Coluna do Reinaldo Almeida César: Professor não é black bloc nem vândalo; e a praça é do povo

reinaldo_colunaReinaldo Almeida César*

A praça é do povo, como o céu é do Condor, dizia o libertário e condoreiro Castro Alves.

Aqui em Curitiba também era.

Testemunhei e ouvi líderes como Leonel Brizola, João Amazonas, Ulisses Guimarães e Luis Carlos Prestes ecoarem suas convicções, livremente, nas imediações da Praça Osório, na Boca Maldita.

Recordo-me até do General João Baptista Figueiredo, o que dizia preferir o cheiro de cavalo ao do povo, mesmo sem qualquer cacoete para orador, soltar sua voz na Praça Rui Barbosa, em campanha política nos idos de novembro de 1982.

Guardo com emoção, até hoje, as imagens do comício de encerramento da campanha de José Richa ao governo, naquele mesmo ano de 1982, agora na Praça Santos Andrade.

Aos 17 anos recém completados, eu estava ali, na primeira fila, logo abaixo do palanque, com camiseta de campanha, na militância do “Comitê do Primeiro Voto”, dividindo os sonhos daqueles verdíssimos anos com o Paulo Salamuni, o Friedman Wendpap, os irmãos Ackel, entre outros. Chorei feito criança quando o comício terminou.

As luzes vanguardistas de Curitiba iluminaram o caminho na campanha das Diretas-Já, a partir da Praça Osório.

As Praças por aqui, como na profecia de Castro Alves, eram do povo.

Agora não.

Do dia para a noite, noite escura e de trevas, a Praça passou a ser daqueles que parecem não ter apreço pela democracia e pela liberdade.

Adonaram-se da Praça sem nenhum pudor, sem os freios inibitórios que orientam o juízo.

O Palácio Iguaçu diz que apenas cumpre ordens do Tribunal de Justiça.

A Assembleia diz que pediu medidas judiciais ao Tribunal de Justiça para proteger o patrimônio público.

O Tribunal de Justiça exara duas decisões: uma que manda impedir a entrada de manifestantes, outra que autoriza a entrada na ALEP.

Tudo jogo de cena.

Para completar a pantomima, só falta o TJ dizer que passou a bola para o Tribunal de Contas e aguarda manifestação. Aí então, esbaforidos, teríamos corrido toda a extensão da praça La Salete.

Vi e ouvi, na televisão, o presidente da ALEP falar sobre vândalos e o secretário da Casa Civil mencionar black blocs.

Passei os olhos com esmerada atenção em imagens, vídeos e fotos, que circularam em redes sociais, blogs e na mídia em geral.

Não identifiquei nem vândalos, muito menos black bloc nas legítimas manifestações.

Ontem, no noticiário da hora do almoço, fiquei sem palavras quando minha filhotinha, nos seus tenros 6 anos, me perguntou porque a polícia estava agredindo professoras que choravam.

Em silêncio obsequioso, lembrei-me da minha querida mãe, professora aposentada da rede estadual e do quanto eu devo ao ensino público, onde estudei e me graduei em Direito.

Mas, alto lá! Não aceito que ninguém aponte um dedo que seja à PM e aos policiais.

São uma classe igualmente sofrida, os praças em especial.

São servidores públicos, fardados, militares. Mas, ainda assim, servidores do Estado, dos quais sempre se espera ações em defesa de uma sociedade livre e democrática.

Vivem o tempo todo no limite da tensão. Auxiliam partos dentro de viaturas. Acolhem aflições. Possuem filhos em escola pública. São parentes de professores.

Esperam há anos pela prometida e nunca implementada equiparação com os investigadores da Polícia Civil.

Vieram para Curitiba sem diárias, empilhados em ônibus, sem nenhuma condição de trabalho.

Tudo no improviso, foram despejados de hotel por falta de crédito no cartão corporativo.

Curitiba, tão carente de segurança pública, nunca viu um contingente de policiais daquele tamanho.

Soube que até os policiais do Batalhão de Fronteira, lá do outro lado do Estado, estão de prontidão.

E que, aqui em Curitiba, os policiais da Banda de Música da PM igualmente receberam aviso que podem ser convocados para se apresentar em frente à ALEP, a qualquer momento.

Talvez seja para executar “Pompa e Circunstância”, de Elgar ou a “Cavalgada das Walkírias”, de Wagner, como consagração final, no epílogo deste controverso, para não dizer perverso, processo legislativo.

Não olhem para os policiais militares, visivelmente constrangidos naquele confronto.

Eles seguem ordens e comandos. Olhem para cima.

Sigo com uma indagação aguda. Por que? Para que? Qual o desespero em votar este projeto de lei que avança com mão grande no fundo previdenciário?

A frase lapidar da semana é do combativo Deputado Nereu Moura: se o projeto fosse bom, não precisava da polícia.

Triste mesmo foi ver as cenas da tropa de choque, jato d’água, veículo de intervenção, bombas de efeito moral e spray de pimenta, lançados contra professores, servidores e cidadãos de bem, que queriam apenas postar um carro de som ao ar livre, numa praça pública, para, como convém numa democracia, expressarem suas opiniões.

O episódio manchou o Paraná e lançou uma névoa de vergonha que dificilmente se dissipará.

Tudo na presença das santas imagens de La Salete e dos seus Maximin e Mélanie, numa praça linda, pensada pelo genial Alfred Agashe e construída pelo dinamismo de Bento Munhoz da Rocha Neto que, no pasarán!, continuará sendo sempre do povo.

*Reinaldo Almeida César é delegado da Polícia Federal. Foi secretário da Segurança Pública do Paraná. Chefiou a Divisão de Cooperação Policial Internacional (Interpol). Escreve nas quartas-feiras sobre “Segurança e Cidadania”.

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