Por Esmael Morais

Coluna do Luiz Cláudio Romanelli: Porque navegar é preciso

Publicado em 14/03/2016

“Sei que há léguas a nos separar. Tanto mar, tanto mar.
Sei, também, como é preciso, Navegar, navegar”.
Chico Buarque

Ouça o áudio:

Luiz Cláudio Romanelli*

Há 50 anos, no dia 24 de março de 1966, nascia o Movimento Democrático Brasileiro, reunindo os políticos progressistas oriundos dos partidos políticos extintos pelo Ato Institucional nº 2. Mais do que um partido, era uma frente na luta contra a ditadura e a repressão militar, na defesa dos direitos fundamentais como a liberdade, igualdade e a democracia. Em 1980, por força da reforma partidária, surge o PMDB, partido majoritário da oposição.

Foi nesse PMDB, símbolo de resistência contra o regime militar, que lutava pela anistia, contra o arbítrio e as violações dos direitos humanos, que me filiei.

Aos vinte e poucos anos, idealista e combativo, fui um dos fundadores do partido no Paraná e tive a honra e o privilégio de conviver com políticos como Euclides Scalco, José Richa, Álvaro Dias, Walter Pecoits, Adhail Sprenger Passos, Goiá Campos, Maurício Fruet, Enéas Faria, Waldyr Pugliesi, Requião e tantos outros homens públicos de caráter e conduta irretocáveis.

Foi nesse PMDB que trabalhei para eleger José Richa governador e Alvaro Dias senador, em 1982, na primeira eleição direta para governadores pós-64. Como na música Tanto Mar, de Chico Buarque: “foi bonita a festa, pá, fiquei contente,ainda guardo renitente um velho cravo para mim”.

Foi nesse PMDB, então um partido guarda-chuva que abrigava liberais, socialistas, comunistas, futuros pedetistas, pefelistas e pepistas, que lutei pelas Diretas Já, no memorável comício de janeiro de 1984- que ajudei a organizar. Naquele PMDB havia políticos da envergadura de Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Mário Covas, Miguel Arraes, Pedro Simon, José Richa, Fernando Henrique Cardoso, Teotônio Vilela, Tancredo Neves. O PMDB era um partido de todos que acreditavam ser possível construir um Brasil melhor, mais justo e solidário.

Naqueles bons tempos, o PMDB era mais do que um partido político- era uma bandeira de esperança. E cheio de esperança em dias de mais justiça social que fui um dos coordenadores da campanha de Roberto Requião à prefeitura de Curitiba, em 1985. Lutamos juntos por uma Curitiba bela e justa e demos ali os primeiros passos para a redução das desigualdades na capital paranaense.

Trabalhamos para eleger Alvaro Dias governador em 1986 e estivemos juntos nas campanhas ao governo do Estado e ao Senado- uma trajetória de companheirismo, solidariedade e lealdade. Tínhamos os mesmos sonhos, objetivos comuns.

Na Assembleia, de 95 a 99, fiz oposição ao governo Jaime Lerner e fui uma voz solitária, mas firme, contra a implantação do pedágio. O tempo provou que eu estava certo.

No governo do Estado, fui duas vezes presidente da Companhia de Habitação do Paraná nas gestões de Requião e pude desenvolver programas inovadores como o Casa da Família, Casa da Família Rural e o primeiro programa de moradia para famílias indígenas. Na nossa gestão, iniciamos os programas de regularização fundiária e a urbanização da Vila Zumbi do Palmares e do Guarituba.

De volta à Assembleia, fui líder do governo Requião e participei diretamente da criação do plano de cargos e salários para professores e funcionários da rede estadual, da articulação para implementar o salário mínimo regional e da ampliação dos benefícios fiscais para as pequenas empresas, que garantiu empregos em todo o Paraná.

Nesses 35 anos de PMDB tive alegrias e tristezas. Vi grandes lideranças e companheiros se elegerem, contra todas as expectativas. Assisti a derrota dos que queriam a todo custo mudar para que tudo continuasse do mesmo jeito. Vi o país crescer, o povo conquistar justiça e igualdade Mas assisti o partido perder lideranças autênticas por conta das divergências entre grupos que se digladiaram pelo poder. Vi progressivamente o partido perder espaço e credibilidade, por conta de alianças e acordos espúrios. Vi o MDB velho de guerra perder a identidade, elitizar-se.
Do meu PMDB, resta muito pouco ou quase nada. Nacionalmente, o partido democrático, de mudanças, virou um Arenão- clientelista, conservador, golpista.

Aqui no Paraná, o partido se estagnou, com grupos em briga permanente, sem perspectiva de conciliação. O partido deixou de ser um espaço em que conviviam em harmonia diferentes correntes de pensamento e de visão do mundo, com respeito mútuo e diálogo.

Nesses mais de 35 anos de PMDB vi e vivi muita coisa. Aos meus companheiros, só tenho a agradecer pela generosidade, amizade e parceria. Faço política, com paixão, para melhorar a vida das pessoas. É o que continuarei a fazer, agora no PSB – Partido Socialista Brasileiro.

*Luiz Cláudio Romanelli, advogado e especialista em gestão urbana, ex-secretário da Habitação, ex-presidente da Cohapar, e ex-secretário do Trabalho, é deputado estadual e líder do governo na Assembleia Legislativa do Paraná. Escreve às segundas-feiras sobre Poder e Governo.