Artigo especial de Ester Maria Dreher Heuser: “Sim, nós podemos!”

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Ester Maria Dreher Heuser, doutora em Educação, professora do curso de Filosofia da Unioeste, em artigo especial para o Blog do Esmael, analisa o fetiche do poder e o uso da repressão policial em nome dele; “quando se apela à violência, a relação é de uma força com uma coisa. Professores não são coisas”, reprova a  articulista, ao referir-se ao massacre de 29 de abril autorizado pelo governador Beto Richa; ela ainda ensina: “...ninguém tem, nem detém o poder, pois ele não é uma propriedade”; leia a íntegra do texto.
Ester Maria Dreher Heuser, doutora em Educação, professora do curso de Filosofia da Unioeste, em artigo especial para o Blog do Esmael, analisa o fetiche do poder e o uso da repressão policial em nome dele; “quando se apela à violência, a relação é de uma força com uma coisa. Professores não são coisas”, reprova a articulista, ao referir-se ao massacre de 29 de abril autorizado pelo governador Beto Richa; ela ainda ensina: “…ninguém tem, nem detém o poder, pois ele não é uma propriedade”; leia a íntegra do texto.
Sim, nós podemos!

Três lições que os professores deram aos governantes e a si mesmos sobre o poder

Ester Maria Dreher Heuser*

É senso comum pensar que quem tem o poder são os políticos e os ricos. Daí ser usual ouvir que “lei vale para o povo, políticos e ricos sempre se livram dela”. No Paraná, até início de fevereiro de 2015, essa era a convicção da maior parte da população, de ricos a pobres, de governantes a governados. A partir do mês do carnaval, contudo, a crença foi abalada: passamos a ver na “telinha”, ricos empreiteiros saindo da cadeia para suas casas, mas com tornozeleiras de controle; deputados em camburão para dentro da Casa do Povo, com medo do povo, para votar contra o povo; um governador, eleito em primeiro turno, governando em lugar quase secreto, ironicamente, chamado “chapéu pensador”.

O que pensavam, naquela altura de 2015, os ricos “entornozelados”, os deputados “encamburizados” e o governador “enchapelado”? Tudo se tratava de um passageiro pesadelo, o poder ainda era deles. O que pensava o povo que assistia aquela anomalia pela “telinha”? As coisas estavam saindo dos eixos, algo estava fora de lugar.

Uma parcela do povo, que já não mais ocupava o seu lugar de costume, mas as ruas da capital,sentia que as coisas poderiam ser diferentes e pensava que páginas de livros “do tempo da faculdade” poderiam fazer sentido. Cada um dessa parcela, a partir da sua singularidade, apesar dos apelos das lideranças encima do trio elétrico, decidiu contrariar o senso comum. Rompeu a corrente humana de homens fardados e tomou lugar na Casa do Povo, conseguindo pôr fim na autoritária Comissão Geral, exclusiva da ALEP (Assembleia Legislativa do Paraná). Desse momento em diante, aquilo que parecia ser só um jogo de marketing do Tio Sam começou a funcionar como uma verdade em forma de refrão: SIM, NÓS PODEMOS! Essa foi a primeira lição do ano que a parcela do povo que leciona todos os dias deu aqueles que, até então, acreditavam ter o poder. Mas também ensinou a si mesma que ela também podia.

Passadas as águas de março, após amostras poderosas daqueles que acreditavam ter o poder, o refrão voltou a soar nas mentes daquela parcela. Surpreendentemente, cada um, por sua própria singularidade, passou a acreditar, ainda mais, no slogan que deixara de ser apenas uma jogada de marketing: SIM, NÓS PODEMOS! E, por sua própria conta e risco, outra vez, saiu de seu lugar de costume para ocupar as ruas da capital. Porém, os homens de farda não eram os mesmos, a corrente que separava aquela parcela da Casa do Povo não era mais feita só de homens, tinha como suplemento cães, metais, gases e borracha.

Aqueles convictos de terem o poder, porque péssimos aprendizes, estavam decididos a fazer valer o que, em tese, lhes era de direito e de sua propriedade, mesmo que fosse preciso empregar a violência, amparados pela famigerada “justiça”. E, inacreditavelmente, o fizeram. Ocorre, no entanto, que a violência incidiu sobre o corpo, a sede das forças de cada uma daquelas singularidades que ocupava a praça com nome de santa.  Eram “coisas” que apanhavam, os “objetos” que atravancavam o caminho dos “poderosos” é que sofreram o massacre. Entre tantos feridos, todos estavam vivos e, apesar das dores, traumas e lágrimas, sem saber, suas forças estavam mais fortes.

A parcela do povo que leciona todos os dias deu uma segunda lição: quando se apela à violência, a relação é de uma força com uma coisa. Professores não são coisas. A violência não atua sobre uma ação, ela se exerce unicamente sobre o suporte da ação, sobre os corpos dos sujeitos da ação. As forças daquela parcela do povo estavam mais fortes, pois se combinavam com forças advindas de todos os lados da Terra. Desde a madrugada mal dormida, o refrão virou grito de guerra que passou a ecoar em todos os lados do Paraná: “Assim é que se vê, a força da APP!”.

Na véspera do dia dos trabalhadores, os péssimos aprendizes, ainda convictos de serem “proprietários do poder”, começaram, bem cedo, mesmo que não quisessem, a ter a terceira lição a qual, sem paradoxos, também era aprendida por aqueles que a lecionavam: ninguém tem, nem detém o poder, pois ele não é uma propriedade; o poder se exerce, é difuso e circula entre dominantes e dominados; o poder é efeito de forças múltiplas que se relacionam e não podem ser ignoradas – forças múltiplas que incitam umas às outras a criarem estratégias e exercerem o poder. Ainda que detestassem a lição, governantes assistiam as supostas sólidas estruturas de poder ruírem: “homens fortes” caíram, a imagem de “bom moço” de Richa se desfez, como um rosto de areia na orla do mar, ao mesmo tempo em que deputados ficaram com medo do povo.

Bons aprendizes que são, professores de São Paulo, Goiás, Pará, Santa Catarina, Rio de Janeiro e, quiçá, do restante do país, tomaram para si as três lições e vêm afirmando e potencializando suas forças, entoando o refrão: SIM, NÓS PODEMOS! Os governantes, por sua vez, como péssimos aprendizes, parecem não poder mais nada, a não ser a nos forçar a adentrar junho sem poder dar lições para aqueles que realmente nos interessam.

*Ester Maria Dreher Heuser é doutora em Educação, professora do Curso de Filosofia da UNIOESTE/Toledo (Graduação e Pós-graduação), filiada à ADUNIOESTE/ANDES.

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