Em tempos de escassez e risco de apagão, país opta pela privatização da água e da energia

Os professores Jose Roberto Borghetti e Antonio Ostrensky renomados consultores nas áreas de água, agricultura e energia, especial para o Blog do Esmael, analisam a questão da água e da energia do ponto de vista estratégico, neste dia 22 de Março, Dia Internacional da àgua cujo tema escolhido pela ONU (Organização das Nações Unidas) cabe como uma luva na conjuntural brasileira atual; em tempos de escassez da água (vide sistema de captação Cantareira, em São Paulo) e risco apagão, o país opta pela privatização da água e energia; na semana, a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) também foi a pique com a autorização para a venda de suas ações; agora é a Companhia Paranaense de Energia (Copel) que volta para a fila da privatização; Falta planejamento pode causar um colapso energético no país!, alertam os especialistas que também criticam a venda das reservas de petróleo do pré-sal; A face menos perceptível desse fenômeno foi que, como mágica, sumiram os projetos de desenvolvimento tecnológico e de inovação para aprimoramento e popularização de fontes energéticas limpas!, destacam os articulistas; leiam o texto.
Os professores Jose Roberto Borghetti e Antonio Ostrensky renomados consultores nas áreas de água, agricultura e energia, especial para o Blog do Esmael, analisam a questão da água e da energia do ponto de vista estratégico, neste dia 22 de Março, Dia Internacional da àgua cujo tema escolhido pela ONU (Organização das Nações Unidas) cabe como uma luva na conjuntural brasileira atual; em tempos de escassez da água (vide sistema de captação Cantareira, em São Paulo) e risco apagão, o país opta pela privatização da água e energia; na semana, a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) também foi a pique com a autorização para a venda de suas ações; agora é a Companhia Paranaense de Energia (Copel) que volta para a fila da privatização; Falta planejamento pode causar um colapso energético no país!, alertam os especialistas que também criticam a venda das reservas de petróleo do pré-sal; A face menos perceptível desse fenômeno foi que, como mágica, sumiram os projetos de desenvolvimento tecnológico e de inovação para aprimoramento e popularização de fontes energéticas limpas!, destacam os articulistas; leiam o texto.
àgua e Energia: opção triunfante do Brasil pela poluição

Jose Roberto Borghetti e Antonio Ostrensky*

Em um tempo em que o fantasma do apagão assombra o já pouco eficiente e bamboleante setor industrial brasileiro e, ainda que em menor grau, assusta os incautos cidadãos comuns, estamos prestes a “comemorar” mais um Dia Mundial da àgua.

Justiça seja feita, o Estado Brasileiro faz sua parte para espantar esse fantasma. E faz isso como pode: rezando todos os dias – e com muita fé – para que São Pedro mande o único antídoto que pode,de fato, impedir que esse espectro da falta de planejamento provoque um colapso energético no país, a chuva.

O Brasil possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo. Entre 80% e 90% da geração elétrica vem de fontes renováveis. Segundo o Relatório de Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil – Informe 2012, da Agência Nacional de àguas (ANA) – o País possui cerca de 1.000 empreendimentos hidrelétricos, sendo que mais de 400 deles são pequenas centrais hidrelétricas (PCH). Até 2011, de acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), aproximadamente 70% dos 117 mil megawatts (MW) da capacidade instalada da matriz energética brasileira eram gerados por PCH!´s, usinas hidrelétricas e centrais de geração hidrelétrica. Entretanto, não adianta muito se produzir energia de forma relativamente limpa (pois há, sim, uma série de impactos advindos da geração de energia hidrelétrica), se a energia produzida é insuficiente para fazer o país crescer.

Contudo, se olharmos por um outro lado e considerarmos toda a matriz energética do Brasil (e não apenas a energia elétrica), veremos que nossa matriz energética está muito longe de ser limpa. Mais de 52% da energia que move o país vem do petróleo e seus derivados (óleo, gasolina, gás…), empurrando a energia elétrica para um modesto terceiro lugar, com apenas 13% do total, ficando atrás da energia gerada através do uso de álcool/biomassa (com 19,3%).

Se você vivia no Brasil antes de 2007, deve ter lido ou ouvido que o governo brasileiro estava investindo pesadamente em biocombustíveis e em fontes energéticas renováveis e limpas. Pelo discurso oficial, o Brasil se tornaria em uma potência energética limpa do terceiro milênio.

Mas, em 2007, Deus, por ser brasileiro, resolveu dar uma mãozinha para o país e então nos deu de presente o pré-sal, rapidamente vendido (sem trocadilhos) como a redenção de todos os problemas do país. O que se viu a partir daí foi uma verdadeira batalha política entre os estados “com pré-sal” e os estados “sem pré-sal” pelos royalties do tesouro recém descoberto.

A face menos perceptível desse fenômeno foi que, como mágica, sumiram os projetos de desenvolvimento tecnológico e de inovação para aprimoramento e popularização de fontes energéticas limpas.

Hoje, apenas em meia dúzia de estados (se tanto) ainda compensa abastecer o carro com álcool. A capacidade instalada para a geração de energia eólica no país mal chega a 1% da geração hidroelétrica e a capacidade de geração de energia solar é virtualmente zero.

Mas, voltando a São Pedro, ele deve ter recebido alguma orientação superior para fechar as torneiras, pois se agora somos um país riquíssimo em petróleo, precisamos usar essa nossa nova riqueza. Com isso, as caras e poluidoras termoelétricas (movidas principalmente a gás, mas também a carvão) precisaram ser acionadas. O resultado, um rombo bilionário nas contas das empresas distribuidoras de energia e uma conta que, mais cedo ou mais tarde, vai ser cobrada do agora riquíssimo consumidor brasileiro !“ sem falar, é claro, na conta ambiental, mas essa será paga pelos condôminos deste planeta chamado Terra.

O fato é que parece que todo o discurso de sustentabilidade, de geração de energia limpa, de produção de biocombustíveis, era apenas e tão somente discurso, desses com aquela robustez e credibilidade que acompanham todo e qualquer discurso eleitoral.

A realidade, porém, mostra um país sem planejamento estratégico na área de energia; reservatórios super explorados e minguando, mesmo em um cenário ainda de pré-alterações climáticas globais; usinas eólicas prontas, mas sem entrar em operação porque as linhas de transmissão simplesmente não foram construídas; subsídios insustentáveis nas nossas contas de energia e nos preços dos combustíveis, o que está estrangulando respectivamente as empresas de transmissão de energia e a também a gigante (em pleno processo de implosão) Petrobras. Nesse contexto, fica muito claro que o Brasil optou pelo caminho da poluição e da ineficiência energética.

Mesmo assim, e por incrível que pareça, ainda temos mesmo razões para comemorar o dia Mundial da àgua. Em um cenário em que as imagens de pessoas sem água em suas casas, sequer para atender as suas necessidades mais básicas, ameaça se mudar do sertão nordestino para a região abastecida pelo reservatório da Cantareira, na sexta cidade mais populosa do mundo, talvez em breve não tenhamos água sequer para o brinde. Brindemos enquanto é tempo, então: Tim Tim!!

*Jose Roberto Borghetti, biólogo, é consultor da Organização das Nações Unidas (ONU) para Agricultura e Alimentação (FAO). Antonio Ostrensky, oceanólogo, é coordenador técnico do àguas do Amanhã e coordenador do Grupo Integrado de Aquicultura e Estudos Ambientais da Universidade Federal do Paraná.

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