Artigo de Marcos Coimbra: “O voto distrital e a direita”

por Marcos Coimbra *, no Correio Braziliense

Sociólogo Marcos Coimbra.

Estão vendendo ao país duas teses falsas. Uma é dita explicitamente: que os problemas da democracia brasileira se resolveriam se tivéssemos o voto distrital. A outra fica sugerida: que sua implantação no Brasil seria algo simples.

Com impressionante velocidade, a direita brasileira se descobriu favorável ao voto distrital desde criancinha. Sem que exista qualquer motivo lógico que explique o porquê, políticos, intelectuais, empresários e jornalistas conservadores se encantaram com ele e começaram, em coro, a defendê-lo. Ao mesmo tempo, passaram a espinafrar o voto proporcional, que faz parte das regras do nosso sistema político desde o Código Eleitoral de 1932.

Em nenhum lugar do mundo havíamos visto coisa parecida. A argumentação em favor do voto distrital nunca teve cor ideológica, nunca foi bandeira da direita ou da esquerda. A discussão sobre suas vantagens e desvantagens sempre permaneceu no plano técnico.

Quem tem um mínimo de informação sobre o assunto sabe que não há sistema eleitoral integralmente bom ou ruim. Todos têm aspectos positivos e negativos.

Sabe, também, que faz pouco sentido falar em voto distrital no abstrato, assim como de voto proporcional puro. Cada país tem seu sistema, com coloração e particularidades únicas. Há tantos sistemas de voto distrital (e de voto proporcional) quantos países que o adotam.

Existem democracias plenamente funcionais e bem sucedidas com voto distrital, e (muitas) outras com as diversas formas possíveis de voto proporcional. Aliás, em termos puramente quantitativos, a maioria dos países democráticos do mundo tem algum tipo de voto proporcional.

à‰ compreensível que a campanha que a direita brasileira está fazendo em favor do voto distrital não apresente os ponderáveis argumentos que existem contra ele. Seus responsáveis têm todo o direito de subtrair da opinião pública o que é contrário a suas preferências. Afinal, na guerra ideológica, o que menos importa são os fatos.

Não é o mesmo que se pode dizer de quem, na mídia, deveria se ocupar do jornalismo. Chega a ser lamentável que veículos de informação assumam função de pura desinformação.

Estão vendendo ao país duas teses falsas. Uma é dita explicitamente: que os problemas da democracia brasileira se resolveriam se tivéssemos o voto distrital. A outra fica sugerida: que sua implantação no Brasil seria algo simples, que só depende da vontade política!. Ou seja: que não é feita porque alguém! não quer.

à‰ com teses desse gênero que se fazem as campanhas que os profissionais do marketing político chamam de construção de agenda! (mal traduzindo a expressão norte-americana agenda building). Identifica-se um incômodo, dá-se-lhe uma explicação, põem-se a mídia para promovê-la e convocam-se as pessoas de bom caráter! a agir.

Já vimos esse filme várias vezes: há um problema (por exemplo, a falta de empregos em uma economia avançada), cria-se um culpado! (por exemplo, os imigrantes do terceiro mundo) e pede-se aos eleitores que votem em quem vai resolvê-lo! (por exemplo, um partido de direita).

Quando os problemas são reais e preocupam as pessoas, a questão é convencê-las de que o diagnóstico de suas origens é correto. Se o admitirem, abraçarão a causa!, o que fica tanto mais fácil quando mais alto a mídia bater o bumbo.

Há uma nítida e compreensível insatisfação da maioria da sociedade brasileira com o sistema político. Além de sua crônica dificuldade de assegurar a todos adequada representação, ele padece de vários vícios, dos quais o mais irritante é a corrupção.

A direita brasileira, através de seus núcleos de pensamento estratégico e intelectuais, quer fazer com que o país acredite que o PT e, por extensão, o governo (ou o que ela chama de lulopetismo!) são a favor do sistema de representação proporcional porque assim se perpetuariam no poder. Quer, portanto, que as pessoas de bem! se tornem defensoras do voto distrital, assegurando-as de que só com ele é possível simplificar as eleições, aumentar a responsabilidade do eleito, a vigilância do eleitor, acabar com a corrupção.

Não existe qualquer evidência, seja baseada em nossa experiência com o voto distrital (pois já o tivemos durante várias décadas), seja na de outros países, que permita afirmações desse tipo. Nem ele é garantia de solução para tais problemas, nem faz sentido dizer que o voto proporcional os provoca.

à‰ improvável que a direita fale essas coisas por ignorância. Mais fácil é imaginar que, apenas, finge saber como dar resposta à s justas preocupações da sociedade.

* Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi.

4 Comentários

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  1. o congresso não pode debruçar nessas ideias malucas.porque esse pais ja teve tancredo neves como primeiro ministro, no tempo de jango, mas não funcionou os que querem isso, muitos deles estiveram na a arena e hoje querem ser democraticos.acontece no brasil o mesmo que nas outras nações. não podemos ser papagaios que fala o que os outros quer. vamos não dar ouvido a fofocas.se um dia eu for alguma coisa .vou trabalhar somente com pessoas do ministerio publico porque eles não erram. quem governa o brasil e o congresso nacional em suas funções constituidas. mas ha muita interferencia do judiciario no congresso. os parlamentares tem que dar um basta nisso.na terra não tem santo . os parlamentares que recorrem a justiça contra uma decisão do congresso e fraco, não merece estar eleito ,e ser parlamentar,o supremo tribunal federal esta criando ate leis .então por que o congresso nacional? pois esta inificiente ,deixem a justiça governar. se prova leis depois cai efeito da lei na justiça ,então o congresso e um big brother de 4 anos ..

  2. A concepção do voto distrital não para gente de direita ou de esquerda, é para GENTE DIREITA… coisa que o pesquiseiro acima citado não costuma lidar…

  3. Os senadores Fernando Collor, José Sarney e Renan Calheiros defendem o voto distrital? Se a “direita” defende o voto distrital…

  4. “A argumentação em favor do voto distrital nunca teve cor ideológica, nunca foi bandeira da direita ou da esquerda.”

    Talvez continua não tendo. Você só está atribuindo à direita porque o PT (que acha que é esquerda), defende algo diferente.

    E que tipo de democracia é esta que você deseja onde não se pode existir um debate ou mesmo uma direita que defenda alguma coisa diferente do que existe (ainda é isto seja falso, pois não há direita no Brasil)?

    Aponte-me uma democracia saudável onde não exista uma direita ou uma esquerda.