Por Esmael Morais

Manfredini vê similaridade entre 15 de março e o “Cansei” de 2007. Com uma diferença: agora tem panelas!

Publicado em 18/03/2015

É verdade que a geografia humana das manifestações de domingo, 15, apontou a presença maciça de uma elite rica, indignada com as políticas públicas do governo, que julga ameaças aos seus históricos privilégios. É verdade que ali também estavam – talvez fossem a maioria – adultos e jovens de classe média, cujo clamor contra a corrupção (do PT e do governo, é claro, não dos partidos da oposição) não esconde o ódio que nutrem contra Lula, Dilma, PT e a esquerda. E, de quebra, havia trabalhadores desavisados e iludidos com a cantilena repetida à exaustão (com deliberado e amplo apoio da mídia) por uma classe média descontrolada que produz opinião na sociedade.

O jornalista Paulo Moreira Leite, em seu blogue, adverte: “Não vamos nos iludir. Os protestos de hoje querem revogar as melhorias feitas na vida do povo. Expressam o inconformismo de quem não suporta assistir ao progresso dos que sempre estiveram em baixo. Seu horizonte é a escuridão e seu destino final será fornecer enredos e personagens para as anedotas e comédias do futuro”.

A envergadura das manifestações de 15 de março não permite, portanto, subestimações. Xingamentos, menosprezo, piadas podem até desopilar o fígado dos seus autores, mas a rigor não resolvem nada. Às forças democráticas e progressistas cabe lutar politicamente contra essas exacerbações obscurantistas com firmeza e habilidade, exercendo sabedoria tática sem perder o rumo estratégico.

No artigo “À luta, Dilma!”, veiculado duas semanas atrás, clamei por uma reação do governo e da própria presidente, sobretudo dela, até então mergulhada em silêncio, sem dizer à nação uma palavra sequer em defesa de sua administração e do projeto político que a sustenta. Era um clamor mais ou menos generalizado entre seus apoiadores. A situação, nesse aspecto, melhorou. A presidente começou a falar. Sua entrevista na segunda-feira, 16, foi bastante positiva. Mas ela precisa avançar mais e fazer uso de todos os instrumentos e procedimentos de comunicação ao seu dispor. Reativar o “Café com a presidente”, intensificar entrevistas coletivas, dar atenção especial à imprensa interiorana (menos suscetível ao massacre da grande mídia oligopolizada), receber lideranças políticas e sociais (não confiando apenas nas articulações palacianas e parlamentares), provocar eventos que lhe possibilitem falar à nação, porém falar não apenas tecnicamente, sobre o evento em si, mas politicamente, aproveitando a oportunidade para vincar posições que defendam o governo e seu projeto. Oportunidades para, com a habilidade necessária, desmascarar os conservadores e suas conspiratas, mostrar, por exemplo, como se maquina às ocultas contra a Petrobrás, aqui e fora (como ela já disse na campanha) e como a direita usa o velho argumento da corrupção para encobrir seus reais objetivos. A presidente, enfim, precisa fazer política, dividindo essa tarefa com ministros, parlamentares, dirigentes dos partidos mais consequentes da base aliada.

O governo, no entanto, também precisa avançar em medidas, sobretudo as ligadas ao combate à corrupção, tema predominante nas manifestações de 15 de março. A presidente anunciará um pacote anticorrupção a ser enviado ao congresso, mas frisou que um passo decisivo para enfrentar os malfeitos será a reforma política, dentro da qual se destaca a proibição do financiamento empresarial das campanhas eleitorais. Obviamente, em outras áreas governamentais será necessário desovar projetos de apelo e de interesse popular e coloca-los em ação o mais breve possível. Se a presidente admitiu, na entrevista de segunda-feira, ter pisado demais no acelerador do ajuste fiscal, é preciso saber qual decorrência prática terá essa constatação.

De todo modo, a presidente Dilma, nesse momento crítico do cenário político nacional, merece acima de tudo apoio das forças democráticas e progressistas. A despeito das críticas (justas) que lhe endereçamos, ela corporifica hoje a manutenção de um projeto democrático e popular que procura navegar em meio às crises (por vezes fazendo dolorosas – mas necessárias – concessões) e, sobretudo, sob o ataque truculento de uma direita pérfida e ardilosa.

*Luiz Manfredini é jornalista e escritor paranaense, autor, entre outros livros, dos romances As moças de Minas, Memória de Neblina e Retrato no Entardecer de Agosto.