Em 15 anos, população de rua de Curitiba salta 450%

Dimitri do Valle e Leandro Taques (fotos), do jornal A Gralha, especial para o Brasil 247

Escalada do consumo de crack é uma das causas apontadas; representantes da população de rua criticam paliativos e querem alternativas concretas; reportagem de Dimitri do Valle e Leandro Taques (fotos), do jornal A Gralha.

Escalada do consumo de crack é uma das causas apontadas; representantes da população de rua criticam paliativos e querem alternativas concretas; reportagem de Dimitri do Valle e Leandro Taques (fotos), do jornal A Gralha.

João e José têm fome. Na casa dos 45 anos, a dupla vaga pelas ruas de Curitiba. Quando eles se apresentaram aos clientes de uma pasteleira de beira de calçada, no Centro, também estavam embriagados. Um deles exibe um discurso calmo para os frequentadores da lanchonete: Alguém não tinha um real pra gente comer pelamor de Deus?!.

Condoídos, dois clientes pagam um suco de laranja de 500 mls, um pedaço de pizza e uma coxinha para cada um.

Agradecem, colocam os pacotes debaixo do braço e ganham as ruas outra vez. As senhoras proprietárias do estabelecimento já estão acostumadas com a abordagem da dupla e de outros mendigos sem lugar fixo para morar. As comerciantes dizem que torcem apenas para eles não causarem problemas e que saiam do local o mais rápido possível. Um dos clientes, enquanto aguardava a feitura dos lanches, quis saber um pouco da vida da dupla, que contou ter feito bicos nos canteiros da construção civil, mas sem conseguir se segurar nos empregos, possivelmente por causa do alcoolismo, uma das principais causas, junto com crack e outros problemas sociais, que acompanham a vida de grande parte dos cerca de 2,7 mil moradores de rua da capital do Paraná, a terce ira cidade mais rica do Brasil, se Brasília, pela condição de capital federal, for riscada da conta do ranking mais abastadas a envolver a campeã São Paulo e o vice Rio de Janeiro.

Dados da FAS (Fundação de Ação Social) da Prefeitura de Curitiba e do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam que a população de rua mais que quadruplicou em 15 anos na cidade (aumento chegou a 450%). Em 1998, a capital do Paraná contabilizava, segundo dados informados à  época à  imprensa pela própria FAS com cerca de 600 pessoas morando pelas ruas.

Curitiba sempre foi vista pelos olhos de fora e o marketing nativo, como uma cidade limpa, ordeira e organizada. Mas qualquer pedestre com um pouco mais de atenção pela paisagem urbana na área central da cidade percebe que a população de rua passou a intensificar sua presença, seja deitada em marquises ou vagando pelas calçadas ou cruzamentos movimentados em busca de esmolas ou comida no comércio.

Agressão

No feriado de carnaval, um egípcio radicado há 12 anos em Curitiba procurou a polícia para relatar ter sido agredido a golpes de pedra e pontapés por um morador de rua. O egípcio diz que o rapaz o atacou na saída de um mercado depois que ele negou ter um cigarro para passar. Um suspeito foi detido e disse que fez o pedido de forma educada acusando o agredido de ter partido para o esculacho só porque a gente vive na rua!.

Conflitos como esse podem se agravar à  medida em que a população de rua continuar a crescer, sem que haja uma política ativa para dar a assistência necessária. O morador de rua hoje não é mais aquele que está na rua por não ter onde morar. Ele cai nessa condição por causa da dependência química de álcool e drogas, desagregação familiar e deterioração das condições econômicas das camadas menos favorecidas.

Jornalista de uma emissora de TV de Curitiba desabafou a colegas no final do ano passado por ter escapado de um sujeito embriagado. Ele tentou assaltá-la com uma faca, a luz do dia, em plena Praça Tiradentes, o marco zero de Curitiba, outro reduto de encontro da população de rua, principalmente para bebedeiras no final da tarde.

Os moradores de rua também sentem na pele como é ser vítima de conflito urbano com os demais habitantes. Na semana de carnaval, um mendigo virou uma tocha humana em uma área de Curitiba bastante movimentada, o Centro Cívico, região construída para abrigar os três poderes do Estado e a Prefeitura da capital. O mendigo dormia na calçada quando um desconhecido se aproximou, jogou álcool sobre ele e ateou fogo. A vítima ainda se atirou nas águas poluídas do rio Belém, que é canalizado, para apagar as chamas. Elas lhe feriram 90% do corpo e o hospitalizaram em estado grave. Até o fechamento desta reportagem, ninguém havia sido preso.

Faltam de políticas concretas

Regiane da Silva Keppie, coordenadora estadual do Movimento Nacional da População de Rua no Paraná, afirma que faltam políticas públicas concretas para reverter a situação. Do jeito em que a assistência se encontra, segundo ela, a tendência é que a população de rua na maior cidade do Paranáe do Sul do país continue a crescer.

Os moradores de rua têm hoje à  disposição dois abrigos públicos, um no bairro Campo Comprido, e outro na sede da própria FAS, no Centro, lembra Regiane. Lá eles recebem toda a assistência necessária para passar a noite, se alimentar, cuidados médicos básicos e banho. No entanto, podem sair a hora em que desejarem.

Para Regiane, aí está o nó da questão. O acompanhamento tem que ser muito forte. O morador de rua precisa de um lugar de referência, como casas transitórias e repúblicas para morar e não apenas um local para ele dormir e ir embora no dia seguinte pra voltar para a rua. Outra coisa importante é que após o tratamento contra a dependência ele possa ter um emprego e assim ter condições de reconstruir sua vida!, afirma a ativista, que também já foi moradora de rua por dois anos.

A sociedade precisa também ajudar, a não tratar o morador de rua com preconceito. Não é algo que vai se resolver a curto prazo, mas defendemos mudanças que possam fazer a diferença na vida dessas pessoas e que elas possam ter um lugar para se tratar, morar e ter um emprego!.

FAS

Por meio da assessoria de imprensa, a direção da FAS defende que o avanço nas soluções dos problemas envolvendo o crescimento da população de rua de Curitiba exige ação integral e interdisciplinar dos mais variados âmbitos e esferas de poder. Ao município, cabe a tarefa de manter serviços e programas de atenção a essa população, garantindo padrões básicos de dignidade e não-violência.!

Uma das questões mais polêmicas e que influencia no sucesso ou não dese retirar uma pessoa da rua é o desejo dela de que isso se realize, no entendimento da direção da FAS. O resgate de pessoas em situação de rua não é compulsório, portanto é preciso haver a intenção da pessoa em receber o atendimento, que é feito através do serviço de Resgate Social e nos Centros POP !“ Centros de Referência Especializados para a População em Situação de Rua.!

A assessoria da FAS, sob o comando de Márcia Fruet, mulher do prefeito Gustavo Fruet (PDT), que assumiu o cargo em janeiro, cita que oferece, além da abordagem, serviços de higiene e alimentação, albergagem, atendimento de saúde (incluindo coleta de dados sobre deficiências, uso abusivo de substâncias psicoativas e álcool), triagem para identificação de necessidades básicas, investigação social (cadastro e entrevista) e encaminhamentos necessários para a rede de proteção social.

A direção da FAS entende que a finalidade prioritária do atendimento que presta aos moradores de rua é a recuperação dos vínculos familiares e a inclusão comunitária dos usuários.

Embora a população de rua esteja em franco crescimento, a direção da FAS diz que existem programas preparados com condições de capacitação do cidadão que aceita buscar ajuda para reorganizar seu cotidiano, além de seu encaminhamento para cursos profissionalizantes, tratamento em Centro de Atendimento Psicossocial e grupos de autoajuda, inserção na rede formal de ensino e disponibilização de atividades esportivas, culturais, de lazer e ocupacionais e de valorização da autoestima, bancadas com a ajuda de entidades filantrópicas e voluntários.

Diante do quadro de crescimento dessa população que dá uma cara que contesta a Curitiba de primeiro mundo, a nova administração tem um desafio e tanto pela frente.

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