Coluna do Ricardo Gomyde: Salve o Almirante Negro!

almirante_gomyde.jpgRicardo Gomyde*

No dia 22 de novembro de 1910 iniciou-se o levante conhecido como “Revolta da Chibata”. Diversos marinheiros brasileiros assumiram o comando das mais importantes embarcações do país: o cruzador Bahia e os encouraçados Minas Gerais, São Paulo e Deodoro e posicionaram-se na Bahia da Guanabara, Rio de Janeiro, apontando seus canhões para a cidade. Pouco tempo antes, em 1888 a escravidão foi abolida, mas ainda persistiam seus reflexos. Na marinha, persistam as punições por açoite de chibatas, o que não era mais aceito pelos marinheiros que cobravam da recente república e do presidente Hermes da Fonseca o seu fim.

No dia anterior a revolta, Marcelino Rodrigues foi castigado com 250 chibatadas por ter-se envolvido em briga e ferido um colega a bordo do “Minas Gerais”. A punição ocorreu na frente dos outros marinheiros o que acendeu o estopim para a revolta. O motim foi agravado com a morte do comandante e mais três oficiais. Chegando a Bahia de Guanabara os marinheiros do “São Paulo” declararam apoio ao levante. Estava iniciada a “Revolta da Chibata”.

O fim dos açoites e melhores condições de trabalho na marinha constavam da carta que foi redigida sobre a liderança do marinheiro João Cândido. Quase todos negros, mulatos e migrantes nordestinos. Entre os dias 22 e 26 de novembro houve pânico na população brasileira, particularmente na cidade do Rio (então capital do Brasil) onde a população fugiu das regiões litorâneas ameaçada pelos canhões. Interessante destacar que parte da população e da imprensa demonstrou simpatia pelas reivindicações dos revoltosos.

O governo de Hermes da Fonseca que meses antes havia assumido após derrotar Rui Barbosa aceitou o que pediam os revoltosos que entregaram armas e embarcações e concedeu anistia a todos. Porém, poucos dias após determinou a exclusão de quase mil marinheiros dos quadros da marinha. A insatisfação retornou e em dezembro eclodiu novo movimento, desta vez na Ilha das Cobras. O governo decretou estado de sítio e massacrou os levantosos. Inúmeras prisões foram feitas.

Mais de 500 marinheiros foram enviados a Amazônia na companhia de mendigos, prostitutas e desocupados para trabalharem na extração da borracha. Boa parte deles morreu na viagem, em virtude de maus tratos ou de fuzilamento. Outro grupo foi trancado em celas solitárias na Ilha das Cobras. A maioria morreu rapidamente, sem água e após respirar cal que os carcereiros jogavam para torturar e asfixiar os prisioneiros. Houve apenas dois sobreviventes: João Lira e João Cândido, líder da “Revolta das Chibatas”.

Preso, excluído da marinha e depois enviado a uma instituição psiquiátrica, saiu de lá quase cego e segundo alguns com problemas mentais. Faleceu em 1969 aos 89 anos.

Hoje esquecido por muitos, vale aqui lembrar deste brasileiro humilde que lutou contra a injustiça em uma revolta que contou com exemplar violência contra rebeldes de classes populares. Aquelas injustiças foram emergindo a figura de um herói popular, o marinheiro João Cândido, o ALMIRANTE NEGRO.

Aldir Blanc e João Bosco imortalizaram esta luta em “Mestre Sala dos Mares”, bela canção, abaixo interpretada por Chico Buarque e Bosco:

*Ricardo Gomyde, ex-candidato ao Senado pelo PCdoB, especialista em políticas de inclusão social. Foi membro da Comissão Organizadora da Copa do Mundo no Brasil em 2014. Escreve nos sábados no Blog do Esmael.

6 Comentários

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  1. NÃO SOBROU NADA, NA ESFERA FEDERAL PARA ESSE PLAYBOY DE PRÉDIO, TÁ MEIO APAGADO O GURÍ ???

  2. Salve seus leitores multicoloridos Esmael , dá um pé na bunda desse engomado ………

  3. até que enfim um artigo interessante de um colunista do Esmael..

  4. João Cândido, o ALMIRANTE NEGRO.
    Este me representa.