Coluna do Bruno Meirinho: No dia da mentira, lembremos o golpe de 64

mentira

Advogado Bruno Meirinho, em sua coluna deste 1º de abril, recorda do golpe militar de 1964, que ocorreu bem no dia da mentira, e comenta como o mesmo espírito golpista tomou conta da vida política nacional; ele afirma ainda que pedaladas fiscais não podem ser motivo cabal para o impeachment, pois foram praticadas muitas vezes em governos anteriores e também atualmente por governos estaduais; segundo o colunista, é preciso respeitar a vontade das urnas na eleição de 2014; articulista diz que manifestações contra Dilma se dão contra o “governo vermelho”, mas não têm relação com “roubo” e isto confirmaria a farsa; Meirinho ainda denuncia o presidente da Fiep, Pato Skaf, como sonegador de INSS; “Skaf faliu sua indústria já no ano 2000, e somente atua na Fiesp pela generosidade de outro industrial que o convidou para seu conselho de administração. Skaf deve uma fortuna em contribuições para o INSS, que seria revertida para a aposentadoria de seus ex-funcionários”, revela o colunista Bruno Meirinho.

Bruno Meirinho*

52 anos depois do golpe militar praticado no 1º de abril de 1964, a ameaça do golpismo volta a ser realidade. Como toda ameaça golpista, esta que vivemos hoje se sustenta em mentiras, que ditas centenas de vezes pelas mídias são convertidas em verdade.

O pedido de impeachment levado à Câmara dos Deputados propõe ter havido crime de responsabilidade nas pedaladas fiscais. De enquadramento estritamente técnico, e difícil compreensão na linguagem comum, a pedalada fiscal é um atraso no repasse de recursos públicos a algumas instituições do governo federal, permitindo que o orçamento feche no azul.

Mas tem gente que defende o impeachment alegando que Dilma “roubou”.

As pedaladas fiscais não podem ser um motivo cabal para o impeachment, afinal foram praticadas muitas vezes em governos anteriores e também atualmente por governos estaduais. Trata-se de uma manipulação contábil que pode ser proibida, e rigorosamente fiscalizada, mas puni-la de pronto hoje é mera manobra de perseguição à Dilma.

Certamente, Dilma não faz um bom governo. Criticada pelos movimentos sociais, sindicatos de trabalhadores e pela maioria de seus eleitores, a presidenta não demonstra esforço para corresponder às expectativas da campanha “Coração Valente”.

A oposição de direita, por sua vez, já alimenta a repulsa à Dilma desde muito antes. Ao final de uma eleição disputada, o candidato da oposição foi votado por mais de 50 milhões de pessoas. No universo de 105 milhões de votos, uma diferença de apenas 3,5 milhões em relação à presidenta eleita, muito pouco. Os oposicionistas viram aí a chance do “terceiro” turno.

Mas é preciso respeitar a vontade consagrada da maioria absoluta. Seja com a diferença de votos que for, houve um resultado legítimo. Por isso, Dilma ocupa o cargo, mesmo com a insatisfação de milhões de pessoas. E não seria diferente se o resultado tivesse sido o oposto, dado o contexto de disputa acirrada.

Por isso, não podemos supor que manifestações de rua, ainda que reúnam 5 milhões de pessoas, sejam suficientes para atestar a necessidade de deposição da Presidência da República, uma vez que esse número não representa, nem de longe, a multidão de eleitores.

E também fica claro que as manifestações de rua expressam outras indignações que nem de longe se ligam à acusação das pedaladas. Manifestações acusam que o governo é “vermelho”, que é sustentado por uma massa de beneficiários do programa bolsa família e que o PT é corrupto. Nada disso está narrado no pedido oficial de impeachment.

Daí revela-se a falsidade do processo de impeachment, afinal de contas, a maioria das acusações das manifestações são mera expressão de preconceito, e jamais sustentariam um processo constitucional de deposição da titular da Presidência da República. Se Dilma sofrer o impeachment, será muito mais por motivos ocultos (inconfessáveis) do que pelos motivos declarados. Será uma mentira.

Falando em mentira, tenho achado curioso o envolvimento ostensivo da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) nas manifestações pelo impeachment. Financiando manifestantes e, até mesmo, cercando seu “lote” na Avenida Paulista, que parece abranger também as pistas dos carros, a Fiesp colaborou com manifestantes que fecharam a Paulista por alguns dias, mesmo reunindo pouco mais de 30 pessoas.

Representante da “indústria” do Estado mais dinâmico, o que a Fiesp fala normalmente é entendido como a expressão do capital produtivo. Mas resolvi pesquisar quem são os diretores da Fiesp que tomam decisões tão importantes para o futuro do país. Comecei pelo seu presidente, Paulo Skaf, que faliu sua indústria já no ano 2.000, e somente atua na Fiesp pela generosidade de outro industrial que o convidou para seu conselho de administração. Skaf deve uma fortuna em contribuições para o INSS, que seria revertida para a aposentadoria de seus ex-funcionários.

Seria esse “pato” que Skaf não quer pagar? Outro dia falarei sobre os demais industriais falidos e os banqueiros que controlam a mais expressiva associação industrial do país.

*Bruno Meirinho é advogado, foi candidato a prefeito de Curitiba. É o coordenador local da Fundação Lauro Campos, instituição de formação política do PSOL. Ele escreve no Blog do Esmael às sextas-feiras sobre “Luta e Esperança”.

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