Coluna do Reinaldo de Almeida César: A sanha arrecadatória estilo “biruta de aeroporto” de Beto Richa

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Em sua coluna semanal, Reinaldo de Almeida César fala da tentativa do governador Beto Richa (PSDB) de “passar nos cobres” uma série de imóveis do Estado para engordar o caixa. Reinaldo aponta a falta de critérios, o descompromisso histórico e sugere soluções para melhor abrigar a direção da Polícia Civil em Curitiba. Leia, comente e compartilhe.

Reinaldo Almeida César*

Depois de fazer de Curitiba a campeoníssima da inflação pela escorchante elevação de impostos, depois de raspar a ParanaPrevidência e de meter a mão grande no Fundo Especial de Segurança Pública do Estado do Paraná (FUNESP), o governo estadual agora anuncia um bingão de prêmios, a fim de manter o entusiasmo dos incautos consumidores que acreditaram no Programa Nota Paraná e que saíram, eufóricos, pedindo a inclusão do CPF ao tilintar das caixas registradoras.

O risco de frustração dos que aderiram é enorme. Os sedutores descontos antes acenados, agora são revelados com a frieza da realidade. Estão muito longe dos percentuais prometidos. O que se esperava ver se materializar em generosos reais de retorno, pode se tornar míseras moedas de  centavos.

Nesta sanha arrecadatória, o governo não teve freios inibitórios em colocar no balcão da feira, em oferta, dezenas de imóveis que pertencem ao patrimônio dos paranaenses.

Até mesmo a Granja do Canguiri — não fosse a boa intervenção do líder Romanelli (PMDB) — teria sido passada nos cobres.

Dizem alguns historiadores que foi o excesso de pudor e de caráter de Bento Munhoz da Rocha Netto que impediu a construção da ala residencial no Palácio Iguaçu, pelo constrangimento de ter sido governador já residente em imóvel próprio em Curitiba antes de assumir o cargo, ainda que parnanguara de nascimento.

O afoito gestor que pensou em se livrar do Canguiri, em troca de algum dinheiro, talvez não conheça nossa história.

Como neste desiderato de vender dezenas de imóveis o governo também manteve seu estilo “biruta de aeroporto”, modificando e reduzindo, em contramarcha, a relação inicial dos imóveis, permito-me fazer um apelo à reflexão.

Ao invés de se desfazer do terreno que abrigou a sede histórica da quase bicentenária Polícia Civil na Barão do Rio Branco, que tal o governo se debruçar na retomada dos estudos apresentados pelo Programa Paraná Seguro, para que as áreas centrais de Curitiba que pertencem à Polícia Civil — como o terreno que agora se pretende vender e a área do 1. DP — sejam permutadas por áreas construídas na Vila Izabel, onde seria edificada a sede própria da instituição, aproveitando-se o espaço da Delegacia de Furtos de Veículos e da Escola da Polícia Civil, implantando-se ali a “Cidade da Polícia”, ao lado do Batalhão da Polícia Rodoviária Estadual?

Que sentido faz o governo se desfazer do terreno da sede histórica da Polícia Civil, nada edificando em troca, em favor da instituição, enquanto paga um aluguel caríssimo para abrigar a direção da Polícia Civil num prédio totalmente inadequado que, se houver rigor na fiscalização do corpo de bombeiros, talvez nem alvará de funcionamento possa ter?

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Difícil entender o governo federal, nestes momentos agudos da crise política e econômica.

Não, não vou falar sobre impedimento da Presidente.

Já tem muita gente, jornalistas, juristas e repentistas, tratando do assunto.

Quero apenas registrar que não entendi por qual razão de Estado o governo federal botou seu rolo compressor no plenário da Câmara dos Deputados, na última terça, para derrotar uma boa emenda do Deputado Subtenente Gonzaga, do PDT de Minas Gerais, que criava, dentro do Minha Casa, Minha Vida, uma condição para que policiais, militares e civis, pudessem se habilitar no programa, independente do valor total da remuneração que percebam.

Assim, mesmo que extrapolassem um pouco na faixa de renda limite do programa, os policiais poderiam criar condomínios financiados pelo Minha Casa, Minha Vida, agrupando-se em vida comunitária, com extraordinários reflexos para suas famílias e para a população em geral.

Pergunto aos meus sempre irascíveis botões: vetar e agora manter o veto desta proposta, apresentada no exame da MP 679, salvou o país da catástrofe econômica que vivemos ? Estancou o afundamento do PIB ?

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Conta a piada que quando dois paulistas fazem algum negócio vantajoso, a preocupação de cada um deles é apenas saber quanto ganhará, individualmente. Se forem dois cariocas, é saber quanto ganharão juntos. Já os paranaenses preocupam-se em saber o quanto o outro vai ganhar.

A verdade é que, entre nós, parece valer o preceito bíblico de que “o profeta não é reconhecido em sua própria terra”, que foi convertido na voz popular para “santo de casa não faz milagre”.

Nesta semana, passou quase em branco, com pequenos registros aqui ou ali, o importante prêmio recebido pelo Observatório Social de Maringá, contemplado na categoria “Justiça e Cidadania — Transparência e Zelo na gestão dos recursos públicos”, pelo prêmio INNOVARE.

Conheço bem o projeto INNOVARE, desde a sua criação em 2004.

Trata-se da mais importante premiação que é, anualmente, conferida pela justiça brasileira, por boas práticas na prestação jurisdicional ou relacionadas à cidadania.

A escolha dos premiados, a cada ano, é sempre muito criteriosa. A data da entrega da premiação é feita em solenidade de muito prestígio, mobilizando a agenda e a presença da cúpula do judiciário e de outras tantas autoridades de relevo.

Parabéns ao Observatório Social de Maringá.

Os maringaenses podem se orgulhar disso, também.

Que sua existência e prática possam se multiplicar pelo Paraná afora, no controle social de gastos públicos.

A sociedade paranaense precisa. Cada vez mais.

*Reinaldo Almeida César é delegado da Polícia Federal. Foi secretário da Segurança Pública do Paraná. Chefiou a Divisão de Cooperação Policial Internacional (Interpol). Escreve nas quartas-feiras sobre “Segurança e Cidadania”.

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