Artigo: População de rua diz não ao ‘camburão social’ em Curitiba

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O blogueiro e militante social Milton Alves opina sobre polêmica em torno da população em situação de rua em Curitiba. O assunto causou um forte debate nos últimos dias, ocupando espaços na velha mídia convencional e nas redes sociais. A demanda foi provocada por entidades empresariais que pressionam o poder público para adoção de medidas imediatas e de força contra a população sem teto. Qual seria o caminho mais adequado para enfrentar o gravíssimo problema social? Leia, comente e compartilhe.

Milton Alves*

Nos últimos dias um polarizado debate sobre como lidar com o grave problema social dos moradores de rua, ou população em situação de rua, mobilizou segmentos empresariais, o poder público, entidades de assistência social e defensores dos direitos humanos.

Curitiba, como toda grande metrópole do país e do mundo, tem um contingente expressivo de pessoas em situação de rua. Segundo projeção do Movimento Nacional da População em Situação de Rua (MNPR), há de quatro a cinco mil pessoas que vivem nas ruas da capital paranaense. A Fundação de Assistência Social (FAS) não tem uma estimativa sobre o número de pessoas nessa condição.

A questão é de difícil solução e demanda arranjos variados e diálogos transversais com toda a sociedade. Propostas simplistas ou soluções de força como a retirada compulsória dos moradores de rua não resolvem o problema e reforçam o preconceito e a exclusão.

A abordagem, por exemplo, divulgada pela Associação Comercial do Paraná peca pelo imediatismo e conservadorismo, na medida em que apela para uma solução de tipo higienista, excludente e ultrapassada.

Na semana passada ocorreu uma reunião entre a FAS, representantes do empresariado, Ministério Público e outras entidades do poder público, sem dúvida um diálogo importante, mas é preciso envolver nesse debate os afetados diretamente pela questão, os moradores de rua e organizações com atuação na área da assistência social.

Segundo informou o site da Fundação de Assistência Social: “Durante a reunião, a FAS também apresentou as novas estratégias que serão adotadas ainda no primeiro semestre de 2016. Além do Atendimento Social Avançado (ASA), instalado no antigo módulo policial na Praça Osório, no Centro de Curitiba, onde educadores e assistentes sociais percorrem a pé a região central no trabalho de abordagem, a FAS iniciou o cadastro de pessoas em situação de rua para uso de banheiros da Urbs em vários locais do Centro. Também fará a instalação de um guarda-volumes próximo ao terminal Guadalupe, para armazenagem de utensílios de uso pessoal dos moradores de rua, minimizando o abandono desses materiais em vias públicas”.

As propostas apresentadas pela FAS, presidida por Márcia Fruet, seguem um rumo atualizado e contemporâneo de tratamento da questão e estão baseadas nas diretrizes da política para a população em situação de rua do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS).

No entanto, é fundamental promover a autoestima e a autonomia da população em situação de rua: incrementar a parceria com a organização desse segmento; criar alternativas de albergamento de curta permanência para garantir asseio e guarda de pertences; assegurar acesso aos restaurantes populares e aos armazéns da família; garantir, via Urbs, passe livre para os moradores de rua e desempregados. São medidas humanitárias ao alcance do Poder Público.

Por sua vez, o empresariado, tão preocupado com a questão, tem meios para contribuir, adotando, principalmente na região central, um determinado número de moradores de rua. Uma espécie de programa de adoção social, facilitando a entrada em cursos educacionais profissionalizantes do Sistema S e criando em parceria com a prefeitura mecanismos de promoção social e geração de renda.

Vale lembrar que durante o governo militar a existência do odioso “camburão social” e das veraneios e kombis da Febem não resolveram o problema, apenas agravaram a exclusão, o ressentimento e o confinamento dos pobres.
A sociedade e o poder público devem fazer a aposta no diálogo pela inclusão e a solidariedade social.

*Milton Alves é militante social e blogueiro.

5 Comentários

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  1. Não quero aqui fazer campanha,mais porque na era Greca a tal Fas funcionava com cursos profissionalizantes e hoje a prefeitura joga a responsabilidade nas costas do empresariado??

  2. Ser humana e não saber o que faz têm diferença,eu posso ir lá na rua XV,conversar,saber porque estão nas ruas,tratar com carinho e respeito,mais é preciso saber o que fazer com eles.
    A cidade está um lixo e digo mais:
    Quando tinha guarda nas praças a coisa não era largada assim,chamavam o resgate e os moradores de rua eram retirados,hoje os guardas estão fazendo o que as administradoras(esposas de prefeitos) queriam,deixando de tratar como um problema de polícia e tratando como problema social,resultado está aí,tomaram conta!!!

  3. Tenho que reconhecer que a marcia fruet é muito mais humana que seu marido prefeito , a situação dos moradores de rua é preocupante não por eles estarem nas marquises mas por eles chegarem nessa situação nossa sociedade está muito doente desigual e cruel.

  4. O articulista ignora o fato que é de conhecimento de todas as pessoas que já se envolveram com tentativas de resgate social em Curitiba: que a grande maioria dos que vivem nas ruas hoje na cidade são dependentes químicos. É muito conhecido também o fato de que representantes da FAS e outras organizações oferecem rotineiramente o teto, alimentação e higiene para essas pessoas, mas elas recusam pelo fato de que não poderão fazer uso das substâncias que as mantém adictas. Negar a possibilidade da internação compulsória a elas equivale, na prática, a condená-las ao pior, mais cruel e indigno futuro possível: ter que mendigar e roubar para sustentar o vício, que um dia fatalmente as levará a uma morte sofrida e terrível.

    Os curitibanos já estão fartos dessa conversa fiada que nada propõe de concreto a não ser medidas paliativas e vagas que serão tomadas com quase 4 anos de atraso. Já viram que não está dando certo e que o problema a cada dia se agrava mais. O serviço social que quiser ser eficiente e bem sucedido claramente deverá ter uma estratégia totalmente oposta ao que é adotado pela atual administração, além de muita proatividade, elemento que, como demonstra o artigo, é totalmente desconhecido pela vigente gestão do serviço social.

  5. Se eu fosse autoridade faria isto:
    1) cadastrar
    2) criar uma moradia barata e vigiada. Quem não tem casa não pode chegar asseado ao trabalho
    3) criaria um programa de trabalho. Demitiria os apadrinhados de altos salarios para liberar a verba.
    4) o programa teria certo rigor como o “ISSUE” lembram? da Inglaterra. Ou seja, horário, renda, economia, obrigações, sanções, escola, etc.
    E eu seria rápida, pois outras cidades mostram como a milícia é rapidinha pra pegar uns tricos e matar esse pessoal, por uns trocados. Ficam as manchas de sangue na calcada. Se bobear ja da pra filmar a cena.