Coluna do Bruno Meirinho: Dia da Consciência Negra; memória, reparação e justiça

Zumbi

Em sua coluna semanal, Bruno Meirinho (PSOL) fala sobre o dia da consciência negra, comemorado nesta sexta-feira, 20 de novembro. Meirinho relata a origem da data e sua importância para a memória e a reparação dos males da escravidão no Brasil. Ele também critica a oposição de setores, principalmente empresarias, para que a data seja feriado nos estados e municípios. Leia, ouça, comente e compartilhe.

Download

Bruno Meirinho*

O dia 20 de novembro é o dia da consciência negra. A data é registrada em memória a Zumbi dos Palmares, líder do quilombo situado em Alagoas, que foi assassinado em 20 de novembro de 1695.

Os quilombos eram locais onde se reuniam os escravos que conseguiam fugir das fazendas. Nesses locais, estabeleciam comunidades que conseguiram preservar sua cultura até os dias de hoje.

Por isso, Zumbi dos Palmares é amplamente reconhecido como o símbolo da resistência dos escravos de origem africana, e também de todos os negros, razão pela qual o dia da sua morte ficou registrado como o Dia Nacional da Consciência Negra, reconhecido pela Lei Federal 12.519/2011, que, entretanto, não reservou esse dia como feriado. Zumbi também é considerado um herói nacional, homenageado no Livro dos Heróis da Pátria.

Embora a lei federal não designe esse dia como feriado, vários estados e municípios instituíram, por lei, o feriado do dia 20 de novembro, como uma expressão do respeito ao dia da consciência negra, ao lado do dia do trabalhador, da proclamação da república, e da independência do Brasil, datas que celebram a formação do Brasil enquanto nação.

Entretanto, para outros estados e municípios, instituir o dia da consciência negra é considerado um tema polêmico. A oposição contra o feriado geralmente parte de associações empresariais, comerciais e industriais.

A argumentação dessas entidades empresariais se dirige à ameaça de queda na produtividade e nos lucros. Criticam o excesso de feriados no Brasil.

O argumento do excesso de feriados, entretanto, não resiste à comparação com outros países, como, por exemplo, os Estados Unidos, a Alemanha e a França, que costumam ter mais feriados que o Brasil, e não são países de baixa produtividade.

A questão do impacto econômico do feriado também é um assunto duvidoso. Para alguns setores da economia, definitivamente pode haver algumas dificuldades, mas o impacto, provavelmente, não seria suficiente para justificar o veto ao feriado.

Isso porque outros fatores podem ter impactos muito mais relevantes para a economia do que os feriados, como os juros altos, o déficit na correção dos salários em relação à inflação, o aumento dos preços controlados de produtos essenciais (água, luz, combustível e transporte), a redução do poder de compra das aposentadorias e, até mesmo, o clima.

Além disso, ainda que os feriados signifiquem perdas para alguns setores, para outros, como o setor de viagens e lazer, representa ganhos que não poderiam ser obtidos de outra forma.

Ou seja, ainda que a questão econômica seja o principal argumento das entidades empresariais, não se pode limitar a discussão a esse aspecto. Os feriados, sem dúvida, significam datas de lazer, mas também são elementos de formação da cultura e da identidade.

E hoje, apesar de muitos esforços, ainda fala-se pouco da resistência dos escravos e a história da população negra na formação da sociedade brasileira. A reserva de uma data em memória à consciência negra poderia ser uma forma de reverter esse problema.

Enquanto isso, a questão do racismo no Brasil é um assunto velado. Note-se, por exemplo, que para cada assassinato de jovem branco, morrem quase 3 jovens negros; os trabalhadores negros recebem, em média, 57% do salário dos brancos. Mais de 60% dos presos são negros. Esses números são os custos de uma prática criminosa contra a população negra. Eventuais custos de um feriado não chegam nem aos pés.

*Bruno Meirinho é advogado, foi candidato a prefeito de Curitiba. É o coordenador local da Fundação Lauro Campos, instituição de formação política do PSOL. Ele escreve no Blog do Esmael às sextas-feiras sobre “Luta e Esperança”.

6 Comentários

Os comentários não representam a opinião do Blog do Esmael; a responsabilidade é do autor da mensagem, sujeito à legislação brasileira.

  1. Você realmente acha que depois de assinada a Lei Áurea acabaram-se os problemas, acabou a escravidão? Pela sua lógica deveríamos fazer a mesma coisa com a pobreza, a fome, e outros problemas sociais. Vamos fazer uma lei para que ninguém mais passe fome e pronto, ela desaparece!

    Quanta ingenuidade.

  2. É preciso estudar a história antes de dizer bobagens.Zumbi como herói é uma criação desta república. Zumbi, considerado o grande herói de Palmares, tinha escravos. Fatos como esse, que ainda passam em branco em muitas aulas de História, fazem parte do lado pouco explorado da escravidão no Brasil. Em vez de meras vítimas, os negros tiveram papel mais complexo na sociedade colonial, às vezes até com status semelhante ao dos portugueses.Nos tempos do Brasil colonial, a escravidão era vista como algo natural. Portanto, era de se esperar que negros em ascensão na sociedade, como Zumbi, tivessem escravos também.Os negros tinham possibilidade de ascender na sociedade. Após conquistar a alforria, eles poderiam adquirir bens e, inclusive, outros escravos.

    • E porque a sociedade ainda vive em um regime escravocrata? Porque os negros ainda vivem as mazelas daquele tempo? Vai dizer que a culpa é deles mesmos? Olha os alunos da UFBA, veja o percentual de negros que os cursos têm. Vai lá no curso de medicina. Depois compare com o percentual da população negra da Bahia pra você ver.

      Se você está falando de questão histórica, não se atenha aos livros escritos pelos próprios opressores e saiba ler nas entrelinhas. Esqueça a história factual contada por quem vence a guerra.

  3. É uma tremenda besteira ficar concedendo cotas para negros como se fossem eles inferiores; pois desde 1.888 são livres; um filho de um negro tem as mesmas oportunidades que um filho de um branco pobre tem.

    • Você realmente acha que depois de assinada a Lei Áurea acabaram-se os problemas, acabou a escravidão? Pela sua lógica deveríamos fazer a mesma coisa com a pobreza, a fome, e outros problemas sociais. Vamos fazer uma lei para que ninguém mais passe fome e pronto, ela desaparece!

      Quanta ingenuidade.