Coluna do Rafael Greca: “Fruet, se está difícil, deixa que eu faço”

greca

Em sua coluna semanal, Rafael Greca (PMN) contesta o vitimismo do prefeito Gustavo Fruet (PDT) que se queixa da crise, mas não se move para melhorar a vida na cidade que governa. Greca enumera uma série de áreas que mostram que Curitiba está “encolhendo” na qualidade de vida para a população e conclui: “Não existe tempo ruim para cuidar de Curitiba. Fruet, se está difícil, deixa que eu faço.” Leia, ouça, comente e compartilhe.

Download

Rafael Greca*

Não existe tempo ruim pra ser prefeito de Curitiba. Quem diz que “administrar Curitiba é receber uma herança maldita”, não merece administrar Curitiba. Nossa cidade não pode ser resumida a medida da frustração e do infortúnio. Não aceito ver tudo encolher em Curitiba.

Acostumado à grandeza generosa de nossa amada Cidade e da minha boa gente curitibana; conhecedor da gloriosa trajetória de Curitiba em seus mais de 300 anos de existência; e tendo conseguido boa resposta a todos os desafios da minha gestão de prefeito (1993-1996) — quando devolvi uma Curitiba maior, melhor e mais bela do que recebi — não aceito ver tudo encolher em Curitiba.

Encolheu a oferta de vagas para pessoas em situação de risco de rua. Fecharam sem justificativa a FAS-SOS, a Fazenda Solidariedade, a Casa da Acolhida e do Regresso, o Linhão Sopão, o Vale Vovó, nossos Restaurantes de R$ 1. Resultado: hordas de desvalidos arrastam-se pelas marquises, acampam nos gramados das praças.

Encolheu a limpeza pública. Já não se fazem mutirões Tudo Limpo. E cortaram o serviço de desratização. Resultado: os desmanches e terrenos baldios cheios de lixo proliferam nos 75 bairros; e a cidade foi tomada por roedores de todas as estirpes.

A prefeitura deve estar esperando a importação de algum flautista de Hamelin, para nos livrar da maldição dos ratos; ou de algum guitarrista de Medellín, para nos livrar dos crackeiros.

Bueiros fedem a esgoto sanitário. Os calçadões a mijo seco. E até o mosquito Aedes Egypt já nos manda lembranças, trazendo nas suas asas o mal da Dengue, da Xincungunha e da microcefalia.

Pra combinar com o Brasil do PT, será que vamos mudar o nome do Conjunto Oswaldo Cruz para Conjunto do Mosquito? Devemos trocar a antiga glória do sanitarista por um problema de saúde pública que não conseguimos resolver?

Encolheu também a autonomia municipal, quem controla tudo é o ICI; controla até os códigos fonte de lançamento de impostos, enquanto a Prefeitura aceita passivamente tamanha irregularidade chumbada pelo TCE — a organização particular prestadora de serviços de TI ocupa o prédio público do ex-CPD do IPPUC, prédio que fiz construir na rua São Pedro.

A conduta irregular do ICI é apenas uma das 20 apontadas pelo Tribunal de Contas do Estado

Encolheu ainda a Rede Metropolitana de Transportes, levando junto a outrora qualidade, confiabilidade e orgulho dos curitibanos de um sistema de ônibus urbanos que já foi referência nacional e internacional.

Que Prefeitura é essa que aceita viver com a faca no pescoço? A História não tem clemência com os covardes. E essa falta de coragem, abre espaço para novas ameaças, como o estado de greve permanente de motoristas e cobradores — cobradores que a Prefeitura coloca como item a cortar na planilha de sua insensibilidade social, que os gestores utilitaristas tanto adoram.

Encolheu ainda a rede de saúde. Fecharam a UPA da Fazendinha. Resultado, ineficiência que produz cenas inaceitáveis como a dor do curitibano chamado Bruno (foto) na UPA do Cajuru, que na última segunda, dia 7, às 13h09, com crise aguda de dor por cálculo renal, rolou no chão da UPA com a dantesca pulseirinha amarela das emergências. Teria que esperar 50 minutos com a pulseira amarela no pulso, enquanto contorcia-se, estendido no chão. A foto bombou nas redes sociais.

Que Prefeitura é essa que propaga um humanismo e uma urbanidade que não possui? Como preferem gastar 100 milhões em propaganda esquecendo que estão a ser detonados no boca-a-boca até pelos atendentes sobrecarregados nos prontos-socorros?

zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzbruno

É uma prefeitura que entregou a saúde pública para os acordos políticos. Nenhuma crítica às alianças políticas que ajudam a governar, mas toda crítica quando um serviço essencial vira peça no jogo do poder, como o que nos aconteceu, pois os secretários filiados ao PT controlaram 23% do orçamento de Curitiba ao longo desta gestão que agoniza e vai passar sem deixar saudades como este ano de 2015.

Encolheu e encolhe a rede de creches. Anunciam o fechamento, em 2016,do berçário do CMEI Santa Ifigênia, já avisaram os burocratas aos pais aflitos que, precisando trabalhar, não terão onde deixar os seus bebês.

O que nos deixa perplexos com os anúncios de maiores investimentos em educação, pois se o Orçamento 2016 terá 30% de seus recursos para a Educação, por que a redução do serviço neste bairro popular operário da zona norte de Curitiba?

E por que cortar convênios com associações – como o Liceu de Ofícios Espírita Maria Ruth Junqueira –  que ofereciam cursos profissionalizantes para os jovens?

Encolhe, e eis um fato inaceitável, a área verde pública per capita. Há uma sanha de poda de árvores, que vai das magnólias da rua Inácio Lustoza, às corticeiras da rua Iapó, às araucárias dos terrenos da empreendedora Aoshi, chegando esta semana, às sibipurunas centenárias da ex-alamêda Taunay, defronte ao Colégio Sion.

Até o principal jornal da Cidade, encolheu. E foi justamente lá, na Gazeta, agora com formato diminuído, que o atual prefeito Gustavo Fruet deu recente e espaventosa entrevista.

Confessou que a Prefeitura de Curitiba também encolheu, na sua capacidade de responder aos desafios da história, aos direitos e sonhos da população. Dá a impressão de que está empurrando a coisa para o ponto de quem não tem como fazer. No texto, e no subtexto, a gestão Fruet está assumindo que o desafio é maior do que ele.

Senhor prefeito, se está difícil para você, deixa que eu faço.

Fazemos, nós, os curitibanos, um povo que sabe fazer acontecer. Aqui não se espera, se faz. Nunca esperamos por Brasília, por Pequim ou por Bombaim.

Mais Curitiba, Menos Brasília. De Brasília, excetuando-se os eleitos com dinheiro vil, ninguém de bem espera mais nada. Os problemas são nossos, as soluções também.

Sempre acreditei no verso magistral com o qual Dante Alighieri encerrou a Divina Comédia: “A Escuridão é o silêncio da Luz.” Em 1993, quando assumi a Prefeitura, na ocasião dos 300 anos de Curitiba, a crise econômica e política era muito pior que a de hoje. Não dei bola para a Escuridão. Lancei nosso grito de Luz, em direção ao Brasil: Curitiba não é Cidade para se deixar encurralar em um beco sem saída.

Prefeito, não confunda a sua fragilidade com a força desta cidade. Você, seus erros estratégicos, suas apostas fracassadas são uma coisa; Curitiba, bem outra.

Acender Luzes é hábito nosso, somos filhos da Luz dos Pinhais. Por isso repito: se está difícil para você, deixa que eu faço; fazemos nós, os curitibanos, aqui nascidos e que aqui escolheram viver – em busca de um ambiente de qualidade e produtividade.

Este ano comemoramos os 50 anos do IPPUC. Nosso planejamento urbano desabrochou a partir de 1965, quando o Brasil piorava. Nosso tecido urbano tem marcas de superação e criatividade. Tecido feito à mão, por gente daqui. Por isso chamamos a atenção do BID, do BIRD, da ONU, e até merecermos o Prêmio Mundial do Habitat 1996, na minha gestão de prefeito. Fizemos por merecer.

Ontem, em Florianópolis, planejadores locais apresentaram uma inovadora parada de ônibus com cobertura verde (foto), capaz de diminuir o calor, amainar o aquecimento global, criar micro-clima de conforto, mesmo a beira mar. No equipamento, placa solar, torna autosustentável a iluminação, e até permite, a custo zero, que usuários recarreguem tablets e celulares.

No mesmo dia, em Curitiba, no Sitio Cercado, inaugurava-se uma arcaica casinha de fibro cimento, WC ao lado da Estação Tubo, a pretexto de “humanizar” o serviço. As estações tubo e o BRT – que o mundo consagra – não prestam mais porque não tem casinha, diz a situação. Mais uma vez, Curitiba perdeu.

São 354 estações-tubos. Se queremos facilitar a vida do cidadão, por que, ao invés de meras casinhas com patente, de design roceiro e grosseiro, não implantar novas Estações-Tubo-Pró-Cidadania — com WCs dignos, para cobradores, motoristas e cidadãos, homens e mulheres, com módulos de segurança, patrulhados pela PM e GM, para efetivamente cuidar da Cidade?

Curitiba sempre será maior do que os seus problemas. Na Prefeitura de Curitiba, em todos os níveis de servidores, há gente boa capaz de dizer: sabemos como fazer. E muito melhor do que em Florianópolis. Ou maior e melhor do que aquilo que “inauguraram” no Sítio Cercado.

Curitiba há de ser, sempre inovadora. Responda você: Curitiba está melhor ou pior? Responda você que nos escuta, que nos lê: Curitiba pode melhorar? Sinceramente, se você acha que esta Cidade pode melhorar apenas se nós tomarmos juntos uma atitude por Curitiba, me ajude a dizer ao atordoado prefeito: deixa que eu faço.

Não existe tempo ruim para fazer o que gente gosta. Para servir quem a gente ama. Não existe tempo ruim para cuidar de Curitiba. Deixa que eu faço.

*Rafael Greca, ex-prefeito de Curitiba, é engenheiro. Escreve às quartas-feiras no Blog do Esmael sobre “Inteligência Urbana”.

Comentários encerrados.