Coluna do Reinaldo de Almeida César: A coragem que sobrou aos professores faltou ao governador Beto Richa

Publicado em 24 junho, 2015
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Reinaldo de Almeida César, em sua coluna desta quarta-feira, ironiza o fato de o governador Beto Richa comparar-se ao ex-primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, durante entrevista à TV Veja; colunista também recorda que em 29 de abril, dia do massacre no Centro Cívico, fora a data escolhida por Adolf Hitler para casar-se com Eva Braun; "Horas depois, como sabemos, foram varridos da história", compara; ex-secretário da Segurança afirma acreditar na seriedade do inquérito sobre o sangue dos professores derramado durante a luta em defesa da Paranáprevidência; leia o texto e compartilhe.
Reinaldo de Almeida César, em sua coluna desta quarta-feira, ironiza o fato de o governador Beto Richa comparar-se ao ex-primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, durante entrevista à TV Veja; colunista também recorda que em 29 de abril, dia do massacre no Centro Cívico, fora a data escolhida por Adolf Hitler para casar-se com Eva Braun; “Horas depois, como sabemos, foram varridos da história”, compara; ex-secretário da Segurança afirma acreditar na seriedade do inquérito sobre o sangue dos professores derramado durante a luta em defesa da Paranáprevidência; leia o texto e compartilhe.
Reinaldo de Almeida César*

A melhor notícia da semana, na área da Segurança Pública, vem da Polícia Militar que anuncia ter prorrogado o prazo para conclusão do inquérito militar (IPM) que apura as responsabilidades pelo Massacre do 29 de abril.

Ao contrário de alguns, não vejo nisso uma manobra para varrer todo aquele horror para debaixo do capacho da porta do gabinete do comandante-geral da PM.

Prefiro enxergar que o comando da PM, zeloso, fará honrar as mais caras tradições da corporação e não deixará de apurar, com todo rigor, os tristes fatos ocorridos e fartamente documentados. Sei lá, talvez eu esteja como Candido, com exacerbado otimismo, recebendo as influências de Pangloss, na obra magna de Voltaire. O tempo dirá.

O fato é que se a PM não apurar os fatos, com absoluto esmero e precisão, livrando-se de amarras corporativas ou de pressões políticas, correrá o sério risco de ser desmoralizada, logo ali na frente, pelo Ministério Público Estadual, pela Procuradoria da República, pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República e pela Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal, que trabalham a passos largos para colocar luzes sobre o que ocorreu, a partir de documentos, testemunhais, vídeos e fotos.

O que a PM precisa, neste momento é apenas lembrar-se da primeira regra do bom procedimento apuratório: investigue os fatos e não se preocupe com as pessoas. Qualquer imputação de eventuais responsabilidades será mera consequência, apenas isso.

Conheço muitos policiais militares que estiveram no calor daqueles acontecimentos. Entre eles, os oficiais Kogut, Arildo, Cherade, Nerino e Hudson. Eles sabem que tem meu respeito e admiração.

Também sei, pela história e pelo caráter de cada um destes que citei, que eles não deixarão de – como se diz no jargão policial – “botar no papel” o que de fato ocorreu, detalhando os comandos e as condutas que moldaram aquele apavorante cenário, ainda hoje envolto em sombras e escuridão.

Se omitirem fatos, conhecimentos e informações, talvez não consigam mais levantar um olhar altaneiro para a tropa, seus comandados e suas famílias.

Pior que isso.

Se falsearem a verdade, poderão absorver uma carga histórica e espiritual que, talvez, não lhes pertença e que se arrastará por todo sempre. Nesta horas de provação, é redentora a Palavra do Senhor, que nos é transmitida no Livro Sagrado, por João, capítulo 8, versículo 32: “e conhecereis a verdade e ela vos libertará”.

***

Há alguns dias, o governador citou Churchill numa entrevista à TV VEJA.

Referia-se à comparação feita pelo líder britânico entre guerra e política, segundo o qual, a diferença é que na guerra só se morre uma vez.

Sir Winston Churchill, soldado, parlamentar, primeiro-ministro, pintor, dedicado marido, exímio orador e genial frasista ficou para a eternidade por sua liderança e otimismo, mas, também pela sensibilidade política e inesgotável capacidade para o diálogo.

Conta-nos o biógrafo Michael Shelden, que o então jovem Ministro do Interior, Winston Churchill, não permitiu que a polícia massacrasse os mineiros que protestavam na Galia do Sul, em 1910, mesmo contrariando o interesse dos poderosos locais e colocando em risco sua carreira política ainda em ascensão.

Há outra bela frase de Churchill, que revela, na sua humildade, sua grandeza. Em tradução livre: “coragem é o que é preciso para ficar de pé e falar; coragem é também o que é preciso para sentar e ouvir”.

Talvez seja esta coragem que tenha faltado ao governo para sentar e ouvir sobre o nefasto projeto da ParanáPrevidencia e, depois, sobre a reposição de 8,17%. Por outro lado, certamente foi a coragem que sobrou aos professores, servidores e cidadãos, numa praça que ficou manchada de sangue em 29 de abril, em cenas que nos chocam e nos envergonham, como paranaenses.

Winston Churchill mudou o eixo da história e o rumo da humanidade. Não fosse sua habilidade no trato com os líderes das nações aliadas, boa parte do mundo hoje estaria a respirar a podridão dos ares do regime nazi-fascista, soprados pela loucura do infame Adolf Hitler.

Para encerrar, falando em Hitler, esta figura desprezível do século passado, uma curiosidade histórica, notícia de folhetim, quase coluna social.

Num mesmo 29 de abril, só que em 1945, Adolf Hitler casou-se com Eva Braun.

Horas depois, como sabemos, foram varridos da história.

*Reinaldo Almeida César é delegado da Polícia Federal. Foi secretário da Segurança Pública do Paraná. Chefiou a Divisão de Cooperação Policial Internacional (Interpol). Escreve nas quartas-feiras sobre “Segurança e Cidadania”.

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