Coluna do Reinaldo de Almeida Cesar: “Eu os acuso de canalhas, de praticarem canalhices”

O delegado federal Reinaldo Almeida César, em sua coluna desta quinta-feira (10), acusa integrantes do governo Beto Richa (PSDB) de serem canalhas, de praticarem canalhices ao desviarem dinheiro que seria destinado à construção de escolas no Paraná; “Eu os acuso de canalhas. De praticarem canalhices”, indignou-se recorrendo a Émile Zola; o colunista ainda mergulha na histórica brasileira recente ao comparar o governador tucano ao ex-presidente Collor de Mello; citando obra do jornalista Mário Sérgio Conti, autor de Notícias do Planalto, o collorido sofria – ou sofre, nas palavras do apresentador Silvio Santos -- “a síndrome do galã” [tal qual Richa]; Almeida César recorda que o Gaeco investiga corrupção na educação em pleno ano eleitoral, 2014, e aposta em nova devassa do caso em Brasília; “Carros de luxo apreendidos na operação “Quadro Negro” combinariam com relógios de caríssima grife a adornar pulsos, a fim de serem galantemente ostentados em aces e forehands em partidas de tênis?”, questiona o delegado que fora o primeiro secretário da Segurança Pública na gestão de Beto Richa; abaixo, leia a íntegra da coluna, comente e compartilhe.

O delegado federal Reinaldo Almeida César, em sua coluna desta quinta-feira (10), acusa integrantes do governo Beto Richa (PSDB) de serem canalhas, de praticarem canalhices ao desviarem dinheiro que seria destinado à construção de escolas no Paraná; “Eu os acuso de canalhas. De praticarem canalhices”, indignou-se recorrendo a Émile Zola; o colunista ainda mergulha na histórica brasileira recente ao comparar o governador tucano ao ex-presidente Collor de Mello; citando obra do jornalista Mário Sérgio Conti, autor de Notícias do Planalto, o collorido sofria – ou sofre, nas palavras do apresentador Silvio Santos — “a síndrome do galã” [tal qual Richa]; Almeida César recorda que o Gaeco investiga corrupção na educação em pleno ano eleitoral, 2014, e aposta em nova devassa do caso em Brasília; “Carros de luxo apreendidos na operação “Quadro Negro” combinariam com relógios de caríssima grife a adornar pulsos, a fim de serem galantemente ostentados em aces e forehands em partidas de tênis?”, questiona o delegado que fora o primeiro secretário da Segurança Pública na gestão de Beto Richa; abaixo, leia a íntegra da coluna, comente e compartilhe.

Reinaldo de Almeida César*

Eu acuso, no melhor estilo Émile Zola, contudo, ao que agora me proponho, baseado na verdade factual e em farto conjunto probatório, muito diferente, portanto, da saga do capitão Alfred Dreyfus, imortalizada na literatura francesa e mundial.

Eu os acuso de canalhas. De praticarem canalhices.

São rematados canalhas, esses que desviaram milhões de reais de recursos destinados a construção de escolas públicas.

Só pode mesmo ser considerado vil e infame – canalha, portanto – quem rouba descaradamente o sagrado recurso público, ainda mais quando verba carimbada, do FNDE, destinada a ampliar vagas para alunos nas escolas da rede estadual.

Em reportagem muito tocante, a Gazeta do Povo (clique aqui) mostrou a frustração e tristeza dos gêmeos Patrique e Pablo de Assis, que viram a escola onde sonhavam estudar ser transformada em mocó para consumo de drogas na obra inacabada, ou talvez melhor, quase nem iniciada pela construtora Valor, mas ainda assim regiamente paga como se executada tivesse sido.

Deixa qualquer um estarrecido ler que a roubalheira deixou mais de duas mil crianças fora da sala de aula e que obra inconclusa faz crianças precisarem caminhar mais de dez quilômetros para alcançar outra escola.

Já temos uma saúde e uma segurança pública de péssima qualidade, ineficiente e muito longe das reais necessidades da população.

Agora, meter a mão no dinheiro público, negando matrícula, sala de aula e instrução no ensino formal, é o mesmo que condenar filhos de trabalhadores a uma forma de escravidão, em trevas, na era moderna.

Como pode uma empreiteira, sem nenhum histórico ou acervo, ter conquistado, em tão pouco tempo, tantos contratos de expressivo valor? O vocábulo valor vai aqui, sem a intenção de cometer uma redundância, quase pleonástica.

Marco Nanini e Ney Latorraca encenaram uma peca que ficou anos em cartaz com absoluto sucesso e recorde de público. Chamava-se “O mistério de Irma Vap”, uma adaptação do original de Charles Ludlam, teatro anárquico e do ridículo, que revelava, quase ao final da montagem, o anagrama do título com a palavra “vampira”.

Seria a construtora Valor, também ela, um anagrama sanguessuga ?

E, mais ainda, perguntam-me os meus inquietos botões: houve aditivo nos contratos? Os saques em espécie, na boca do caixa, serviram a qual propósito? Por qual razão a maior movimentação de recursos desviados se deu exatamente no ano de eleição, em 2014? Carros de luxo apreendidos na operação “Quadro Negro” combinariam com relógios de caríssima grife a adornar pulsos, a fim de serem galantemente ostentados em aces e forehands em partidas de tênis?

Assisti o governador se eximir de culpa, dizendo que não teria qualquer responsabilidade sobre os pagamentos – que, diga-se, comprovadamente, até mesmo pelo Tribunal de Contas, foram efetivados sem a necessária medição da obra – alegando Sua Excelência não ter trena em seu gabinete. Pode-se até conferir isenção de culpa ao governador, pela ausência de trena e pelo volume de despachos de Sua Excelência, em dias de trabalho.

De outra banda, folgo em saber que o gabinete do governador está desprovido de instrumentos de medição. Jamais aceitaria ser medido pela régua do Palácio.

***

O que nos resta, como alento, é saber que a investigação, não obstante tenha sido muito bem conduzida pelo GAECO, ainda está apenas no começo, engatinhando. Subirá de nível, em outros gabinetes investigativos, onde controles e manobras políticas, comuns na planície, não funcionam.

***

Admito ter um hábito estranho, muito estranho.

Gosto de reler livros nos quais já mergulhei há dez, vinte ou até trinta anos.

Agora mesmo, preparo-me para reler Guerra e Paz, ainda que Tolstoi já tenha me arrebatado na juventude, nos meus verdíssimos anos.

Nestas férias, reli o ótimo “Notícias do Planalto”, que nos mostra com riqueza de detalhes os bastidores da ascensão e queda de Fernando Collor, escrito a partir de criteriosa pesquisa feita por Mario Sergio Conti, que atualmente conduz programa de boas entrevistas na Globonews.

Relendo agora, nestes tempos bicudos da política nacional e em outra perspectiva histórica, lamentei, por exemplo, que, pela conspiração dos fatos e por tudo o que aconteceu, tenhamos perdido Alceni Guerra, à época promissor quadro político, que certamente teria sido um bom governador ou senador pelo Paraná e que hoje empresta seu talento ajudando a gestão do corretíssimo Rogério Bacellar, no comando do nosso Coxa.

Em outro momento do livro, chama a atenção a análise feita por Silvio Santos, ao comentar com sua esposa Iris, no início do governo, que havia conseguido decifrar Collor.

Pela narrativa do livro, sabe-se que Silvio Santos, identificou que o então presidente tinha “a síndrome do galã”, explicando que Collor poderia perfeitamente ser apresentador de auditório, mas dificilmente seria um bom presidente.

Prosseguindo na análise, o comunicador e dono do SBT disse que Collor namorou as mulheres que desejou, foi cortejado e paparicado e que “a beleza e o carisma levam pessoas como Collor a desenvolver a síndrome do galã: tornam-se personalistas e vaidosos”.

Para Silvio Santos, uma vez vitimado pela síndrome do galã, Collor “estava sobretudo preocupado com ele mesmo, com a própria imagem: com seus ternos, suas camisetas, suas corridas e seu porte físico. O governo era seu palco”.

Inevitável recordar o velho Marx, para o qual a história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa.

Leiam ou releiam o livro. Vale muito a pena.

*Reinaldo Almeida César é delegado da Polícia Federal. Foi secretário da Segurança Pública do Paraná. Chefiou a Divisão de Cooperação Policial Internacional (Interpol). Escreve nas quartas-feiras sobre “Segurança e Cidadania”.

Comentários encerrados.