Como sempre, Chico Buarque de Holanda nos deu uma boa lição

"Entre humanos que relincham e outros capazes de zunir, num comportamento próprio de quadrúpedes morais, mais uma vez Chico Buarque de Holanda assegurou seu lugar na história do Brasil e dos brasileiros. A cena vista e gravada num fim de noite no Rio de Janeiro é apenas a confirmação recente de que Chico é um artista que sabe qual é seu lugar em cada momento de nossa história. Comporta-se dessa maneira há meio século, seja através da música, dos versos de gênio, de uma literatura cada vez mais apurada e espetacular. Age assim pela postura política de quem recusa o lugar de artista-mercadoria e sabe responder aos percalços e tragédias da conjuntura histórica com clareza, com valentia e uma auto ironia que o acompanha tanto nas horas agradáveis como nas mais difíceis"; o comentário é do colunista do 247, Paulo Moreira Leite; para ele, "Chico mostrou uma força moral surpreendente no país da dialética da malandragem" e "manteve a postura adequada ao dizer que cada um tem direito a liberdade de sua opinião".

“Entre humanos que relincham e outros capazes de zunir, num comportamento próprio de quadrúpedes morais, mais uma vez Chico Buarque de Holanda assegurou seu lugar na história do Brasil e dos brasileiros. A cena vista e gravada num fim de noite no Rio de Janeiro é apenas a confirmação recente de que Chico é um artista que sabe qual é seu lugar em cada momento de nossa história. Comporta-se dessa maneira há meio século, seja através da música, dos versos de gênio, de uma literatura cada vez mais apurada e espetacular. Age assim pela postura política de quem recusa o lugar de artista-mercadoria e sabe responder aos percalços e tragédias da conjuntura histórica com clareza, com valentia e uma auto ironia que o acompanha tanto nas horas agradáveis como nas mais difíceis”; o comentário é do colunista do 247, Paulo Moreira Leite; para ele, “Chico mostrou uma força moral surpreendente no país da dialética da malandragem” e “manteve a postura adequada ao dizer que cada um tem direito a liberdade de sua opinião”.

por Paulo Moreira Leite, via Brasil 247

Entre humanos que relincham e outros capazes de zunir, num comportamento próprio de quadrúpedes morais, mais uma vez Chico Buarque de Holanda assegurou seu lugar na história do Brasil e dos brasileiros.

A cena vista e gravada num fim de noite no Rio de Janeiro é apenas a confirmação recente de que Chico é um artista que sabe qual é seu lugar em cada momento de nossa história.

Comporta-se dessa maneira há meio século, seja através da música, dos versos de gênio, de uma literatura cada vez mais apurada e espetacular. Age assim pela postura política de quem recusa o lugar de artista-mercadoria e sabe responder aos percalços e tragédias da conjuntura histórica com clareza, com valentia e uma auto ironia que o acompanha tanto nas horas agradáveis como nas mais difíceis, como se descobre pelo depoimento de um de seus amigos de “ Chico: um artista brasileiro”, documentário que é uma obra prima obrigatória para todo brasileiro preocupado em entender o seu país em 2015.

Mais do que um poeta, um grande escritor recém confirmado, Chico Buarque é uma das raras consciências da nação.   Ajudou e ajuda os brasileiros a entender o país em que vivem. Por qualquer meio utilizado, seus enredos convergem para a defesa das grandes maiorias, a solidariedade diante dos explorados e excluídos.

Sempre denunciou o regime militar, combateu a censura,  a brutalidade covarde da ditadura e o empobrecimento dos anos 1960 e 1970.  Antes e depois da democratização, atuou para defender a primazia dos direitos e interesses dos que não tem direito à palavra, o que explica a importância do pobre, do negro, do explorado, em sua música, na literatura, no engajamento político direto, num tratamento frequentemente solidário e até carinhoso em alguns momentos. Entendeu o ponto de vista mulher, muito antes que se tornasse moda. Defendeu — como o filme mostra num depoimento surpreendente do início da carreira – os direitos de homossexuais quando palavras como veado e bicha eram parte do vocabulário familiar.

Acima de tudo recusou as clássicas tentativas de acomodação com os interesses do alto, o que se reflete num comportamento que rejeita as vulgaridades típicas que a sociedade contemporânea reservas aos artistas de sucesso – a começar pelo inevitável beija-mão dos ricos e poderosos, entre eles a TV Globo.

Mostrando que aquilo que parece inevitável pode ser evitado, Chico mostrou uma força moral surpreendente no país da dialética da malandragem. Tem compromissos claros. Nunca deixou de ter um lado e sabemos muito bem que lado é este – e é isso, mais do que qualquer outro fator, que explica vários momentos de sua carreira, inclusive a agressão de anteontem.

Atacado, cercado, naqueles movimentos tensos que podem descambar para uma situação fora de controle, Chico soube enfrentar com sorrisos e ironias uma provocação tipicamente fascista. Ouviu expressões inaceitáveis de ódio (“você é um merda, quem apoia o PT é um merda”) e ressentimento (“para quem mora em Paris é fácil”).

Manteve a postura adequada ao dizer que cada um tem direito a liberdade de sua opinião (“eu acho o PSDB bandido. E aí?”). No dia seguinte, ao postar a música ” Vai trabalhar, vagabundo”, lembrou a matriz moral de uma elite que jamais aceitou pegar no pesado. Três séculos e meio de escravidão nos contemplam. Seu nome é o desprezo pela democracia, a vontade indomável de recuperar privilégio, o desprezo pelos de baixo.

Meses depois da filósofa Marcia Tiburi escrever “Como conversar com um fascista”, Chico Buarque saiu da teoria para o terreno áspero da prática.

A experiência ensina que a bestialidade fascista costuma ser uma ação preparatória para atos de violência física, aberta e escancarada. É uma faísca a espera de uma chama capaz de produzir uma catarse.

Ao contrário de uma briga de rua, dos conflitos entre gangues adolescentes e mesmo guerras por ponto de tráfico, que se equivalem num mesmo universo entre interesses idênticos e apenas concorrentes, a violência fascista pretende assumir sempre um caráter político punitivo. É aí, pela pancadaria sem freios, até selvagem, que tenta produzir um espetáculo para sua ideia de superioridade com direito a prevalecer com base na força bruta.

Simula um discurso de redenção num universo que – de seu ponto de vista aloprado — se tornou incapaz de aceitar indispensáveis remédios civilizatórios. Tenta acobertar a própria brutalidade, de caráter criminoso, a partir de um discurso que busca apontar supostas falhas morais, incorrigíveis, inaceitáveis e vergonhosas, no Outro. Seu discurso tem como destino a morte, numa agressão animalesca que quer fingir que não se trata de pura bestialidade doentia, tentando justificar-se pelas falhas e faltas do Outro. É pura barbárie mas pretende ser castigo. Quer dar uma lição.

Num flerte que nasceu pela ilusão suicida de que os movimentos fascistas podem ser úteis a um negócio que eu sempre imaginei que precisava da liberdade de expressão para sobreviver, nossos meios de comunicação fizeram um papel vergonhoso. Numa clássica banalização do mal, pois precisam das bestas-feras para alimentar um golpe de Estado disfarçado de impeachment, editaram um noticiário com verbos e palavras que invertem os papéis, transformando a vítima em agressor. É preocupante, quando se recorda a estatura cultural de Chico Buarque de Holanda. Nem ele precisa poupado, ensina-se. Vale-tudo — essa foi a mensagem no dia seguinte.

Quem deu a boa lição foi Chico e isso não surpreende, para quem já assistiu “Chico: um artista brasileiro”. Não vou lembrar, aqui, as inúmeras passagens maravilhosas e diversas cenas pouco conhecidas da biografia de Chico Buarque. Só isso já vale o filme – mas o documentário tem mais. Tem ideias, reflexões.

Fico na principal, que tem a ver com o Brasil de hoje. Num depoimento sobre um país envolvido com um ambiente de desencanto e inconformismo com a economia, a política, a cultura, Chico Buarque formula uma visão indispensável.

Diz que a situação “piorou porque melhorou”.

Você entendeu: as mudanças e progressos ocorridos num período recente, quando as maiorias conquistaram direitos e garantias impensáveis em qualquer época, mudaram o país de alto abaixo. Mas essas mudanças trouxeram contrapartidas que, do ponto de vista de quem já se encontrava do outro lado da nossa imensa avenida social, nem sempre são confortáveis, muito menos bem vindas. Muitas podiam ser corretas, mas sequer ocorreram como se tinha imaginado. E agora? pergunta o filme.

Falando dos anos de sua juventude, em boas escolas, numa família com vida confortável, Chico responde. Lembra da bossa nova, dizendo que, para seu gosto pessoal, era uma música muito mais agradável do que a fase atual da música brasileira. Admite, contudo, que fala de um ponto de vista de uma determinada elite, com uma certa formação e hábitos próprios de quem habita determinados patamares da pirâmide social.

Deixa claro, com sinceridade, que prefere viver num país onde todos possam expressar a música a seu gosto e a seu estilo – mesmo que isso não seja o mais agradável a seus ouvidos. Essa é a opção.

Você sai do cinema convencido de que, como a maioria das pessoas, Chico tem muitas críticas ao que ocorre no país de hoje. Nem por isso, contudo, perdeu as referências de sua história nem os valores que nos ensinou a preservar – mesmo quando eram impronunciáveis e até malditos. Essa é sua força, seu lugar.

Recusa-se a negociar princípios democráticos em nome do gosto pessoal.

Essa é a lição que se deve aprender.

19 Comentários

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  2. Ah,foi exilado político e blá,blá,blá
    Parem de esconder estes caras como sendo semi deuses só porque foram exilados!!!

    OHH!! Joga bola com Ronaldinho em troca de roupas e 1 Kg de alimento.

    É ele que organizou ou pegou carona???

    Certa vez,o Bono da banda U2, disse que sentiria vergonha se seu filho lhe perguntasse quem Ele foi no passado e soubesse que Ele tinha tanto poder para mudar algo e não o fez.

    Dilma,Lula, FHC e Caetano entre outros foram exilados,mais na primeira chance f…. a sua nação.

    Lei Rounet,se não é do povo… cai do céu.
    Isenção de imposto é o que meu filho??
    Deixar de arrecadar,assim como os impostos que o Lula não arrecadou com os veículos,não é dinheiro do povo??Ah,é um incentivo,kkkk

    Nossa questionar e mudar o sistema,kkkk
    Quando,onde??

    Este Chico é mais um entre outros artistinhas fajutos,que fizeram sucesso no Brasil,só porque fizeram música no período da ditadura.

    Se fizeram coisa errada tinham que levar porrada mesmo!!
    Conheço milhares de pessoas que nunca tiveram problemas com a polícia no período da ditadura.

    Outros cantores tiveram problemas com a ditadura,mais não precisaram do exílio.

    Ande na linha e não terá problemas!!!
    Me diga com quem andas,que direi quem tu és!!!

  3. É isso aí Nilcosta, tem um bando de idiotas que não entendem nada e ficam falando asneiras. A maioria dos grandes artistas, músicos independentes ou que trabalham com música instrumental só conseguem sobreviver através de projetos culturais, pois a grande mídia e nosso povo só dá ibope para música comercial. Se não tivéssemos a lei de incentivo a cultura não teríamos mais a MPB, a música alternativa e a música instrumental.

  4. Inutil ‘e o idealista que lucra com seu ideal. Assim ‘e Chico Buarque. A familia toda vivendo as custas da Lei Rounet, ou seja, do povo brasileiro. Vide Carlinhos Brow, o genro do Chico. Nao consegue vender um CD mas recebe milhoes do governo federal. Que idealismo ‘e esse?

    • A imbecilidade e o desconhecimento parece ser a marca dos coxinhas. Quando que o dinheiro da Lei Roanet é dinheiro do “Povo brasileiro” ?
      Ta legal, vou desenhar pra voce:
      Ela nada mais é que uma insenção de imposto de no maximo 4% do lucro real de empresas. Empresas essas que lucram com a exibição de sua marca no projeto cultural. Quem nao quer ter sua marca associada a Chico Buarque de Holanda?

    • A imbecilidade e o desconhecimento parece ser a marca dos coxinhas. Quando que o dinheiro da Lei Roanet é dinheiro do “Povo brasileiro” ?
      Ta legal, vou desenhar pra voce:
      Ela nada mais é que uma insenção de imposto de no maximo 4% do lucro real de empresas. Empresas essas que lucram com a exibição de sua marca no projeto cultural. Quem nao quer ter sua marca associada a Chico Buarque de Holanda?

  5. Chico foi quem chamou o rapaz de merda primeiro.
    Acho que chico é um merda mesmo.

  6. não vale um baseado de maconha que esse cara fuma.

  7. Gostei da resposta do Chico: “Vai Trabalhar Vagabundo”. Não precisa dizer mais nada.

  8. Quantos shows beneficentes este tal Chico,fez em prol dos necessitados ???

    Então ele e essa cambada de “artistas” que cobram caro pelos ingressos que vão a M…..

    Vivem de holofotes da globo e cia.

    Volta pra Paris chico!!!

    • entao é isso, vc prefere um artista que de esmolas, mas que nao questione o sistema, vc deve ser mais um da elite caridosa que existe no brasil, volte a sua insignificancia, chaves.

    • ah, então é isso, vc gosta dos artistas que dão esmolas, mas que nao mexem um dedo pra questionar ou mudar o sistema, vc é mais um dos “caridosos” da elite.

    • Eu já digo: Grande Chico Buarque de Holanda!

    • Pois é chaves, esse é o grande erro de quem quer patrulhar quem nem sequer conhece-se. Chico, na juventude, foi perseguido pela ditadura, foi exilado político, na França e, possivelmente deve ter comprado, por lá, algum apartamento com dinheiro que ganha(ava) fazendo shows, assim como Gil, Caetano, entre tantos outros que precisaram sair do Brasil da ditadura. Quanto aos holofotes da poderosa globo, Chico nunca os teve, pelo contrário, ele não faz shows na globo, não paga jabá, não é nem convidado a qualquer programa desses que não assisto por tão ruim que seja. Entretanto, os ingressos realmente devem ser caros porque é disso que vivem, e vão assistir seus shows os pais da molecada que o agrediram, e pagam. Contrassenso? Talvez, mas é a realidade. E diferente do que você sabe, Chico faz sim shows no Rio e em São Paulo beneficentes, mas, vai jogar bola com Ronaldinho, Romário, Tulio, entre outros craques de bola para arrecadar fundos a instituições de caridade. Só que ele dá com uma mão, e a outra não fica sabendo, assim como manda um livrinho antigo aí, uma tal de Bíblia. 1 Kg de alimento, uma roupa, um ingresso que ajudará alguma instituição de caridade escolhida pelos patrocinadores. Com seus 71 anos, ainda bate uma bolinha, de vez em quando. Infelizmente é esse cidadão brasileiro com uma história tão rica e maravilhosa que muitos por imbecilidade ou desconhecimento de história recente, tentam esculhambar porque tem a “pretensão” de apoiar o PT. PT que seu pai (o dele) foi fundador e que apoiou até sua morte tem alguns anos atrás. Mas não o farão.

  9. Incrível, estão no chão e mesmo assim, se acham no direito de incomodar terceiros!

  10. O Chico teve muita paciência com estes coxinhas mal educados.fosse comigo quebrava eles no pau,é isto que estes vagabundos estão pedindo faz tempo