Elisane Fank: Concepção neoliberal da educação no lamentável governo Richa

A pedagoga Elisane Fank, em artigo especial para o Blog do Esmael, na véspera do retorno às aulas de um milhão de estudantes, cerca de 100 mil educadores, em 2,1 mil escolas da rede pública do Paraná, classifica o governo Beto Richa (PSDB) como “lamentável” para a área educacional porque, segundo ela, expressa o modelo de Estado neoliberal; “Lamentável o visível retrocesso a uma concepção de gestão gerencialista, tecnicista e empresarial que, nada menos, expressa que a materialização de um governo organicamente conservador”, critica a especialista; Elisane afirma ainda que a pobreza dos materiais na Semana Pedagógica, ocorrida entre os dias 22 e 24 deste mês, subestimaram de forma aviltante a categoria dos profissionais da educação; segundo a articulista, buscou-se uma “desresponsabilização” do Estado para com a educação pública, gratuita, universal e de boa qualidade; leia, comente, opine e compartilhe.

A pedagoga Elisane Fank, em artigo especial para o Blog do Esmael, na véspera do retorno às aulas de um milhão de estudantes, cerca de 100 mil educadores, em 2,1 mil escolas da rede pública do Paraná, classifica o governo Beto Richa (PSDB) como “lamentável” para a área educacional porque, segundo ela, expressa o modelo de Estado neoliberal; “Lamentável o visível retrocesso a uma concepção de gestão gerencialista, tecnicista e empresarial que, nada menos, expressa que a materialização de um governo organicamente conservador”, critica a especialista; Elisane afirma ainda que a pobreza dos materiais na Semana Pedagógica, ocorrida entre os dias 22 e 24 deste mês, subestimaram de forma aviltante a categoria dos profissionais da educação; segundo a articulista, buscou-se uma “desresponsabilização” do Estado para com a educação pública, gratuita, universal e de boa qualidade; leia, comente, opine e compartilhe o texto.

Elisane Fank*

Discutir Gestão Democrática na escola pública pressupõe antes de mais nada conceber o que é democrático, o que é público e, para tal, a própria concepção de gestão do e no Estado. Este entendimento, ao que pareceu na Semana Pedagógica dos profissionais da educação do Paraná de 2016, passa ao largo dos gestores que estão na Secretaria de Estado da Educação e pior na própria Coordenação de Gestão Escolar da SEED.

Digo isso do lugar de onde falo: Sou pedagoga da escola pública há mais de 20 anos e na gestão do ex-governador estava à frente das formações continuadas, das saudosas Jornadas Pedagógicas e das Semanas Pedagógicas.

Lamentável o visível retrocesso a uma concepção de gestão Gerencialista, tecnicista e empresarial que, nada menos, expressa que a materialização de um governo organicamente conservador.

Os rasos materiais enviados às escolas para a Semana Pedagógica de 2016 não somente expressam a base conceitual do governo neoliberal como, na mesma esteira de concepção, subestimam de forma aviltante a categoria dos profissionais da educação.

Não pretendo aqui reafirmar o que o conjunto de professores já manifestou nos atos de repúdio vindos dos municípios e grande parte das escolas que, com razão, denunciaram a falta de organização, a terceirização do trabalho da SEED e dos NREs às escolas e a banalização do material encaminhado. O que pretendo é identificar o espaço que existe entre o dito, o pretendido e o feito por parte da SEED e, mais diretamente, a própria concepção de estado no lamentável governo Richa.

O dito: gestão democrática; o pretendido: fomentar a cultura de participação dentro das escolas e o feito: desresponsabilização do papel do Estado.

O que os gestores da SEED não se preocuparam ou não puderam se preocupar é com a base conceitual que distingue gestão democrática e gestão compartilhada.

É democrático na escola pública socializar o conhecimento produzido na história da humanidade a todos os envolvidos no processo. Quando se concebe o público entende-se que concepção de gestão passa pela concepção de estado que tem a responsabilidade de garantir direitos que, por sua vez, são públicos. A educação é direito subjetivo e inalienável. Mas isto só pode ser afirmado pela gestão de um estado quando este mesmo tem o compromisso com a formação continuada, com a socialização do conhecimento, com a valorização dos profissionais da educação e com o fomento de políticas públicas.

Não é o que ocorre neste estado e isto se retrata na base teórica ou na falta total dela nos textos e vídeos encaminhados pela SEED para que a equipe pedagógica cumpra “tarefeiramente” seu papel de repasse e de preenchimento de planilhas e tabelas repetidas ano a ano que unicamente responsabilizam a escola sobre suas ações.

A desresponsabilização do Estado está também retratada na fala da professora Josemary Manastroni especialista – em coaching – cujo vídeo foi prescrito para ser trabalhado no terceiro dia de formação.

A profissional delega a responsabilidade da democratização do processo ao gestor (diretor da escola) na perspectiva de que este seja estrategista e componha uma “equipe confiável” . Minimante esta é uma visão idealista e abstrata de escola pública, haja vista que, nem tampouco é o diretor o dono da escola e nem tampouco é que quem compõe uma equipe. A profissional reforça a visão privatista e gerencialista não considerando um contexto de distribuição de aulas, suprimentos, ordens de serviços, concursos de remoção, busca por aulas extraordinárias que envolvem quase todos os profissionais em plena Semana Pedagógica. Portanto diríamos nós educadores à professora que na escola pública os diretores não compõe sua equipe; eles administram a escola e mediam o processo dentro das condições que tem e com os profissionais que, sobretudo, deveriam passar por uma formação continuada suficiente conceitualmente para avançarmos para além do senso comum que paira sobre os documentos e vídeos encaminhados às escolas.

Diríamos mais: Socializar os problemas e desafios da escola para que o coletivo “resolva” sem contar com políticas públicas não expressa gestão democrática e sim gestão compartilhada, quem sabe com os “Amigos da Escola” aos moldes das desprofissionalização do neoliberalismo.

Vale ressaltar que esta concepção gerencialista e privatista encontra ressonância nos materiais já encaminhados em anos anteriores deste mesmo governo, em especial na fala do Renato Casagrande (2013) que concebe o professor como o “missionário”, cujo “coração deve pulsar” para provocar uma “mudança interior” e “ser feliz”.

O que se tem são gestores que subestimam a categoria com tabelas para serem preenchidas de forma tarefeira, com textos que expressam o limite do senso comum da SEED e vídeos com profissionais da escola com falas abstratas e que ao largo retratam o contexto da escola pública. Por contradição, é esta mesma categoria, considerada incompetente, que é colocada para mediar a formação continuada dos próprios colegas.

Contudo, considerando que Estado não é um bloco hegemônico, mas uma instância cheia de contradições e que nestas contradições abrem-se espaços; considerando que professores e pedagogos não são tarefeiros, não são missionários, não estão na educação apenas para serem “felizes” e, nem tampouco, se satisfazem com o senso comum; considerando ainda que não temos no tecnicismo o nosso oxigênio mental, nós educadores fizemos o movimento de contradição nas inúmeras escolas e municípios repudiando a banalização e o desrespeito da categoria no último dia em que culminou a materialização do senso comum que está na gestão da SEED.

Concluo também saudando as escolas que usaram o texto da APP Sindicato “A Semana Pedagógica e o mito da Caverna, entre a aparência e a essência” na certeza de que como diz o texto a categoria diferencia claramente as sombras projetadas (pela SEED) e a realidade da educação enfrentada no dia a dia das escolas.

*Elisane Fank é pedagoga do Estado do Paraná lotada no Colégio Estadual do Paraná, mestre em Políticas Públicas pela UFPR e especialista em Organização do Trabalho Pedagógico pela UFPR.

33 Comentários

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  1. Educação no Brasil e Paraná a décadas deixou de ser de qualidade no ensino público. Pois notalgicamente lembro que no meus tempos de banco escolares se dizia o seguinte ente a piazada “Que quiser passar de ano, é só ir estudar em escola particular, onde pagou passou”, pois que estudava em escola pública naqueles tempos, só passava se tivesse notas e estas notas só eram dadas depois de comprovarem o seu aprendizado através de provas. Hoje a educação é um comércio entre os grande grupos de “ensino”. Os Positivos da vida estão por ai espalhados, colocando todos os anos alunos nas Universidades Públicas, que não sabem pesquisar, corretar atrás do conhecimento, de redigir um texto ou de saber resolver problemas de provas. Porque quando estavam nestas escolas tinha apostilas com matérias superficiais e treinados a marcar “x” nas questão formuladas.
    Infelizmente está é a cara da nossa atual “educação” muito comércio e pouco ensino.

  2. Querida Elisane!

    Parabéns pelo excelente artigo,pela bela reflexão e pelas sabias palavras!
    Deixe os críticos pra lá, estão defendendo seus cargos e zona de conforto!

  3. Parabéns professora Elisane! É bom saber que ainda há mentes pensantes e atuantes politicamente em prol do trabalhador da educação, neste estado de sítio que vivemos na Ditadura Mourista do Paraná.

  4. Parabéns Professora Elisane Fank, você como sempre representa o que há de melhor do Colégio Estadual do Paraná, sinto orgulho dever uma colega de trabalho mostrando a sociedade tanto aprofundamento intelectual sobre Educação da forma como você bem conduziu seu artigo, somos professores titulares do Colégio Estadual do Paraná e lutamos para que todas as escolas do Estado do Paraná tenham a mesma qualidade de ensino que proporcionamos aos nossos amados alunos. Que o nosso debate não seja em vão.

    • Querido Augusto, estamos juntos nesta caminhada, sem pretensões outras que não seja enfrentar o tecnicismo, o gerencialismo, o senso comum, o burocratismo… e usar estes espaços sim como espaços de contradição. Vamos juntos caminhar no CEP e no Estado por uma educação em que democracia se materialize na possibilidade de expressar e defender concepções. por uma não neutralidade que não se resuma em vestir uma ou outra camiseta, mas se expresse em não reproduzir tabelas e planilhas e pela liberdade de pensamento pautado numa concepção de educação de fato inclusiva. Vamos juntos enfrentar o tecnicismo, o burocratismo e o conservadorismo em todas as instâncias.

  5. o carniceiro do Iguaçu não vai mudar nunca, a educação vai estar cada vez pior se depender dele.

  6. Beto lixo deve ter aprendido com o papai jaime lixo lerner mas esqueceu que o povo não e mais tão burro,hoje ensino tem que ser equivalente o avanço da internet,já passou a Época de que quanto mais burro mais fácil para mandar.já o texto falou que ter esperança que podemos ter uma EDUCAÇÃO muito MELHOR.parabéns para a Educadora Elisane.

  7. Pois é a professora Elisane reclama do atual governo mas permaneceu com Cargo Comissionado no período de 2014 até 21 de fevereiro de 2016!!!!!! Contradições??

    • Bela lembrança Rosália.

    • Obrigada Colegas pelos comentários. Aproveito para lembrar a prof Rosália que retornei a escola (dela?) desde 2010 quando houve mudança na configuração política do Estado e lá continuo. Cargo comissionado na escola de direção. Assim como todos os diretores eleitos. Assim como a atual diretora do CEP e seus vices eleitos. Este espaço de contradição dá orgulho de ocupar. Aproveito para esclarecer também que não sou candidata a nada. Sou apenas mais uma das pedagogas que se sentiu agredida com mais uma tabela de tantas pedagogias da planilha que mediei preenchimento com os colegas professores.

  8. Excelente texto. Esta semana pedagógica foi muito fraca. Todos em nossa escola com mais de 60 pessoas a repudiamos. É claro que nossa voz não foi ouvida. Falta-nos este canal de comunicação.

  9. Laurindo. Sua intenção de desqualificar a autora do artigo perguntando se esta sabia o que é Plano de Ensino garanto que ela poderá lhe dar uma aula sobre o tema… Aproveite para obter alguns conhecimentos… Quem desqualifica geralmente é porque não tem argumentos para debater o assunto.
    Ah, estou dizendo isso por conta própria pois a conheço como profissional e , mais, como educadora!!!!

  10. Será que ela sabe o que Plano de Ensino?

    Está se discutindo muito como gastar dinheiro da educação, e não formar cidadãos educados e preparados para o mercado de trabalho e o convívio social.

    • Parabéns Elisane pelo excelente e lucido texto. Fui sua colega no período do governo Requião onde vc esteve sempre presente lutando pela formação dos educadores nas Jornadas Pedagógicas e Semanas Pedagógicas, entre outras atividades em benefício dos trabalhadores da educação. E continuo acreditando que a luta é renhida, mas não podemos desistir! Devemos fazer resistência a esse governo medíocre e perverso que quer tornar a população jovem em perfeitos zumbis. Não podemos deixar!

    • Laurindo, meu filho, acorde. Educar para o mercado é reduzir as pessoas. Educação é formação integral, para intervir politicamente. Essa conversinha de mercado, de cidadania positivista, de harmonia só serve prá quem já é rico. A coisa é muito maior do que isso. A professora está certa.
      Vai dar palpite em futebol, meu filho.

  11. Excelente texto Elisane Fank. Deixa claro o desmonte pedagógico que vem ocorrendo neste governo. Aplausos a sua luta pela educação pública de qualidade.

  12. Grande Educadora! Conhece como poucos a educação do Pr. Futura Secretária de Educação de Curitiba! Vamos de Requião Filho!

  13. ANTES MESMO DE DISCUTIR SOBRE O TIPO DE EDUCAÇÃO
    NESSE PAÍS,

    FALTA A VALORIZAÇÃO DA PRÓPRIA NESSE ESTADO E PAÍS.

    A EDUCAÇÃO É A BASE PARA A FORMAÇÃO DO CONHECIMENTO.

    MAS VEJAMOS COMO ESTÁ A NOSSA EDUCAÇÃO, CADA DIA MAIS DISTANTE DAS PESSOAS, MENOS ESCOLAS, MENOS SALAS, MENOS PROFESSORES,

    NUM GOVERNO SÉRIO, NÃO PODERIA HAVER NENHUMA CRIANÇA FORA DA ESCOLA PELO MENOS ATÉ O 18 ANOS!

    SÓ ASSIM TEREMOS UM PAIS MELHOR, COM MAIS CRESCIMENTOS, CAPACITAÇÃO, E SEGURANÇA.

  14. Onde esse desgoverno coloca a mão só vira me#&%a. O pior é o paranaense aceitar esses tipos de manobras na educação de seus filhos.

  15. Mais uma pré candidata a vereador expondo mazelas sem apresentar soluções plausíveis. Uma pedra querendo se tornar vidraça.

    • Fez curso com ex BBB César? Gosta de falar difícil ne professora? É assim que fala com seus alunos? Eita educação difícil e improdutiva.

      • Ao invés de fazer críticas desnecessárias caro EX BBB. Faça a sua contrapartida. Na dúvida quanto as palavras difíceis consulte um dicionário. É assim que orientamos nossos alunos.

      • A linguagem está excelente, de fácil compreensão para quem tem nível médio de leitura. Agora, para quem passa a vida assistindo BBBs…

      • Nossa estou impressionada! Não sabia que BBBs lêem! Mas está explicado! Quem lê o mundo pelos olhos de plim plim dá nosso! Não conseguem compreender um texto tão bem fundamentado. Sinto informar as Escolas do Paraná estão impregnadas de professores exelentes e resistentes ao processo de BoBoBização que a mídia mercenária Eliana diariamente. Parabéns professora Fank, seu texto representou tudo o que eu e mais colegas avaliaram é não aceitaram nesta semana pedagógica.

      • Ex-BBB. Que barbaridade. Faça isso mesmo. Continue se escondendo atrás de um apelido para não matar sua mãe de vergonha.
        A professora foi objetiva, argumentou, esclareceu, criticou e revelou sua perspectiva. Me representa.

    • Ora, e a intencionalidade do texto? Um Estado de fato e de direto não é a solução? Precisa desenhar???

    • Mais um sem nome, sem noção e com uma baita dor de cotovelo.
      Pois a câmara de vereadores seria muito melhor se lá houvesse pelo menos duas professoras como essa.

    • Até porque, a crítica pela crítica é muito fácil.

  16. Precisa despetizar a educação do Paraná, mais educação menos política partidária