Coluna do Requião Filho: E agora, José?

Publicado em 31 julho, 2014
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"Se o Professor está desmotivado por conta de não receber o devido reconhecimento, infelizmente repassa suas frustrações adiante, ou seja, para o aluno", filosofa Requião Filho, em sua coluna desta quinta-feira; ele critica a ausência de debates sobre a realidade do Paraná e do Brasil durante os jogos do mundial; "Enquanto a Copa do Mundo era realidade, talvez fosse impossível encontrar um cidadão que lembrasse que viaturas policiais foram flagradas sendo empurradas por seus ocupantes, ou seja, pelos próprios policiais militares que a conduziam"; "E agora, José?", pergunta o colunista, citando o clássico poema de Carlos Drummond de Andrade; leia o texto e compartilhe.
“Se o Professor está desmotivado por conta de não receber o devido reconhecimento, infelizmente repassa suas frustrações adiante, ou seja, para o aluno”, filosofa Requião Filho, em sua coluna desta quinta-feira; ele critica a ausência de debates sobre a realidade do Paraná e do Brasil durante os jogos do mundial; “Enquanto a Copa do Mundo era realidade, talvez fosse impossível encontrar um cidadão que lembrasse que viaturas policiais foram flagradas sendo empurradas por seus ocupantes, ou seja, pelos próprios policiais militares que a conduziam”; “E agora, José?”, pergunta o colunista, citando o clássico poema de Carlos Drummond de Andrade; leia o texto e compartilhe.
Requião Filho*

E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama protesta, e agora, José? (…)!

Mesmo sendo um dos maiores expoentes da literatura tupiniquim, talvez poucas vezes Carlos Drummond de Andrade foi tão atual quanto ao assunto realidade brasileira!. Na verdade, seus poemas imortalizaram-se ao expor o momento em que o país vivia, e dessa forma, não seria imprudente chegar a conclusão de que o Brasil resume sua história a um círculo vicioso, alternando seus ciclos entre alegria circense de seu povo e a realidade do pós-espetáculo.

A Copa do Mundo acabou, os meios de comunicação foram obrigados a retornar com suas programações normais, os jornais e os canais de televisão voltam a mostrar a realidade que ocorre nas periferias. Em Curitiba e Região Metropolitana, por exemplo, não são raros os finais de semana nos quais mais de 20 pessoas sucumbem vítimas de crimes violentos, e tudo isso sem que as autoridades competentes, muitas vezes, sequer contabilizem tais atrocidades sociais.

O campeonato mundial de futebol, por aproximadamente 30 dias, retirou o foco dos problemas existentes no Brasil e no Estado do Paraná. Mesmo sem notar, boa parcela da população continuou sem educação, sem transporte ou hospitais capazes de fornecer o mínimo exigido pelo contribuinte, mas tudo restou em segundo plano para o Brasileiro afinal, o hexa campeonato foi por mais de um mês o objetivo principal de muitos Josés! e Marias!.

Mesmo sem saneamento básico, todos tinham um circo! dentro de casa. A tenda do espetáculo resumiu-se a um cilindro inventado na década de 20, com o poder de transmitir em tempo real imagem e som para a frente do sofá do telespectador. Assim como o avião, criado para salvar vidas, mas empenhado na guerra para desgosto de seu inventor, a televisão é aliada na alienação da população e cúmplice por trazer o mencionado show circense! para os lares brasileiros.

Enquanto a Copa do Mundo era realidade, talvez fosse impossível encontrar um cidadão que lembrasse que viaturas policiais foram flagradas sendo empurradas por seus ocupantes, ou seja, pelos próprios policiais militares que a conduziam. Citado esquecimento coletivo, ou lapso de memória durante o mundial, felizmente tinha hora, dia, mês e local para acabar, ou seja, 13 de julho de 2014.

Com o fim do espetáculo futebolístico, o povo voltou a sua realidade, mesmo que ela seja péssima, assolada, por exemplo, com a droga na porta de casa tentando corromper jovens inexperientes e sedentos pelo consumismo que suas famílias não lhes podem fornecer.

Se nada mudar, por mais 4 anos os Josés! e Marias! terão que conviver com a dura realidade de um País e de um Estado onde professores não recebem salários dignos, mesmo tendo escutado promessas de que isto iria mudar, e por conseqà¼ência, seus filhos serão tratados, nos ambientes escolares, na exata medida em que o Docente foi tratado pelo Governador ou Presidente, isto é, com pouco entusiasmo já que no Brasil, como já mencionado no início do texto, tudo é um círculo vicioso.

Se o Professor está desmotivado por conta de não receber o devido reconhecimento, infelizmente repassa suas frustrações adiante, ou seja, para o aluno.

Desta forma, vale repetir e enaltecer a capacidade que Carlos Drummond de Andrade teve ao retratar, em 1942, a realidade em que vivia o Brasil, e que por uma triste coincidência é a atual situação do país e do Paraná no estágio pós-Copa, o que confirma que o circo acabou e a realidade voltou a bater à  porta.

*Requião Filho é advogado, especialista em políticas públicas, escreve à s quintas no Blog do Esmael.

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