Luiz Manfredini: “À luta, Dilma!”

O jornalista e escritor Luiz Manfredini, militante histórico do PCdoB, avalia a situação de defensiva em que se encontra a presidenta Dilma Rousseff neste segundo mandato.

O jornalista e escritor Luiz Manfredini, militante histórico do PCdoB, avalia neste artigo a situação de defensiva em que se encontra a presidenta Dilma Rousseff (PT), quais os motivos que a levaram a esta situação e quais atitudes a presidenta precisa tomar para retomar a iniciativa em seu segundo mandato. Leia a seguir.

Luiz Manfredini*

Em 1991, o colapso da URSS produziu dramática repercussão em Cuba, que há 30 anos já sofria a perversidade do bloqueio dos EUA. O impacto foi tão grande que logo o PIB cubano acabou reduzido em mais de 35%. Por falta de combustível, boa parte dos transportes voltou à  tração animal e o duro racionamento de alimentos obrigou o governo a distribuir pílulas de vitaminas e sais minerais para o povo subsistir. Diante de tão severas circunstâncias, Fidel Castro foi à s ruas explicar aos cubanos os desafios que viriam pela frente e conclamá-lo à  resistência.

No segundo semestre de 2005, a partir da CPMI que investigava o (impropriamente) chamado mensalão, a bandeira do impeachment do então presidente Lula ganhava corpo no parlamento e em setores da sociedade influenciados pelos bombardeios das elites e pela gritaria da classe média, todos amplamente reverberados pela mídia. Em dezembro daquele ano, o índice de ruim e péssimo de Lula atingia seu nível mais alto: 29%. Foi então que o presidente declarou publicamente que não teria o fim que tiveram dois ex-presidentes !“ Getúlio, suicidando-se, e Jango, deixando o país.!  Lutaria. Nós vamos para as ruas para defender o mandato que o povo nos deu!, garantiu. E foi. E ao povo, nas diversas ocasiões em que teve oportunidade, explicou os acontecimentos, pediu apoio para seu governo e o projeto de ampla significação social que defendia. Em poucos meses, as pesquisas mostravam uma excepcional recuperação.

O silêncio

Penso nessas duas circunstâncias que, embora distantes no tempo, mantém expressiva similaridade política, quando me detenho no atual cenário brasileiro. Após as eleições de outubro último a direita, certa de que as venceria, desencadeou um movimento – que só faz crescer – de cerco e aniquilamento da presidente eleita. Tanto na erosão da maioria que, teoricamente, o governo ainda mantém no parlamento (impondo-lhe, no entanto, derrotas importantes, como a eleição de Eduardo Cunha para a Presidência da Câmara dos Deputados), quanto no superdimensionamento das dificuldades econômicas (no que conta com o inestimável apoio da mídia), assim como na manipulação oportunista da operação Lava Jato, o conservadorismo procura criar na opinião pública a impressão de um país caótico, mergulhado na corrupção, politicamente apodrecido e com sua economia em frangalhos.

Mas enquanto a direita move-se, competente e diligente para ampliar sua base social de apoio, procurando com isso criar as condições políticas para o impeachment de Dilma, a presidente manteve-se reclusa nos primeiros 45 dias segundo governo, sem dizer palavra à  Nação, salvo em breves entrevistas ao final de eventos, quando disparou discurso monótono e burocrático como se fosse a executiva de uma empresa.

Embora costumeiramente avessa à  conduta politica imposta pelo cargo, na primeira reunião ministerial, em fins de janeiro, a presidente chegou a exortar seus ministros a travarem a batalha da comunicação. Disse, e com ênfase: Nós devemos enfrentar o desconhecimento, a desinformação sempre e permanentemente. (…) Nós não podemos permitir que a falsa versão se crie e se alastre!. Mas a ela própria parece difícil mover-se nesse sentido. E, faça-se justiça, também seus ministros se mantém tímidos.

Após o Carnaval, a presidente parece ter iniciado uma (ainda tímida) reação. A edição do último domingo, 1o, da Folha de S. Paulo!, dá conta de que Dilma apareceu e falou mais em dez dias do que nos 50 anteriores deste segundo mandato!. Nesse período, segundo o jornal, ela duplicou o número de viagens a trabalho, concedeu ao menos quatro entrevistas (ato inédito até então em 2015) e aumentou o ritmo de discursos!. O movimento, no entanto, me parece ainda aquém do que o cenário de confrontação exige.

A conta pelo silêncio

A nova orientação econômica do segundo governo Dilma, segundo assinala o jornalista Paulo Moreira Leite, veio acompanhada de medidas que, mesmo sendo justificáveis do ponto de vista técnico, são economicamente desvantajosas para os assalariados, que mais uma vez sentiram-se chamados, compulsoriamente, a pagar uma conta de ajuste que caiu no seu orçamento, poupando os ricos e endinheirados de qualquer sacrifício!. Essa alteração de rumo não foi devidamente explicada ao povo. O governo precisava ter explicado o que estava fazendo, por que, para chegar aonde!, analisou o professor Wanderley Guilherme dos Santos. Para o senador peemedebista Roberto Requião, o povo merece pelo menos saber por que está se sacrificando!.

O maior problema do governo é que o silêncio de Dilma e dos seus auxiliares deixa sem argumentos os que se dispõem a! defendê-lo, escreveu o jornalista Ricardo Kotcho, ao comentar que governo e PT perde a batalha da comunicação!. Mauro Santayana também constata que a tão decantada militância do principal partido da base aliada prima pela ausência nas redes sociais e nos principais portais, como se de repente tivesse sido transportada para a época do telégrafo e da máquina a vapor!.

Tudo isso vem corroendo a imagem da presidente e de seu governo. De fato, nos primeiros 40 dias de governo, pesquisa do DataFolha apontou uma queda de 19 pontos na categoria de bom e ótimo do governo recém iniciado. Pior: mostrou que 54% dos entrevistados dizem que Dilma é falsa e metade deles que ela sabia da corrupção na Petrobrás.

Comunicação deficiente

A verdade é que a administração da presidente Dilma tem subestimado o desafio da comunicação e, portanto, a dimensão da luta de ideias que permeia o atual cenário político brasileiro. O cientista político Antonio Lassance garante que seu governo conseguiu a façanha de desmontar boa parte dos bons instrumentos próprios que haviam sido construídos no primeiro mandato do governo Lula!. Segundo Lassance, a grande maioria dos ministros não sabe o que é o governo, seus números, seus planos, suas metas, suas dificuldades!.

O informativo, Destaques!, apresentando as ações, números e argumentos em defesa do governo, deixou de circular em julho de 2013. O último programa de rádio Café com a Presidenta! foi ao ar em 30 de junho do ano passado. O cargo de porta-voz está vago há mais de um ano. Assim, como constata Lassance, a comunicação do governo foi quase reduzida a zero. Ele reclama !“ e com razão !“ de que o principal alvo de uma batalha da comunicação é o público. Desafia: E indaga: o governo vai para a rua? Se não for, não vai poder dizer que está travando a batalha da comunicação. Ministros e suas equipes vão por o pé na estrada, visitar capitais e cidades do interior, dar entrevistas aos veículos locais e blogueiros de cada cidade?!

Para o cientista político, a principal forma de comunicação que falta ao governo chama-se conversa com prefeitos, dirigentes sindicais, entidades estudantis, movimentos agrários e de luta pela moradia e ativistas das redes sociais!.

Entre jornalistas, cientistas políticos e blogueiros do campo progressista (alguns deles citados no presente artigo), dissemina-se uma justificável inquietação diante de um governo que ainda não arregaçou as mangas para defender-se !“ e ao seu projeto !“ das crescentes investidas de uma direita que estende pelo país seus tentáculos de agressividade e retrocesso.

Como analisa a jornalista Maria Inês Nassif, em artigo ao sítio Carta Maior, independentemente da sua vontade ou de sua intenção, [Dilma] tornou-se a grande protagonista de um momento da história em que ocorre uma radicalização visível e grave na sociedade. Quer ela queira, ou não, é a maior líder de um lado dessa disputa!. Para Nassif, ela tem que decidir se assume de fato a liderança do seu lado!.

Enquanto isso não ocorre, o ex-presidente Lula entra em campo. Em discurso no ato Defender a Petrobras é defender o Brasil!, no Rio de Janeiro, Lula aconselhou a presidenta Dilma Rousseff a não dar trela a polêmicas e ir à s ruas travar para batalha da opinião. E em suas últimas aparições, Lula tem repetido a necessidade do povo ir para as ruas defender o projeto popular que ele inaugurou em 2003. Mas se a presidente se mantiver tímida e distante, essas conclamações terão efeito bastante reduzido.

* Luiz Manfredini é jornalista e escritor paranaense, autor, entre outros livros, dos romances As moças de Minas, Memória de Neblina e Retrato no Entardecer de Agosto.

28 Comentários

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  1. Estamos em 2015 e esse povo do martelo e foice ainda nesse papo de Capitalistas x Proletários, nem o ignorante que ainda depende de lampiao para ter luz em seu barraco não cai mais nessa. Invés de ficar de blablabla e discurso barato cortem as dezenas de ministerios e milhares de cargos inuteis com salario de MARAJÁS criados pelo pt para acomodar apoio politico!!! Inves de apoiar a Dilma que tira direitos e faz arrocho no salario do pobre trabalhador porque não tiram os proprios direitos e salarios de MARAJAS? COMUNISTAS SAFADOS querem viver como Deuses no AREM como seu idolo fidel castro enquanto o povo sustenta luxo dessa corja com sangue!!

    PSDB, PT PMDB tudo farinha do mesmo saco, so pensam no proprio bolso!!

  2. Dia 15 de março todos às ruas. Vamos para o tudo ou nada, como o chefe da gangue convocou os seus miliantes, ao dizer que o ‘exército’ do Stédile sair para a briga. Se é o que você quer…

    • Vai estudar, imbecil tucano!

      • Jumento do nome feio, tenho duas casas excelentes, quatro carros (todos com no máximo 7 anos e totalmente pagos) , um bom emprego que lutei e fiz concurso, uma família maravilhosa.
        Cavalo manco, não sou tucano nem nada. Não torço para partido ou para político algum. Torço pelo bem de todos. Fui petista e filiado ao partido, porém vi o quanto são traidores dos trabalhadores – não negociou o Fator Previdenciário, não corrige a tabela do IR e o FGTS com taxas reais, entre outras coisas. O fato é que sou muito inteligente e vejo com pessimismo o que está por vir. Que bom. Assim, se tudo der certo, nos veremos livres desta corja de ignorantes como você e como aqueles que partiram para a agressão contra manifestantes dias atrás em São Paulo, quando o chefe da gangue incitou a violência.
        Meu sonho é ver os militares no poder, pois não há civil com moral para isso, assim como o Lula, a Dilma e outros terroristas petistas na cadeia.
        Já disse: acreditei, me filiei, votei, convenci outros e fui traído. Entendeu, imbecil ignorante ?

  3. É tudo verdade, é sério, li na Veja, vi no Jornal Nacional… fora PETRALHADA.

  4. Cara Ângela, concordo quando afirma que sempre houve corrupção, em todos os governos, porém a diferença é que o PT sistematizou e profissionalizou a mesma. Por isso estamos pagando uma conta tão alta!

    Ponderação perfeita Mad Max!

    • Verdade Claudinei, li isso aí na Veja desta semana, ou será da passada, ou quem sabe do mês ou do ano passado, ah, tanto faz, Aécio presidente e restauremos a moralidade.
      Fora Beto Richa!

      • Olá não entendo mesmo como assim fora Beto Richa e Aécio para presidente, vcs não sabem que os dois são da mesma laia o que esta ocorrendo no Paraná vai acontecer no Brasil inteiro, não sou ptista mas entre o PSDB e o PT prefiro o que ta já que sou da linha FORA BETO, o PSDB sempre a anos faz as mesma coisas leia um pouco mais sobre a história política do Paraná e do Brasil

  5. Colocação perfeita Allan, suas ponderações resumem exatamente oq vem ocorrendo no país.

    O autor do artigo ao tentar defender a “competente” presidente afirmaando que: “O maior problema do governo é que o silêncio de Dilma e dos seus auxiliares deixa sem argumentos os que se dispõem a defendê-lo… “governo e PT perde a batalha da comunicação”.

    Isso pode ser explicado pelo fato de que, contra fatos não há argumentos e seguramente Dilma gastou na campanha todo seu estoque de mentiras!

  6. Fora Beto Richa, Aécio Presidente.
    Vamos restaurar a moralidade.

  7. É preciso cuidar para que não se reproduza, como querem os vendilhões da pátria, um caldo cultural e social dramático e semelhante ao que foi produzido para depor João Goulart.

    • Olha votei na Dilma duas vezes e no Fernando Henrique, e no Presidente Lula, FHC no primeiro mandato foi ótimo já no segundo nem tanto apesar de ter feito um ou ter montado um cenário onde o Lula pode desfrutar, ele não dosou a mão do pacote econômico não diferenciou rico de pobre. E a meu ver a Dilma está fazendo o mesmo agora. Em sua entrevista eu ouvi ela dizer que no ano passado ela ouviu o ano inteiro que tinha que subir os preços dos combustíveis e agora que ela subiu estão criticando. Eu também ouvi isso varias vezes reportagens inteiras não com essas palavras, mas do tipo “que o governo não deveria interferir que lá fora o barriu estava mais caro e que isso era ato politico”, pois bem acho que voltar em PSDB não mais votar em Dilma pra mim ela esta fazendo tudo o que nós eleitores dela achávamos que o PSDB faria. Então penso que deveria surgir alguém novo, chega dos mesmo seja do psdb ou pt ou qualquer um mas tem que ter gente nova.
      Ou o pt ir para as ruas nos explicar melhor o que está acontecendo.

  8. Contra fatos não há meias verdades. Os juros bancários subiram, o desemprego aumentou, o cambio nos está muito desfavorável, aumentos nos valores de combustível, água, e energia elétrica, balança comercial deficitária. Dilma está certa em ficar quieta, pois jogar toda a culpa das mazelas de seu governo em FHC é nos chamar de completos idiotas.

    • O PT é muito para distribuir a riqueza produzida pelos outros. Distribuição no estilo: “um para mim, outo para mim e sempre zero para você”. O socialismo é muito bonito na teoria, mas me mostre uma nação que isso deu certo. Se acha que: Cuba, Venezuela, Bolívia, Coreia do Norte…, são bons de exemplos de países, mudem para lá. Não que eu defenda Capitalismo selvagem, mas devemos acreditar também na meritocracia e na capacidades das pessoas e não destruir uma nação com essa pseuda politica social usada como estelionato eleitoral. O poder deve ser alternado. Não podemos dualizar entre PT e PSDB.

  9. A Dilma tem que ir às ruas afirmar ao povo aquilo que todos já sabemos: que o Brasil ganhou muito nesses anos, e que não queremos mais voltar ao passado!

  10. Sempre houve corrupção, em todos os governos a diferença é que com o PT bem ou mal todos tem conhecimento o que deve ser feito é punir devolver até os centavos aos cofres públicos e sem dó cumpram as penas fechados para reflexão pois a maioria são senhores e não jovens.vergonhoso mas a gente um dia melhora está questão.

  11. Olha amigo esmael sou um grande critico do DESgoverno Beto Richa e não confio no PSDB…mais o DESgoverno Dilma e o PT é IMPOSSIVEL defender!!!

    Nos estamos totalmente a merce de governantes incompetentes tanto no ambito estadual quanto no ambito federal…

  12. Por certo, o autor do artigo diz algumas verdades, outras, não aborda por esquecimento ou convicção. O descrédito da inventada Dilma, por Lula, como a ponte para o terceiro mandato dele,sofre de ausência de personalidade, tal qual seu partido e aliados, inclusive o do autor. As chagas expostas da corrupção desenfreada envergonha até os mais ferrenhos defensores do governo. Portanto, não se trata de esquerda e direita, bom ou ruim, esta discussão esta mofada. Não põe comida nem cidadania na mesa de ninguém. Virem a página. Meu Brasil merece mais que isto.

    • Rapaz, a discussão esquerda vs. direita nunca esteve tão “da hora”. Quem gosta de desmentir a luta de classes é a direita, que aparece na mídia com conceitos técnicos e falsamente neutros. Seria uma piada, se não colasse tão bem.. é preciso reconhecer….. NO entanto, veja só: concentre-se nos 40 milhões que saíram da pobreza para a classe média no Brasil devido ao PT e ao Lula. Na verdade, ainda tem 14 milhões de pessoas que saíram da classe média para a classe alta em 12 anos!!! Fico pensando como seriam as coisas caso alguém da “troika” psdebista (Serra, Alkmin e Aécio) tivesse ganho a presidência. Voltaríamos para a idade média….

      • NUM MOMENTO DELICADO DESSE..FICAM DISCUTINDO SE A CULPA É DOS PARTIDOS DE ESQUERDA OU DIREITA! PARA O CIDADÃO NÃO INTERESSA IDEOLOGIA! – PARA O TRABALHADOR É IMPORTANTE SUA FAMÍLIA! QUEM SE PREOCUPA COM IDEOLOGIA É QUE SE APROPRIA POR INTERESSES DAS PASSEATAS E REVOLUÇÃO POPULAR!!! DIA 15 DE MARÇO…VAMOS MARCHAR CONTRA ESSE GOVERNO CORRUPTO! Ass. Ex- petista!!Luto!!

      • Vc acha que dar 60 reais por pessoas é tirar alguém da probreza, acorda seu alienado

      • Cadu,você afirma que 1/4 da população brasileira saiu da pobreza e viraram classe média, mas o governo insiste em dizer que vai ampliar o programa bolsa família e vem fazendo isso a mais de 10 anos, onde 45,8 milhões são beneficiadas pelo programa. se saíram da miséria ou da pobreza, pq ainda o bolsa família? Porque é mentira. Quem tirou o povo da pobreza foi o crescimento do país e das empresas que puderam fazer isso graças a estabilidade econômica iniciada no governo Collor com a abertura de mercado (uma das poucas coisa boa que fez) e consolidada com o plano real no governo Itamar sob a tutela do FHC. O que se sucedeu depois foi o uso do que não se plantou e por fim a falta de gestão que culminou no momento que o país se encontra. Contra dados e fatos não há argumentos ou invenção que possa debater. E se quem gera emprego que é a iniciativa privada, diz que está ruim, temos que nos preocupar, pois o governo não produz nada, ele só cobra imposto de quem gera emprego e dividendos.