Coluna do Reinaldo Almeida César: Após massacre de professores, secretário tem que deixar a Segurança Pública para preservar governo Richa

Compartilhe agora!

francischini_massacre_reinaldo

Reinaldo Almeida César*

Não adianta, podem falar o que quiser, não vai colar.

Pode o governo se contorcer, pedir ajuda ao Cirque du Soleil, fazer cambalhotas.

Foi MASSACRE. TRAGÉDIA. VERGONHA. Ponto final.

Vamos parar com esses eufemismos, que mais parecem achados em loja de 1,99.

Não teve nada de confronto, manipulação da oposição, black blocs, policiais parados salvando a própria vida, cumprimento de ordem judicial.

Chega até mesmo dessa conversa mole de “uso desproporcional da força”.

Isso é termo técnico, insípido. Agride ainda mais quem já apanhou. O que houve foi “uso descomunal da força”, isso sim.

Durante mais de duas horas, houve centenas de disparos com munição de borracha e visada à meia altura, emprego de Pitbulls, bombas explodindo por todo canto e lançadas a esmo nas mais variadas direções, jatos d’água, helicóptero com voo rasante e despejando artefatos, professores caídos no chão dominados, apanhando. Mais de 200 feridos, muitos gravemente. Dizem estar vazio o paiol da PM. Querem mais?

Só não foi ainda pior, porque Nossa Senhora de la Salette estendeu seu manto de proteção para que não houvesse vítimas fatais.

Agora, quem quiser comprar a versão oficial, dada pela SESP quase uma semana após os fatos, fique à vontade. Sempre haverá notas de 3 dólares circulando.

Prefiro ficar com as informações isentas dadas pela Defensoria Pública e pela OAB que foram taxativas em afirmar o que todo mundo já suspeitava: nenhum, absolutamente nenhum dos detidos no dia do massacre foi identificado como black bloc.

Desculpem-me a presunção, mas eu já tinha certeza disso. Vou explicar o porquê.

A atual gestão da SESP é altamente midiática, toda pimpona, beira o histrionismo.

Este formato marqueteiro da SESP já estava caindo pelas tabelas, beirando o ridículo, pelas indignas apresentações de presos e por entrevistas televisivas com arma na cintura.

Ora, tivessem os policiais botado a mão em black blocs, alguém duvida que eles seriam execrados no mesmo dia, mostrados acorrentados como bichos à opinião pública e usados como antídoto para a enxurrada de críticas que se avistava?

E alguém tem dúvidas sobre quem estaria na linha de frente apresentando os black blocs algemados para os refletores e câmeras de TV?

Se foram identificados black blocs durante a manifestação, por que os policiais à paisana, infiltrados pela P2, não os prenderam imediatamente, como ocorreu em junho de 2013, na competente ação da PM, sob o comando técnico e sensato dos Coronéis Péricles e Fadel, nos protestos – aqueles sim – violentos e com sérios danos ao patrimônio público e privado, que chegaram a ter coquetéis Molotov nos portões do Palácio Iguaçu?

A verdade é que as destrambelhadas ações da SESP, na última semana, tornaram o Governador Beto Richa uma figura conhecida e popular no mundo todo, pelas repercussões do New York Times, BBC, El País, Fox News, CNN, Washington Post, Le Monde, Telesur, GloboNews, Clarin.

Não sei se a Al Jazeera deu alguma coisa. A conferir.

Isso sem contar a abertura do Jornal Nacional, o comentário de todos os âncoras, as manchetes de primeira página com fotos coloridas e os editoriais dos principais jornais e revistas semanais do País.

Até o videogame “RIXA, o jogo” já foi lançado com sucesso, no mercado. Nem vou mencionar o coro que se ouviu nos estádios de futebol e no Teatro Guaíra.

Tudo o que o governo apresentar para tentar justificar o massacre, prezados leitores, podem estar certos: será inspirado na fogueteira Rosemary e no goleiro Rojas.

É preciso que Ministério Público, OAB, Comissão de Direitos Humanos do Senado e da Câmara, Anistia Internacional, além de outras entidades investiguem a fundo o que ocorreu. O que dirá o Ministério Público do Paraná, em nome da sociedade, sobre o frontal descumprimento da Recomendação 1/15?

Difícil escrever algo diferente do que já foi dito por figuras referenciais do jornalismo como Ricardo Noblat (BETO RICHA: PERDEU, PLAYBOY), Luis Nassif (O INFAME BETO RICHA), Ricardo Boechat (NUM CONCURSO DE CÉREBROS TALVEZ O PITBULL VENÇA COMPARADO AO GOVERNADOR), Janio de Freitas (A FEROCIDADE CRIMINOSA DO GOVERNO PARANAENSE CONTRA OS PROFESSORES) e Boris Casoy (ESPERO QUE NENHUM PITBULL MORDA A ILUSTRE BUNDA DO GOVERNADOR DO PARANÁ).

O genial filósofo e professor Mario Sergio Cortella, que arrebata auditórios e multidões falando sobre educação, foi fulminante: “um governo estadual como o do Paraná que trata os seus professores com cassetete, balas e bombas, comete um atentado contra o futuro”.

Até o Secretário Nacional de Segurança Pública e o Secretário de Direitos Humanos no governo do PSDB, gestão do Presidente FHC, condenaram de forma veemente o que ocorreu.

Fica evidente que o planejamento e a execução foram um fiasco, mais parecendo vingança de pipoqueiro, a qualquer preço, pagando com sangue de inocentes a parvoíce do Camburão dos Deputados, em fevereiro.

Porque não mobilizaram o mesmo efetivo policial na prisão do foragido Marcio Lima, “parça” do Governador nas aventuras e curvas do autódromo de Londrina?

Convocaram até policiais com viaturas do Batalhão de Fronteiras, lá de Marechal Cândido Rondon, a 600 km de Curitiba, desguarnecendo a nossa fronteira, só para agredir professores, servidores e cidadãos de bem. Será que ninguém alertou o Governador sobre o risco de improbidade administrativa? Ninguém lembrou que os recursos federais empregados na criação daquele Batalhão tem destinação específica, não podem ser usados em maluquices e estripulias?

Deixar galerias vazias na ALEP, atacar o acampamento dos professores na madrugada gélida de Curitiba e surrupiar a chave na ignição para que o caminhão de som dos manifestantes não avançasse mais alguns poucos metros na Praça La Salete soaram como bofetes de mão aberta na cara dos professores e foram a gota num pote até aqui de mágoas, descasos e desfeitas com os mestres do Paraná.

Pelo desespero na aprovação do projeto que confisca recursos da ParanáPrevidência, a impressão que se tem é que este governo faz qualquer coisa por dinheiro, por recursos.

Quem conhece a rígida hierarquia da PM, sabe que praças e soldados não fazem nada sozinhos.

São adestrados (o termo é esse mesmo) desde os primeiros passos no Guatupê para obedecer comandos e ordens. Se caírem nas mãos de maus comandantes, serão humilhados e subjugados ao longo da carreira, para ser mais exato.

Pior que isso, em alguns momentos, poderão ver a corda arrebentar do lado mais fraco e serão jogados sem piedade ao mar, pela falta de dignidade de quem lhes dirige, lá em cima, apenas para se agarrar, na mentira e sem escrúpulos, de forma covarde ao cargo.

Nunca vi, nos mais de 30 anos que acompanho a vida política do Paraná, alguém por interesses mesquinhos e inconfessáveis, jogar lama na centenária e gloriosa PM, abandonando à própria sorte seus oficiais e praças, apenas para se agarrar numa função que será passageira, talvez fugaz.

Ainda que permaneça, pergunto: a que custo? Com que liderança e autoridade moral sobre a tropa?

Ouvi o Quarto Secretário dizer que “nada justifica o que ocorreu”. Devo então entender que, à luz do Direito Penal, não existindo causas justificadoras, não se afastou a ilicitude, logo os crimes comuns e militares foram materializados, ocorreram ? Resta só definir as autorias?

Fossem realmente leais ao Governador, os titulares da cúpula da Segurança entregariam seus cargos com desprendimento, pedindo para sair de forma digna, como fez Pedro Franco de Campos, quando tirou das costas do seu amigo e Governador Fleury Filho o peso do Massacre do Carandiru, permitindo a Fleury seguir na carreira política. Erasmo Garanhão, sempre fiel e leal à família Richa, fez o mesmo, poupando o velho José.

É preciso olhar para cima, identificar a cadeia de comando, para entender o que aconteceu no dia 29 de abril.

Como brasileiro do Paraná, espero que o Governador e o seu Quarto Secretário de Segurança compareçam, juntos e misturados, à audiência pública da Comissão de Direitos Humanos no Senado Federal e a outros fóruns, para revelar ao Brasil e ao mundo, a verdade ainda encoberta.

*Reinaldo Almeida César é delegado da Polícia Federal. Foi secretário da Segurança Pública do Paraná. Chefiou a Divisão de Cooperação Policial Internacional (Interpol). Escreve nas quartas-feiras sobre “Segurança e Cidadania”.

Compartilhe agora!

Comments are closed.