Parem os ônibus biarticulados antes que eles se tornem máquinas assassinas

Bombeiros retiram restos mortais da faixa de pedestre. Foto: àtila Alberti.

Fui hoje ao velório de Sandra Regina Gomes. O clima era de tristeza e revolta entre amigos e familiares. Ela morreu ontem, por volta das 18h15, esmagada por um ônibus biarticulado da linha Santa Cândida/Capão Raso. As duas filhas pequenas, agora órfãs, estavam inconsoláveis. Choravam ininterruptamente há quase 20 horas.

Ao sair do curso de italiano no Colégio Estadual do Paraná, a vítima resolvera tomar um suco ao lado do marido. Não deu tempo. Atravessaram a Rua Presidente Faria, na altura do Passeio Público, na faixa de pedestre. O cuidado deles foi em vão.

Karen Hilgert, colega de curso no Colégio Estadual do Paraná, lamentou a morte de Sandra em um trecho considerado perigoso para o pedestre.

Temos curso terça e quinta aqui, é um lugar onde o biarticulado passa rápido. Como não tem outros carros, ele não olha, nós é que temos que olhar. Tem uma faixa de segurança ali, mas ninguém para”, disse à  Rádio Banda B.

Sandra era funcionária da prefeitura de Curitiba. Ocupava o cargo de gerente financeira da regional de Santa Felicidade.

O atropelamento de Sandra por ônibus biarticulado não é o primeiro e pode não ser o último, infelizmente. Horas antes, na mesma quinta-feira (10), uma criança de 12 anos havia sido colhida por outro biarticulado da linha Pinhais/Rui Barbosa.

O histórico de sinistros envolvendo os biarticulados não para aí. Todo mês, são dezenas de pessoas que morrem ou ficam mutiladas na capital em virtude de atropelamentos pelos veículos de mais de 20 toneladas. Basta uma rápida pesquisa no Google! para certificar-se dos alarmantes números.

Por que esses eventos ocorrem diariamente? Culpa do motorista? Creio que não. A pressa dos biarticulados, relatada acima por Karen, justifica-se pelo perverso gerenciamento do transporte coletivo. O motorista que atrasar no trecho recebe multa, que é descontada no salário. Por isso desce o chinelo, acelera mais do que pode.

O presidente do Sindimoc (Sindicato dos Motoristas e Cobradores de Curitiba e região), Anderson Teixeira, corrobora com essa minha constatação. Segundo ele, “tem multa até para crachá virado, sem falar nas multas por atraso dos ônibus, o que faz com que os motoristas vivam na pressão para cumprir o horário determinado pela empresa”.

Será que uma vida humana não tem valor algum para empresas e gestores do transporte? A busca incessante pelo lucro se sobrepõe à  vida? Até quando esperar por uma inversão desse macabro e perverso modelo?

Espera-se que o desaparecimento de Sandra e de tantas outras vítimas não sirvam apenas para engordar as frias estatísticas dos órgãos públicos. Que se transformem em energia para parar a máquina chamada ônibus biarticulado, antes que ela se torne assassina.

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