Manfredini vê similaridade entre 15 de março e o “Cansei” de 2007. Com uma diferença: agora tem panelas!

manfredini_15marco.jpgO jornalista e escritor curitibano Luiz Manfredini, do PCdoB, em artigo especial para o Blog do Esmael, faz um paralelo das tentativas anteriores de mobilização da direita e o último protesto em 15 de março. Ele vê similaridade entre o movimento “Casei”, de 2007, e a marcha que pediu impeachment de Dilma no domingo em todo o país. Mas adverte: “É preciso levar a sério a trama da direita contra a democracia”. Abaixo, leia a íntegra do artigo.

Levar a sério a trama da direita

Luiz Manfredini*

As manifestações do último domingo, 15, reunindo centenas de milhares de pessoas em várias cidades do país, mas com maior impacto em São Paulo, não devem ser subestimadas. Convocadas por forças de direita e extrema-direita, partidos neoliberais, pelo conservadorismo mais retrógrado e sua área de influência, foram amplamente beneficiadas com um polpudo (e secreto) financiamento empresarial e com a adesão militante da grande mídia privada. Sem ilusões: o movimento expressou um acirramento da luta de classes em nosso país, em que a direita, pela primeira vez desde 1964, colocou massas expressivas na rua e parece disposta ao confronto.

Como afirma André Singer, em seu artigo “Tensão Democrática”, é possível que, a partir dessa grande articulação conservadora, com forte viés golpista (a marca registrada da direita tupiniquim), “a democracia brasileira, restabelecida nos anos 1980, passe a viver um inédito teste de estresse”. Singer prevê uma polarização no processo político brasileiro, em que “a uma manifestação seguirá, cedo ou tarde, uma contramanifestação, e assim por diante”. E mais: estima que o processo de luta seja longo.

Tentativas anteriores da direita, de articular-se num movimento de massas fracassaram. Em 2005, quando do (impropriamente) chamado mensalão, a ideia de impedir o então presidente Lula morreu na praia. Dois anos depois, o “Cansei”, patrocinado por “socialites”, esvaziou-se em algumas semanas. O movimento de junho de 2013, também se diluiu em pouco tempo. Agora, ao contrário, a direita colocou milhares nas ruas e promete mais.

É verdade que a geografia humana das manifestações de domingo, 15, apontou a presença maciça de uma elite rica, indignada com as políticas públicas do governo, que julga ameaças aos seus históricos privilégios. É verdade que ali também estavam – talvez fossem a maioria – adultos e jovens de classe média, cujo clamor contra a corrupção (do PT e do governo, é claro, não dos partidos da oposição) não esconde o ódio que nutrem contra Lula, Dilma, PT e a esquerda. E, de quebra, havia trabalhadores desavisados e iludidos com a cantilena repetida à exaustão (com deliberado e amplo apoio da mídia) por uma classe média descontrolada que produz opinião na sociedade.

O jornalista Paulo Moreira Leite, em seu blogue, adverte: “Não vamos nos iludir. Os protestos de hoje querem revogar as melhorias feitas na vida do povo. Expressam o inconformismo de quem não suporta assistir ao progresso dos que sempre estiveram em baixo. Seu horizonte é a escuridão e seu destino final será fornecer enredos e personagens para as anedotas e comédias do futuro”.

A envergadura das manifestações de 15 de março não permite, portanto, subestimações. Xingamentos, menosprezo, piadas podem até desopilar o fígado dos seus autores, mas a rigor não resolvem nada. Às forças democráticas e progressistas cabe lutar politicamente contra essas exacerbações obscurantistas com firmeza e habilidade, exercendo sabedoria tática sem perder o rumo estratégico.

No artigo “À luta, Dilma!”, veiculado duas semanas atrás, clamei por uma reação do governo e da própria presidente, sobretudo dela, até então mergulhada em silêncio, sem dizer à nação uma palavra sequer em defesa de sua administração e do projeto político que a sustenta. Era um clamor mais ou menos generalizado entre seus apoiadores. A situação, nesse aspecto, melhorou. A presidente começou a falar. Sua entrevista na segunda-feira, 16, foi bastante positiva. Mas ela precisa avançar mais e fazer uso de todos os instrumentos e procedimentos de comunicação ao seu dispor. Reativar o “Café com a presidente”, intensificar entrevistas coletivas, dar atenção especial à imprensa interiorana (menos suscetível ao massacre da grande mídia oligopolizada), receber lideranças políticas e sociais (não confiando apenas nas articulações palacianas e parlamentares), provocar eventos que lhe possibilitem falar à nação, porém falar não apenas tecnicamente, sobre o evento em si, mas politicamente, aproveitando a oportunidade para vincar posições que defendam o governo e seu projeto. Oportunidades para, com a habilidade necessária, desmascarar os conservadores e suas conspiratas, mostrar, por exemplo, como se maquina às ocultas contra a Petrobrás, aqui e fora (como ela já disse na campanha) e como a direita usa o velho argumento da corrupção para encobrir seus reais objetivos. A presidente, enfim, precisa fazer política, dividindo essa tarefa com ministros, parlamentares, dirigentes dos partidos mais consequentes da base aliada.

O governo, no entanto, também precisa avançar em medidas, sobretudo as ligadas ao combate à corrupção, tema predominante nas manifestações de 15 de março. A presidente anunciará um pacote anticorrupção a ser enviado ao congresso, mas frisou que um passo decisivo para enfrentar os malfeitos será a reforma política, dentro da qual se destaca a proibição do financiamento empresarial das campanhas eleitorais. Obviamente, em outras áreas governamentais será necessário desovar projetos de apelo e de interesse popular e coloca-los em ação o mais breve possível. Se a presidente admitiu, na entrevista de segunda-feira, ter pisado demais no acelerador do ajuste fiscal, é preciso saber qual decorrência prática terá essa constatação.

De todo modo, a presidente Dilma, nesse momento crítico do cenário político nacional, merece acima de tudo apoio das forças democráticas e progressistas. A despeito das críticas (justas) que lhe endereçamos, ela corporifica hoje a manutenção de um projeto democrático e popular que procura navegar em meio às crises (por vezes fazendo dolorosas – mas necessárias – concessões) e, sobretudo, sob o ataque truculento de uma direita pérfida e ardilosa.

*Luiz Manfredini é jornalista e escritor paranaense, autor, entre outros livros, dos romances As moças de Minas, Memória de Neblina e Retrato no Entardecer de Agosto.

9 Comentários

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  1. Gente, a culpa disso tudo é da CIA. rsrsrsrsrs
    A situação é bem simples, quem está apoiando e defendendo os desmandos do Richa, e quem está apoiando e defendendo os desmandos e a roubalheira no governo federal, é porque está ganhando algo também, ou porque tem o rabo preso. Quem defende político corrupto é pior que este, pois se esconde atrás de um computador, por vezes usando nomes falsos, para escrever textos e mais textos em defesa do ladrão. E chega dessa história de que o meu ladrão é melhor que o seu ladrão, já encheu o saco isso.

    • que é culpa da cia é fato(não faz tempo que descobriram espionagens americanas no BR).. que a imprensa quer apagar a memória do HSBC com as manifestações tbm é fato.. até as maritacas do parque do iguaçu sabem disso..mas que valor pode ter uma massa manipulada?? uma massa que sequer estava ancorada pela sociedade organizada? dizer que organização via FACE é organização é tbm uma piada. pior de tudo.. nossa constituição valida isso como sendo democrático… DESDE A GRÉCIA QUE A DEMOCRACIA É DEBATE E NÃO ENFRENTAMENTO.. palavras de ordem dizem pouco e inflamam as emoções ao invés da razão.. pobre de nós.. juízes são deuses, generais se consideram políticos e políticos fazem de sua ocupação um ofício.. sem educação nada funciona..nem as canetas do ITA…kkkkkkkkk

  2. Caro Profº Manfredini: Elogiável sua preocupação com a situação da Presidente Dilma, sua repulsa pelo que chama de mídia golpista, e seu respeito pelos atos de 15 de março, quando reduziu 2 milhões de brasileiros à elite branca e de direita. É seu direito! mas devo lembrar que a presidente Dilma está em claro processo de desgaste político motivado especialmente pelo abismo econômico que seu governo, atual e anterior, está levando toda a nação. Se hoje o Sr. julga que apenas os abastados estão contra a presidente Dilma, explique daqui a dois meses a um pai de família que ele perdeu o emprego por que ela pediu sua cota de sacrifício. Não seja cego, Professor! O evento que mudou todo uma forma de sistema (Comunismo) foi deflagrado com o fracasso econômica da URSS e países satélites, culminando na Queda do Muro de Berlim. e vá perguntar a um alemão de Dresden se ele tem saudades do regime comunista. A esquerda política é pródiga em colocar a culpa de seus fracassos nos outros,ou ainda minimizar o óbvio.

  3. Eu concordo com o texto, pois o movimento contra o PT tenta colocar que a corrupção é exclusiva de um partido, sendo que a corrupção é sistêmica no Brasil. O Brasil tem que exigir a reforma política urgente para aperfeiçoar a democracia, diferente da situação do Impeachment comandada pela direita que dará a falsa impressão de democracia, assume outro partido qualquer que provavelmente será mais corrupto e se distribuir $ para muitos aliados nem investigado será, como já foi no passado.

  4. Olá Esmael e Manfredini. Por favor Manfra, você está desmotivando mais ainda a Esquerda com esse teu discurso de que as concessões são necessárias. É algo contraditório. Como convocar a massa trabalhadora às ruas, lutar a favor da Dilma, sendo que a mesma faz projetos e tem atitudes contrárias a essa classe?
    Aonde está a coerência do teu discurso meu caro Manfra? Não jogue a sua história militante por causa de um partido que está deixando de apoiar a classe trabalhadora em função dessas suas concessões, que fazem o trabalhador (no jargão popular) se ferrar ainda mais. Reveja seus pensamentos e do seu partido também, que chega a ser mais Dilmista e petista que o próprio PT (isso é estranho também). Mas vamos às ruas, convoque a militância do seu partido para ir às ruas defender não às concessões e tão simplesmente o apoio à Dilma. Mas sim as reformas estruturais que são urgentemente necessárias ao país. Não nos traia. Por favor!

    • Fique tranquilo, Márcio. Não traí nos últimos 50 anos de militância, não trairei agora. Nunca recomendei que não se vá às ruas. Aliás, são elas os ingredientes decisivos dessa crise. Só não fui simplista, penso que, numa situação política complexa, há de se ter uma tática igualmente complexa, não maniqueísta, mas sempre firme, de luta. Abraço.

  5. A verdade é uma só o governo estadual tanto Richa, quanto Dilma estão muito mal, eu protesto contra ambos, não defendo partido nenhum, afinal nenhum deles me representa. O fato é q a questão da Dilma tá mais avançada, pois, além de estar perdida na economia (assim como Richa) ainda está atolada em corrupção. Aí vem um cidadão e escreve um artigo tentando misturar e confundir as coisas. Chega dessa história de Golpismo, de coração valente, de perseguidos, os brasileiros estão cada vez mais ligados nos acontecimentos e demostraram que não vão tolerar mais essas lorotas e muito menos a incompetência e corrupção do governo, seja ele qual for!

  6. Esmael
    Não é questão de direita ou esquerda, se você acha que o Governo está bom deixa assim pra ver aonde vamos parar.

    • A mesma coisa eu menciono para você no governo estadual. A mania do paranaense conservador, colocaram esta nhaca no poder e acham que está tudo bem,para eles o único problema é o governo federal.Vamos ser decente, o Paraná esta quebrado, e os eleitores do PSDB querendo dar um golpe no governo federal.