Curitiba foi transformada num tribunal kafkiano pelos “guris” da Lava Jato

ester_artigoA filósofa Ester Maria Dreher Heuser, Professora Doutora da Unioeste, no município de Toledo/PR, em artigo especial para o Blog do Esmael, afirma que garotos da Lava Jato, em Curitiba, copiam a ficção na “caça” e nos julgamentos que fazem. “Tal como em Kafka, agora, tudo pertence ao tribunal, nele impera a arrogância dos magistrados e a absolvição real só existe em lendas antigas”, escreve a colaboradora.

Abaixo, leia, comente e compartilhe a íntegra do texto:

Deusa da Caça: a “nova” cara da Justiça brasileira

por Ester Maria Dreher Heuser*

A nova geração do judiciário federal brasileiro vem, de fato, mudando a cara da Justiça no Brasil. Num primeiro momento, quando a Força-tarefa de Curitiba começou a “entornozelar” criminosos de “colarinho branco”, pareceu que aqueles garotos iriam mudar o mundo e, finalmente, equilibrariam a balança nas mãos da deusa de olhos vendados, fazendo com que a Justiça brasileira valesse para todos. Sem demora, contudo, os jovens letrados, especializados em Harvard e capacitados pelo governo norte-americano, fizeram da literatura kafkiana uma realidade; ignoraram que O processo de Kafka é uma ficção que deve servir para nos advertir das potências diabólicas do futuro e fizeram dele realidade.

Como a máquina judiciária kafkiana, a partir de suas convicções e de seus pontos de vista político, partidário, jurídico e religioso, os guris de Curitiba quiseram fundamentar a realidade com uma nova cara da Justiça e pô-la a funcionar como instrumento para controlar a vida, em todas as suas dimensões, de maneira desigual, seletiva e violenta. Passaram a fazer escola. Tal como em Kafka, agora, tudo pertence ao tribunal, nele impera a arrogância dos magistrados e a absolvição real só existe em lendas antigas.

Uma visão kafkiana diz muito da nova cara da Justiça brasileira. Trata-se do quadro que a personagem principal d’O Processo, Joseph K. – acusado de um crime que não sabe qual é, e, menos ainda, com base em qual lei – vê na casa do pintor de retratos Titorelli: logo chamou-lhe a atenção um retrato pintado a óleo; nele “o juiz queria, naquele momento, levantar-se ameaçadoramente da poltrona-trono, cujos braços segurava com firmeza”. K., no entanto, não conseguia explicar a si mesmo o que era aquela grande figura que ocupava o espaldar do trono e perguntou ao pintor […] – É a Justiça – respondeu Titorelli. – Agora já a reconheço – disse K. – Aqui está a venda nos olhos e aqui está a balança. Mas com asas nos calcanhares em plena corrida? – Sim, tive de pintar assim por encomenda; na verdade é a Justiça e a deusa da Vitória ao mesmo tempo. – Não é uma boa vinculação – disse K. sorrindo. A justiça precisa estar em repouso, senão a balança oscila e não é possível um veredito justo […] O senhor pintou a figura como ela realmente fica no trono? – Não vi a figura nem o trono, tudo é invenção. – Não é de fato um juiz que está sentado na cadeira? – Sim, mas não é um alto magistrado, e nunca esteve sentado numa cadeira assim. – E faz-se pintar numa postura tão solene? Está sentado aí como um presidente de tribunal. – Sim, esses senhores são vaidosos. K. olhou de novo para a figura da Justiça. Ela já não lembrava mais a deusa da Justiça, nem tampouco a da Vitória, agora se assemelhava, por completo à deusa da Caça.

Como manter a harmonia entre a abstração da lei e a concretude das práticas jurídicas se a filha do Céu e da Terra, portanto, do espírito e da matéria, perdeu suas características mais próprias? Como fazer valer o jus-dicere imparcial e a igualdade dos direitos pressupostos nos olhos vendados da deusa e na balança por ela empunhada, representando o equilíbrio da razão e do julgamento, se perdeu a prudência e a serenidade e, com pés ligeiros, acompanhada da sua irmã Força e dos irmãos Poder e Ciúmes, deseja o sucesso?

O que pode alguém frente ao arco e às aljavas certeiras da deusa da Caça que, na maquinaria jurídica curitibana também faz as vezes da Justiça? Deusa que escolhe seus alvos e os encontra onde quer que estejam, mesmo que seja dentro de um hospital, ao lado da sala de cirurgia; mas que, por gosto, deixa escapar outros, pois “não sabe onde mora”. Diana seleciona seus alvos, Joseph K. nada pôde contra ela, acabou, de “forma barata”, morto “como um cão”. Você e eu, o que poderemos contra ela?

*Ester Maria Dreher Heuser é Professora Drª de Filosofia da UNIOESTE/Toledo-PR.

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