Coluna do Rafael Greca: Curitiba inspira cuidados

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Em sua coluna semanal, Rafael Greca fala sobre problemas encontrados na cidade de Curitiba que não existiriam se a administração pública tivesse mais atenção e cuidado. Há falta de manutenção nos equipamentos públicos, muitos caindo por causa da ferrugem, buracos nas ruas e ciclovias, infestação por ratos,  venda e consumo de drogas ao ar livre, ônibus velhos pondo em risco os passageiros e a cidade, etc. Leia, ouça, comente e compartilhe. 

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Rafael Greca*

Cresce entre os que amam Curitiba a certeza de que nossa cidade inspira cuidados. Deprimida, corroída, mofada, ameaçada por desleixo público, vítima de uma administração enferrujada e infrutífera, Curitiba suspira pelo tempo perdido.

Nos últimos 9 dias, observei 6 graves sinais de uma peste urbana que consome a qualidade de vida de Curitiba: 1) ciclista morto por inacreditável buraco no asfalto derramado pela prefeitura no Xaxim; 2) na rua XV, poste de ferro que abate cidadã, ensanguentando o calçadão; 3) ferrugem no Bondinho na mesma rua das Flores; 4) ratos à luz do dia nos gramados da Praça Tiradentes; 5) grades de proteção corroídas no parque Tanguá; 6) 300 ônibus velhos em circulação provocando até ação do Ministério Público.

É na Cidade que a vida se realiza. Não dá para separar nossa gente da nossa Cidade. Se Cidade vai mal, a gente curitibana sofre, padece.

A 3 de outubro, sábado, na rua David Town, no Xaxim, morreu Milton Ferreira de Oliveira (47) , ciclista, ao voar 40 metros depois de cair num buraco da ciclovia e em seguida topar em elevação no asfalto mal derramado – pela Prefeitura.

Uma depressão ou elevação inusitada no asfalto pode matar uma pessoa, então, cuidar das pessoas é também fazer bem feito o recape de pavimentos em ruas e ciclovias.

A 6 de outubro, terça-feira, visito a praça Liberdade, onde a rua Jari encontra a avenida da Integração, no Bairro Alto. Ali constato que o vestiário para os atletas – que fiz construir – não existe mais. Ruiu por abandono.

Casa em ruínas pode virar cracolândia, mocó de malfeitores, pode também desabar sobre as pessoas. Então, cuidar das pessoas é evitar ruína dos equipamentos públicos. Preservando-lhes a firmeza, a utilidade e a beleza.

A 9 de outubro, sexta feira, no centro de Curitiba, na rua XV com João Negrão, um poste de ferro fundido desmilinguiu-se, torcido, caindo aos pedaços sobre a curitibana Maria Ferreira Ribas (59), que saía do trabalho para almoçar.

Gravemente ferida, a sexagenária deu entrada na UTI do Hospital Evangélico com traumatismo craniano. Seu estado inspira cuidados.

Percorri o calçadão da rua XV, onde instalei os elegantes postes republicanos, quando dos 300 anos da cidade. Vi que a ferrugem e a corrosão ameaçam vários deles, e também a integridade do bondinho da rua das Flores, utilizado para biblioteca infantil.

Um poste corroído pode matar uma pessoa. Uma peça enferrujada pode provocar tétano, ainda mais em crianças.

Então, cuidar das pessoas, é conservar as estruturas de ferro, pintando-as com zarcão anticorrosivo, revisando sua integridade, substituindo aquelas que, por ferrugem, ameacem ruína. Curitiba até possui uma fábrica de Zarcão Rhai, primer anticorrosivo, com 30 anos de tradição.

No sábado, 10 de outubro, o contribuinte Giovanni Ferrari Bertoldi levou hóspedes de fora conhecer o belo mirante do Parque Tanguá, sobre a mata ciliar do rio Barigui.

Fotografou a corrosão absurda das grades guarda-corpo do mirante. Só um milagre evita o desastre que ali se anuncia. Uma pessoa cair em queda livre, no vão do belvedere, e pior, no precipício da antiga pedreira da família Gava e no lago que a bordeja.

O curitibano indignado mandou a foto para mim, via Facebook. Envergonhado com a péssima qualidade dos serviços prestados por uma Prefeitura que já foi exemplar, só pude prometer denunciar o descalabro.

Uma grade corroída, enferrujada, pode matar um numeroso grupo de pessoas. Então cuidar das pessoas é conservar o equipamento de segurança. Ainda mais em apreciada área turística e de lazer popular como é o caso do meu amado Parque Tanguá. Digo “meu”, porque antes de ser de todos os curitibanos ele já existiu na minha imaginação, e no meu ato de vontade, ao fazê-lo.

Que tal aplicar – em grades e postes de ferro – a tinta “Zarcão Pró Ferro, de secagem rápida”, como fazem as prefeituras de Paris – na Torre Eiffel (desde 1889); de São Francisco – na ponte Golden Gate (desde 1937); de Londres, nas tricentenárias grades e postes de Trafalgar Square e Buckingham Mall (desde 1780).

Segunda-feira, 12 de outubro, fui à missa na comemoração de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Ao sair da Catedral, vi movimento de animais nos gramados da Praça Tiradentes.

Seriam catinguelês, ouriços lapiseiros, pequenos filhotes da fauna nativa destes pinhais? Seriam filhotes de capivaras risonhas?

Não! Eram ratos, em convescote. Pedi ao arquiteto Daniel Donadello, de passo por ali, que fotografasse a cena pré-bubônica. Evocação das cidades medievais ameaçadas de peste negra.

Postei as imagens nas redes sociais. O contribuinte Alexandre Cordeirovski Tod comentou: “sou morador há 10 anos na praça. A porta do meu prédio é um mictório público. O tráfico de drogras na praça, lateral da igreja, ruas José Bonifácio e Saldanha Marinho, acontece impune de manhã, tarde, noite e madrugada. As escadas da catedral fedem a dejetos humanos, os jardins públicos cheios de lixo.

Ratos, animais e pessoas abandonadas, ao relento, em vias públicas, num tempo em que o serviço social resume-se à entrega de um miserável cobertor, podem matar muitas pessoas: seja por peste bubônica, peste negra, seja por raiva, seja por ataques latrocidas, às vezes, por meros caraminguás que permitam a compra de crack.

Então, cuidar das pessoas, é também desratizar a cidade. Vacinar animais e evitar seu abandono. Acolher, alimentar, abrigar e resgatar pessoas em situação de rua.

Na manhã de terça, 13, abro a Gazeta do Povo, e leio a manchete: “MP costura acordo para Curitiba não terminar 2016 com 300 ônibus velhos em circulação”.

No corpo da matéria, leio que, em persistindo a atual prática de impasse entre a Prefeitura Fruet e as empresas de transporte coletivo, 15% da frota total será de ônibus fabricados antes de 2005 que, oferecem risco à população.

Pessoas podem morrer quando ônibus pegam fogo, perdem os freios, descontrolam-se sobre as calçadas, como aconteceu, na própria praça Tiradentes, com o Ligeirinho Colombo-CIC – que ainda operava, antes da desintegração, e avançou sobre a calçada fronteira ao prédio das Casas Pernambucanas, ferindo 32 curitibanos, e matando Edson Pereira da Silva (55) e Carlos Alberto Fernandes Brantes (63), no dia 10 de junho de 2010, na era do prefeito Luciano Ducci (PSB).

Não é de hoje que temos piorado.

Interesses políticos e econômicos alheios à boa história de Curitiba nos infelicitaram. Os poderosos da ocasião tem culpa no cartório por causa de seus casórios políticos contraproducentes. Fizeram apostas altas. Ninguém tem culpa porque suas fichas acabaram junto com o seu tempo.

Aliás, junto com o nosso tempo que Ducci e Fruet perderam.

Persiste minha fé. Há de ser possível revertermos este jogo ruim.
É melhor ser alegre que ser triste, Curitiba é a melhor coisa que existe.
Curitiba é modelo, não cidade modelada. É cidade sorriso não a cidade da raiva, da depressão, da cara feia.
Precisamos reagir. Restaurar nossa esperança. Mobilizar os curitibanos. Vamos lá!

*Rafael Greca, ex-prefeito de Curitiba, é engenheiro. Escreve às quartas-feiras no Blog do Esmael sobre “Inteligência Urbana”.

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