidas como roteiro de delação, alegando que se tratava de “chantagem” ao ilegítimo Michel Temer.

Note o caríssimo leitor que foi preciso a descentralização da lava jato, a partir de Brasília, sem os guris da capital paranaense, para estourar o esquema criminoso de Temer e da JBS. Caso contrário, o Brasil e o mundo jamais tomariam ciência do que ocorria, na calada da noite, no Palácio Jaburu — a residência oficial de Michel Temer.

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Em 20 de abril, por exemplo, Palocci prestou depoimento a Moro e insinuou que não foram apenas as empreiteiras que tiveram interesses atendidos durante os mandatos petistas. Segundo o ex-ministro, o governo “muitas vezes salvou empresas, em situações de emergência, usando o limite da lei.” Ele indicou que, num acordo de delação, poderia entregar empresas de comunicação e figuras de peso do sistema financeiro.

“Fico à sua disposição hoje e em outros momentos, porque todos os nomes e situações que eu optei por não falar aqui, por sensibilidade da informação, estão à sua disposição o dia que o senhor quiser”, disse a Moro.

Relações perigosas de Dallagnol

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Segundo informações da jornalista Mônica Bergamo, na Folha desta segunda (26), os procuradores de Curitiba, liderados por Deltan Dallagnol, estão “apreensivos com o impacto” que a delação de Palocci pode causar ao sistema financeiro e estudam uma maneira de evitar prejuízos estratosféricos aos bancos, na contramão do que fizeram com as empreiteiras.

“Uma das ideias que já circularam seria a de se promover uma complexa negociação com os bancos antes ainda da divulgação completa dos termos da delação de Palocci. Quando eles viessem a público, as instituições financeiras já teriam feito acordos de leniência com o Banco Central, pagando as multas e liquidando o assunto. Isso em tese evitaria turbulências de proporções ainda maiores do que as inevitáveis”, disse Bergamo. Segundo a jornalista, a delação está “avançada”.

A mudança de postura do MPF é anunciada num cenário em que Dallagnol recebe questionamentos sobre as palestras patrocinadas pelo setor privado. Na semana passada, ele participou de evento da XP Investimento, uma corretora do mercado financeiro.

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Palocci está preso em Curitiba desde setembro de 2016, quando foi alvo da 35ª fase da Lava Jato, a Operação Omertà, e assim ficará, se depender de Moro. Na sentença emitida nesta segunda, Moro sustentou que Palocci deve aguardar a fase recursal de seu processo em prisão, porque sua liberdade compromete não só a Lava Jato, mas a lisura das próximas eleições.

“Foram condenados ainda os marqueteiros do PT João Santana e Monica Moura, o ex-tesoureiro petista João Vaccari Neto, o ex-diretor da Petrobras Renato de Souza Duque, os ex-executivos da Sete Brasil João Carlos Ferraz e Eduardo Vaz Musa, o empresário Marcelo Bahia Odebrecht, e Hilberto Silva Mascarenhas, Fernando Migliaccio, Luiz Eduardo Soares, Marcelo Rodrigues e Olívio Rodrigues”, apontou o Estadão.

Com a sentença de Palocci – emitida em 10 dias – Moro fica livre para bater o martelo sobre o caso triplex, em que Lula é acusado de receber propina da OAS. A esse respeito, a velha mídia golpista já teve acesso à condenação: “22 anos e cadeia – 10 anos por lavagem de dinheiro e 12 por corrupção passiva”, antecipou no último fim de semana a revista IstoÉ.

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Com informações de Luís Nassif, do Jornal GGN

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