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Coluna do Rafael Greca: Curitiba não se resume à desventura, Curitiba é Luz dos Pinhais

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Rafael Greca (PMN), em sua coluna semanal, anuncia a conclusão de seu novo livro “Luz dos Pinhais, História e Estórias de Curitiba”, que será publicado ainda este ano pela editora Solar do Rosário; segundo Greca, a publicação visa lançar luz sobre a formação étnica e cultural da capital paranaense, mostrando os usos e costumes dos povos que vieram de diversos cantos do mundo para construir suas vidas em Curitiba; a obra trata também da ocupação territorial e do desenvolvimento econômico da região; e a transformação da cidade que na virada do Século XIX para o XX, “dormiu sertaneja e acordou européia”; Greca cita ainda os artistas mais importantes da cidade, desde os princípios, até os dias de hoje, além da importância da cidade no urbanismo. Leia, ouça, comente e compartilhe.

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Rafael Greca*

Terminei meu novo livro. “Luz dos Pinhais, História e Estórias de Curitiba“. Será publicado, ainda este ano, pela editora Solar do Rosário. São 99 capítulos, aproximadamente 600 páginas, onde reúno apontamentos para o estudo da mentalidade curitibana. Alegria pelo dever cumprido para com minha terra e minha gente.

Nas palavras deste livro, a Luz dos Pinhais vai revogando a escuridão e o silêncio da noite dos tempos em que jaziam imersas as terras que servem de berço ao rio Iguaçu. Acredito em Dante Alighieri quando diz que a “escuridão é o silêncio da luz”.

Invocamos a mesma Luz dos Pinhais para resgatar das névoas do esquecimento a memória coletiva de um povo singular: os curitibanos.

Aqui nascidos, ou que aqui escolheram viver. É extensa a bibliografia sobre a cidade de Curitiba, o povoamento da região da capital do Paraná, no vale do rio Iguaçu.

Ponto de passagem do Caminho do Peabirú, trilha indígena pré-cabralina, Curitiba fez-se marco da ocupação portuguesa do Brasil Meridional.

Já em 1639, o governador ibérico de São Paulo, autoriza a “posse dos Campos do rio Mbyrigüi” (o nosso atual rio Barigüi) em favor de Matheus Luiz Grou.

A “entrada” em território até então espanhol, favoreceria após a restauração do Reino de Portugal (em 1640)*, a revogação do Tratado de Tordesilhas (1492) pelos Tratados de Madrid (1750), Tratado de El Pardo (1762) e depois o Tratado de Santo Ildefonso (1777). O princípio de “uti posedetis”, usando Curitiba como cunha de penetração, seria o principal argumento português em favor da atual geografia da América do Sul.

Já em 1654, o mapa de João Teixeira Albernaz, cartógrafo real, refere Curitiba, – como “Campos de Querityba” – marcando capela e arraial serra acima. Então Ministro Presidente da Comissão Binacional Comemorativa dos 500 Anos do Brasil, tive a alegria de manusear este mapa, em março de 2000, por obséquio do então presidente de Portugal Mário Soares que mandou traze-lo até o Palácio d’Ajuda, desde a Torre do Tombo de Lisboa, para que o presidente Fernando Henrique Cardoso e eu o apreciássemos.

Na bibliografia paranaense nenhum título até hoje procurou abranger todo o processo de ocupação territorial, formação cultural, importância histórica e econômica da nossa Curitiba que, muito antes de ser considerada cidade modelo do Brasil, foi arraial de mineração de ouro – o primeiro do Brasil -, pouso de tropas, entreposto de regimentos lusitanos no combate aos espanhóis, cunha de avanço português sobre a Linha de Tordesilhas.

Do ponto de vista da ocupação territorial, a povoação de Curitiba, a partir da exploração das minas de ouro de Paranaguá, foi essencial na consolidação do domínio português no sul do Brasil. Foi a partir desta região que se estenderam os reinóis lusitanos até os confins do atual Rio Grande do Sul, na charqueada de Pelotas e também do Uruguai, na colônia do Sacramento.

No limiar do século XIX, Curitiba dormiu sertaneja e acordou europeia.

Após o ciclo do ouro e das tropas de gado, o cultivo da erva mate, e a convergência de correntes imigratórias, fazem da cidade o símbolo do que Wilson Martins chamaria de O Brasil Diferente.

Curitiba, ao receber alemães, italianos, poloneses, ucranianos, russos brancos, árabes súditos otomanos, israelitas, japoneses, e gente de todo Brasil, torna-se uma Rua que passa por muitos países.

A cidade progride em engenharia, arquitetura e urbanismo, ao receber imigrantes e também o corpo técnico atraído pelas obras da Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá (1880-1885).

Isto se nota nos palacetes dos senhores da Erva Mate, no Hospital de Caridade da Santa Casa de Misericórdia (1880), na nova Catedral Metropolitana (1893), na arte cemiterial, e nas diversas igrejas das colônias, com torres em agulha, cúpulas em zimbórios, recortando o horizonte.

A importância cultural de Curitiba revela-se no Movimento Simbolista Brasileiro retratado por Andrade Muricy na obra “O Símbolo à Sombra das Araucárias”. A efervescência cultural do final do século XIX e início do século XX gerou na capital do Paraná o Movimento Neo Pitagórico que culminaria com a criação da Primeira Universidade do Brasil, em 19 de dezembro de 1912, a partir de projeto do historiador e imortal escritor Rocha Pombo, apoiado pelo meu bisavô o Comendador José Ribeiro de Macedo, ainda em 1892.

A cidade é berço de grandes artistas plásticos como Poty Lazzarotto, ilustrador de obras literárias de Jorge Amado, Gilberto Freire, Guimarães Rosa entre outros. Também são de Curitiba, o contista Dalton Trevisan, o poeta Paulo Leminski, e toda uma plêiade de valores da moderna cultura brasileira.

A partir de Paranaguá e de Curitiba o diplomata compositor Brazílio Itiberê da Cunha fundou a Música Nativista Brasileira, com a composição “A Sertaneja” que escolhi, interpretada pelo pianista Artur Moreira Lima, em 1993, para Música Tema dos 300 anos da nossa Cidade quando tive a ventura de ser o prefeito. Esta composição pianística é inspirada na antiga ciranda Balaio, Meu bem Balaio.

Curitiba é também uma das mais importantes cidades brasileiras, referência de planejamento urbano a nível mundial, a partir da trajetória do IPPUC – Instituto de Pesquisas e Planejamento Urbano de Curitiba (1965), do qual sou engenheiro membro concursado.

Merecedora em 1996 do Prêmio Mundial do Habitat da Agencia ONU / Housing and Building Foundation, distinção obtida na nossa gestão de prefeito de Curitiba, a Cidade não pode dormir sobre os louros conquistados.

Devemos ouvir a máxima romana: dormientibus non sucurrit jus, quer dizer, o direito não acolhe aqueles que dormem.

Uma cidade com a tradição de Curitiba não merece ser definida ou resumida pela desventura.

O relato dos sucessos que a tornaram exemplo de cidadania e urbanismo pode ajudar a iluminar o Brasil.

Pode também fomentar naqueles curitibanos que vão nascer a vontade de fazer brilhar, ainda mais alto, a Luz dos Pinhais.

*Rafael Greca, ex-prefeito de Curitiba, é engenheiro. Escreve às quartas-feiras no Blog do Esmael sobre “Inteligência Urbana”.

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