Coluna do Luiz Cláudio Romanelli: O País dividido, coxinhas X petralhas

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Em sua coluna semanal, o deputado estadual Luiz Cláudio Romanelli (PMDB) aborda o acirramento da disputa política nacional nos últimos dias. Segundo o deputado, quase não sobra mais espaço para o diálogo; e no cenário atual ou se é “coxinha” ou “petralha”.  Para Romanelli é preciso defender as conquistas sociais dos últimos anos, sem abrir mão da apuração profunda das denúncias de corrupção. A solução, segundo ele, é a política proporcionar o exercício da cidadania e o protagonismo para que todos possam se tornar sujeitos da história. Leia, ouça, comente e compartilhe.

“No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do quintal:
meus filhos, o dia já envelheceu, entrem pra dentro”
Manoel de Barros

Luiz Cláudio Romanelli*

Os fatos políticos da última semana que ocuparam todos os espaços dos noticiários apontam para um quadro que clama por muita atenção de todos. Vive-se em tempos de briga de torcida na política. É um clima em que se perde o espaço para o diálogo na construção de consensos eletivos que podem enfrentar a crise, que se institucionaliza — e a qual requer muito, mais muito mesmo, empenho e desprendimento de todos os atores sociais.

É também um tempo de tristeza com tudo o que está acontecendo com o país na jovem e incipiente democracia. Há situações intoleráveis, situações de indignação, de desencanto, de degradação da moral pública, de esmorecimento de sonhos e de um flerte muito perigoso com o retrocesso político.

Não podemos permitir a volta daquilo que combatemos e vencemos, mas que custou a vida de muitos. Não se pode perder no horizonte e nem retroceder décadas de conquistas sociais, de políticas compensatórias, transferência de renda e de acesso ao ensino superior porque estão vinculados a este ou aquele projeto político. O bom combate político não pode ter espaço para satanização das conquistas históricas que permitiram a inserção social de camadas mais pobre da população que antes vivia em condições extrema penúria e de abandono.

Este é um ponto. O outro está no campo da lei, das apurações dos desmandos, dos casos de corrupção que devem garantir todo o direito de defesa aos réus e acusados, mas também deve punir, de forma exemplar, todo e qualquer mal feito com o uso do dinheiro público. Aqui, vale o ditado popular, “pau que bate em Chico, também bate em Francisco” que, trocando em miúdos, significa que ninguém por mais influente que seja, estará fora do alcance da Justiça e do rigor da lei.

Isso também é um duro aprendizado para quem faz da política uma missão de vida, mas que compromete o “projeto de poder” com o patrimonialismo, a usura e o vilipêndio da coisa pública, usando-a como uma extensão privada do seu bem querer. Também é um alerta para a militância que se deixa levar pela falta de crítica e para rumos de interesses pouco confessáveis.

São situações que se exacerbam no atual contexto, mas que não podem acabar com o diálogo – outra característica desse triste momento em que o país vive. Hoje, o símbolo da impossibilidade do diálogo – ou se é coxinha ou se é petralha – está no panelaço, no enfrentamento nas ruas, no achincalhe público em restaurantes. É caminho, como dizem os especialistas, da venezualização – algo que tomou conta do dia-a-dia da Venezuela desde a eleição de Nicolás Maduro em 2013. Não há nenhuma possibilidade de construção de qualquer proposta sem conversar, trocar argumento e chegar há um consenso mínimo.

Na Liderança do Governo, nas horas mais difíceis de 2015 e não foram poucas, pautei a condução das propostas do governo com muito diálogo e respeito com professores, trabalhadores e lideranças dos sindicatos, apesar de todas as dificuldades. Essa é uma marca dos meus mandatos do qual não abro mão. Sem conversa não há solução.

Os desafios que se impõem neste momento e que, reiteradamente, tenho conversado com os colegas parlamentares, amigos, lideranças, jovens, trazem uma receita simples que deve ser bem trabalhada: a política tem que oferecer o exercício da cidadania e protagonismo de todo cidadão para que ele possa se assumir como sujeito da história.

Neste final de semana, assisti a entrevista do ex-governador Olívio Dutra (PT-RS) ao jornalista Roberto D’Avila na GloboNews. Dutra fala do próprio desencanto com seu partido, mas atenta: “A democracia precisa se qualificar, o que significa avançar nos direitos que o povo conquistou e não recuar. Avançar no controle da sociedade sobre o Estado, e não sobrepor o Estado sobre a sociedade e muito menos privatizar o Estado. O Estado não tem de ser máximo nem mínimo, tem de ser eficiente e do tamanho das necessidades do povo e sob o controle da cidadania ativa e efetiva”.

As palavras de Olívio Dutra podem ser o começo de um bom debate que, particularmente, eu estou disposto a travar. Com muito diálogo.

Paz e bem, e uma ótima semana a todos.

*Luiz Cláudio Romanelli, advogado e especialista em gestão urbana, ex-secretário da Habitação, ex-presidente da Cohapar, e ex-secretário do Trabalho, é deputado pelo PMDB e líder do governo na Assembleia Legislativa do Paraná. Escreve às segundas-feiras sobre Poder e Governo.

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