Por Esmael Morais

Coluna do Luiz Cláudio Romanelli: Independência e democracia

Publicado em 07/09/2015

E não por menos. A princípio pode ser até um contrassenso com a saudade que disse ter das primeiras campanhas, mas o país não pode mais conviver com a maneira que se fazem as campanhas eleitorais, ou como elas se impõem neste momento, e se desvelam agora nas investigações dos compromissos, antes inconfessáveis, com os doadores e seus interesses mais imediatos. Campanha, como já disse, tem quer ser feita gastando a sola do sapato e com boas ideias e propostas, com um custo mínimo. Acompanho, há anos, bons quadros da política nacional abandonando a vida pública, porque não se dispõe se submeter ao modelo e aos custos exorbitantes das campanhas atuais. As campanhas milionárias servem para interesses que não são compartilhados pela maioria dos cidadãos.

Tem-se ainda que avançar na prática política. Trocar o ramerrão do varejo e do compadrio, comum do século passado, por um diálogo transparente e propositivo com os mais diversos segmentos da sociedade. E é preciso entender que a tensão faz parte do processo da discussão e que não se faz necessário qualquer tipo de exasperação mais afrontosa.

Hoje a presidente Dilma Rousseff não fará o pronunciamento de 7 de setembro por receio de ser enxovalhada por panelaços. O ex-presidente Lula é ridicularizado através de um boneco com nome de Pixuleco. Ministros são hostilizados nas ruas e restaurantes. O mesmo aconteceu no Paraná nesta semana com um deputado, conhecido por sua postura ética e austera, e pela contundência crítica, de ser vaiado e xingado em Curitiba. Eu mesmo, fui vaiado e xingado por três meses, por pessoas que deviam educar. Nesta última semana, quando relatava na CCJ o projeto de lei que trata das eleições dos diretores, uma conhecida dirigente da APP, em voz alta repetia: mentira, mentira, mentira! Não há mais o mínimo de tolerância na convivência dos diferentes. É uma espécie de “Estado Islâmico” composto por segmentos sociais e setores da sociedade.

Isso precisa mudar e precisa-se contar com o desprendimento de todos os atores envolvidos nesse processo. Não se constrói um país, nem se fortalece a democracia, sem a liberdade de opinião. Não se pode também admitir o rito sumário e a lei do talião.

Em relação às eleições, de forma específica do que já apontei, há ainda pontos que estão na reforma política em discussão no Congresso Nacional e que serão votados pelos deputados e senadores. Entre eles, a cláusula de desempenho dos partidos, o fim das coligações, o financiamento de campanha, o sistema eleitoral, duração de mandatos, etc. A decisão em todos esses pontos têm que estar afinada com as vozes das ruas e com o desejo dos eleitores cada vez mais atentos.

Para encerrar, não posso deixar de citar a imagem do menino Aylan numa praia na Turquia. O horror mostrou, mais uma vez, sua crueza mais terrível na praia de Bodrum. O que podemos fazer? É a pergunta que não cala e que comove. Em pleno século XXI, a migração em todos os continentes se torna uma questão que coloca em xeque a civilização. Não podemos concordar como são tratados os imigrantes na Europa, pois são refugiados de guerras civis e do Estado Islâmico, que como todos sabemos é filho bastardo da intolerância.

*Luiz Cláudio Romanelli, advogado e especialista em gestão urbana, ex-secretário da Habitação, ex-presidente da Cohapar, e ex-secretário do Trabalho, é deputado pelo PMDB e líder do governo na Assembleia Legislativa do Paraná. Escreve às segundas-feiras sobre Poder e Governo.