Senador Roberto Requião diz que FUG apresenta ‘uma ponte para o inferno’

requiao_ulyssesO senador Roberto Requião (PMDB-PR), em artigo divulgado nesta quarta-feira (4), disse que um documento apócrifo, sem assinatura, atribuído à Fundação Ulysses Guimarães (FUG), braço político do partido, propõe ‘uma ponte para o inferno’.

Nas vésperas do congresso nacional do PMDB, previsto para o próximo dia 17 de novembro, Requião afirma que o “tratado” requenta o modelo neoliberal ao sugerir a retirada de direitos dos trabalhadores previstos na Constituição de 1988.

“Ora, o documento defende acabar com a Constituição Cidadã, construída sob a batuta e liderança do verdadeiro Dr. Ulysses”, critica Requião, para quem os autores do documento da FUG pretendem retornar ao regime de privatizações, sobretudo na área do petróleo, e atacar a ideia de um Estado do bem-estar social para beneficiar a banca.

“Ulysses morreu. Querem agora enterrar suas ideias”, brada o senador paranaense. A seguir, leia a íntegra do artigo:

CRÍTICA AO DOCUMENTO DA FUNDAÇÃO ULYSSES GUIMARÃES

por Roberto Requião*

No último dia 29, a Fundação Ulysses Guimarães, vinculada ao PMDB, lançou um documento intitulado “Uma ponte para o futuro”. O escrito faz um amplo diagnóstico da atual situação política, econômica, social e fiscal do Brasil, para então elencar supostas soluções que, infelizmente, estão distantes de contemplar os interesses da população.

Baseado numa retórica moderada e superficialmente sensata, faz uma análise aparentemente consequente, somente aceitável para aqueles que já se contaminaram pelo terrorismo econômico contra o Estado. Mas o meu Velho PMDB de guerra não se reconhece no documento que, na realidade, tenta marcar uma total ruptura do partido com as propostas voltadas para o âmbito social.

A aderência ao mofado ideário do Consenso de Washington se materializa com vigor, refletindo o alinhamento incondicional ao domínio das finanças, que se apresenta como tábua de salvação, mas que na realidade constituiria a liquidação das bases produtivas nacionais e captura dos rumos do governo pela Banca.

A análise de conjuntura incluída no documento dá importância fundamental a dois postulados bastante discutíveis patrocinados pelo mercado financeiro. Primeiramente desconhecem o ajuste fiscal como promotor da recessão, elegendo o déficit como vilão. Por mais absurda que seja, essa é interpretação querida dos monetaristas da Escola de Chicago, os mesmos que comandavam muitos dos grandes bancos responsáveis pela crise de 2008, que agora atinge as economias em desenvolvimento. A partir disto, como que por desdobramento natural, “constatam” que a Constituição de 88, “não cabe no orçamento”, que teria “excesso de direitos”, especialmente os sociais e trabalhistas.  Da mesma forma, excomunga-a, pelo “absurdo” de vincular recursos para Saúde e Educação. Esbarram na óbvia conclusão de que temos, segundo o verdadeiro Ulysses Guimarães, uma “Constituição Cidadã”, que busca a construção do Estado de bem-estar social, hoje tão demonizado. Assim, concluem que ela deve ser exorcizada, desdemonizada, estirpando dela todas essas “irresponsáveis” preocupações sociais.

O que me deixa mais estupefato é que o documento, sem autores, busca sua credibilidade apenas no nome da Fundação Ulysses Guimarães. Ora, o documento defende acabar com a Constituição Cidadã, construída sob a batuta e liderança do verdadeiro Dr. Ulysses. Ela é reconhecidamente a maior realização da sua vida.

Mas o documento vai além de propor uma grande borracha para apagar os fundamentos da Constituição de 88. Em mais uma amostra de adesão ao pensamento único, toma os índices de competitividade como argumento a fim de preconizar o Estado mínimo e ataque aos direitos trabalhistas.

Ignoram que a produtividade, fator de alta influência na competitividade, é tanto maior quanto mais desenvolvida e complexa for a estrutura da economia. Isso não é alcançável pelo receituário neoliberal, mas sim por um projeto nacional de reindustrialização e desenvolvimento tecnológico.

O documento ataca frontalmente a capacidade do Estado de intervir na atividade econômica e seus inerentes ciclos, e no compromisso constitucional de combate a ainda enorme desigualdade social quando propõe (1) limites para a dívida pública, medida draconiana e paralisante de efetividade jamais comprovada, (2) a possibilidade de pagar menos de um salário mínimo aos aposentados, expondo nossa população idosa ao empobrecimento e (3) a criação de um comitê independente de avaliação dos programas governamentais como Bolsa Família e Ciências sem Fronteiras, pondo-os em cheque, uma vez que se verão constantemente acossados pelas críticas do mercado, que vê como essencial somente o pagamento dos juros e amortização da dívida pública.

O ataque tecnocrata vai além, ressuscitando proposta já rejeitada no senado, a saber, a criação de uma Autoridade Orçamentária, que na prática serviria como ponta de lança dos credores, solapando a soberania e a própria democracia a partir do momento que impõe a ortodoxia econômica independentemente da decisão das urnas e das propostas dos políticos vencedores das eleições. A retórica da neutralidade na gestão financeira estatal serve ao propósito de capturar o processo decisório, privatizando-o na prática, sempre em favor da banca.

Prossegue no entreguismo típico de nossa elite associada ao capital transnacional quando sustenta a continuidade da privatização da infraestrutura pública e até mesmo o cancelamento do mais ambicioso ensaio de desenvolvimento tecnológico e investimento social representado pela Lei da Partilha do pré-sal, que prevê a Petrobras como única operadora de seus campos, a política de conteúdo nacional e os fundos de investimento em educação e saúde. Retornar ao regime de concessão de FHC significa abrir mão de uma lei similar ao modelo norueguês, este que foi responsável pela ascensão do país nórdico ao mais alto patamar de desenvolvimento humano e bem-estar social.

Faz crítica correta, todavia, pontual, à enorme taxa de juros e às operações compromissadas do Banco Central – os dois maiores representantes da apropriação do orçamento público pelos bancos privados – para, em seguida, voltar atrás dizendo que qualquer “voluntarismo” no combate aos mais altos juros do mundo seria “o caminho certo para o desastre”.

Em demonstração de subserviência, insinua que devemos sustar o projeto do BRICS, submetendo o país às parcerias transatlânticas e transpacíficas lideradas pelos EUA, as quais dão privilégio aos investidores estrangeiros, agredindo a soberania, a proteção socioambiental brasileira e, mais uma vez, a “Velha” Constituição do verdadeiro Dr. Ulysses.

E para enterrar de vez qualquer pretensão de justiça social, defende o fim da CLT por meio da antiga ideia de permitir que o acordado prevaleça sobre o legislado, configurando retirada de direitos dos nossos milhões de trabalhadores.

É com pesar que assisto à arena política institucional oferecer cada vez menos possibilidades reais ao povo brasileiro. Com o governo imerso no austericídio de Levy, o PSDB há muito submisso aos ditames das finanças e o PMDB defendendo as maléficas iniciativas aqui expostas, temos a quase completa cegueira ideológica assumindo perigosa hegemonia e bloqueando a ascensão e desenvolvimento do Brasil, e usando o nome do Dr. Ulysses, à sua revelia.

Ulysses morreu. Querem agora enterrar suas ideias.

*Roberto Requião é senador da República pelo PMDB Paraná.

9 Comentários

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  2. É Requião, o PT ao se tornar poder, traiu a classe
    trabalhadora
    O PMDB, que nunca foi poder (presidencia), trai o
    Brasil, assim como traiu o seu único candidato à
    presidência da república, Ulysses Guimarães.
    E agora, aliado ao PT, vai contra os trabalhadores,
    e trai pela 2ª vez o Dr. Ulysses.
    Exceções raras como Pedro Simon e você, Requião,
    dão uma esperança de que ainda tem jeito, mas o
    PMDB a nível de Brasil, não existe mais.
    Que pena.

  3. Requião, Ciro Gomes e mais uma meia dúzia são políticos que tem capacidade de fazer o país melhorar.

  4. quem tem moral fala o que quer onde quer que esteja este sim TEM muita moral e opinião,este sim representa o BRASIL.

  5. Este monstrengo que o assaltante Eduardo Cunha e seus seguidores aprovaram, significa uma volta à senzala! Coisa de deputado do baixo clero, fundamentalistas religiosos e toda espécie de escória!

  6. Mas é chato o tal do Requião…crediospai

    • É mimi pra entender o governador hoje senador voce tem que ter pelo menos o primário; me diga aí em Miami (se é que vc está) tem mais comissionadinho burro ou só voce ?

    • ROBERTO REQUIÃO,É UM POLITICO QUE ACREDITO,DEVE ORGULHAR OS PARANAENSES, PENA QUE ESSES HOMENS COMO SUPLICY,ACABAM REJEITADOS E O QUE SE VÊ DEPOIS É ISSO,TODA SORTE DE DESMANDOS CONTRA O POVO.

  7. Sempre me representa a opinião do nobre senador. Espero um dia ter o prazer de votar nele para Presidente ou vice do país. Tava na hora de alguma pessoa séria reagir a este documento infâme que se for posto em prática nos leva de volta às senzalas..