Por Esmael Morais

Dilma Rousseff abre Assembleia Geral da ONU em viés de alta eleitoral

Publicado em 24/09/2014

Não há, para a oposição, como reclamar dessa situação. As regras da reeleição, afinal, foram escritas durante o governo de Fernando Henrique, líder dos tucanos. São elas que permitem ao presidente disputar a corrida eleitoral desfrutando de todas as vantagens do cargo, o que sempre se mostrou uma qualidade objetiva. Tanto assim que quem usou a prerrogativa, como o próprio FHC e, em seguida, o petista Lula, conseguiu seu segundo mandato. Agora é a vez de Dilma.

Para obter a maior repercussão eleitoral no Brasil, a presidente se preparou para elencar em Nova York os resultados dos programas sociais desenvolvidos em sua gestão. Ela poderá dar a máxima ênfase a isso, uma vez que iniciativas como o Bolsa Família têm obtido reconhecimento cada vez maior de organizações internacionais, entre as quais a FAO, o órgão e combate à  fome da própria ONU.

Para o público externo, Dilma também terá o que dizer. Ela participou ativamente da construção do Novo Banco de Desenvolvimento, fundado pelos sócios dos Brics, em reunião em Fortaleza, este ano. Com capital de US$ 100 bilhões, o novo banco de fomento de fomento se mostra preparado para apoiar o desenvolvimento da infraestrutura dos países da área de influência dos Brics. Dilma, ao que parece, tem tudo para brilhar na ONU – e, em seguida, na campanha eleitoral. Para ela, o momento de aparecer como estadista de porte global não poderia ser melhor para seus planos de reeleição.

Abaixo, notícia da Agência Brasil a respeito:

Brasil abre hoje Assembleia Geral da ONU em Nova York

Seguindo a tradição iniciada em 1947 por Oswaldo Aranha, de o primeiro orador na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) ser um brasileiro, a presidenta Dilma Rousseff fará hoje (24) o discurso de abertura da 69!ª Sessão da Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Ontem, ao comentar os ataques aéreos dos Estados Unidos na Síria, para combater o grupo extremista Estado Islâmico, que deve ser o principal assunto nos discursos dos líderes de grandes potências, Dilma disse que lamenta enormemente! o conflito, e deixará muito clara! em seu discurso a posição brasileira sobre o assunto, relacionado também à  paralisia! do Conselho de Segurança da ONU.

A expectativa é que Dilma aborde alguns temas surgidos nos últimos 12 meses, desde seu discurso anterior na 68!ª sessão, quando propôs o estabelecimento de marco civil multilateral para a governança e o uso da internet na proteção de dados, como consequência da espionagem do governo dos Estados Unidos a cidadãos, governos e empresas. De lá para cá, explodiu a crise na Ucrânia e a ascensão do grupo extremista Estado Islâmico na Síria e no Iraque. Nesse período, o conflito Israel-Palestina também teve um de seus períodos mais fortes, o único dos três em que a diplomacia brasileira se posicionou de forma clara e firme.

A presidenta deve reforçar em seu discurso a posição histórica brasileira de oposição a sanções de qualquer natureza, diferentemente da de alguns países, principalmente após o ataque de 11 de setembro de 2001, que consideram que contra o terrorismo vale qualquer ação, ainda que o termo possa ser tratado de forma subjetiva. O caso em evidência atualmente é o do Estado Islâmico, grupo contra o qual os Estados Unidos e a França estão fazendo ataques aéreos. Na última segunda-feira (22), mesmo dia em que chegou a Nova York, Dilma disse que todos os grandes conflitos que se armaram tiveram como consequência a perda de vidas humanas dos dois lados.

Agressões sem sustentação aparentemente podem dar ganhos imediatos. Depois, causam enormes prejuízos e turbulências. à‰ o caso, por exemplo, do Iraque. Está lá aprovadinho. Na Líbia, a consequência no Sahel. A mesma coisa na Faixa de Gaza!, disse Dilma. Nós repudiamos sempre o morticínio e a agressão dos dois lados, e não acreditamos que seja eficaz. O Brasil é contra todas as agressões. Acha, inclusive, que o Conselho de Segurança da ONU tem que ter representatividade para impedir essa paralisia diante do aumento dos conflitos em todas as regiões do mundo!, acrescentou.

A defesa da reforma do Conselho de Segurança da ONU, inclusive, é uma das principais bandeiras da política externa brasileira e certamente estará no discurso presidencial. No ano passado, Dilma lembrou que o ano de 2015 marcará o 70!º aniversário das Nações Unidas, data propícia, segundo ela, para realizar a reforma urgente! e evitar uma derrota coletiva!, caso se chegue ao próximo ano sem um Conselho de Segurança capaz de exercer plenamente suas responsabilidades no mundo de hoje!.

De acordo com a posição brasileira, o Conselho de Segurança – composto atualmente por apenas cinco membros permanentes (Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia e China) e com poder de veto – necessita, para ter legitimidade, ser dotado de mais vozes, com a ampliação do número de membros permanentes e não permanentes (atualmente dez, com mandatos de dois anos), dando mais representatividade a países em desenvolvimento.

Também hoje, após a 69!ª Assembleia Geral, o Conselho de Segurança se reunirá para tratar especificamente do Estado Islâmico. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que presidirá a reunião, quer que os países-membros aprovem uma resolução obrigando-os a criar leis para impedir que seus cidadãos se unam ao grupo extremista, que conta com voluntários! de diferentes nacionalidades.

*Colaborou Leandra Felipe, de Atlanta (EUA)