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A miséria moral de ex-esquerdistas

por Emir Sader, via blog do Emir

Alguns sentem satisfação quando alguém que foi de esquerda salta o muro, muda de campo e se torna de direita – como se dissessem: “Eu sabia, você nunca me enganou”, etc., etc. Outros sentem tristeza, pelo triste espetáculo de quem joga fora, com os valores, sua própria dignidade – em troca de um emprego, de um reconhecimento, de um espaçozinho na televisão.

O certo é que nos acostumamos a que grande parte dos direitistas de hoje tenham sido de esquerda ontem. O caminho inverso é muito menos comum. A direita sabe recompensar os que aderem a seus ideais – e salários. A adesão à esquerda costuma ser pelo convencimento dos seus ideais.

O ex-esquerdista ataca com especial fúria a esquerda, como quem ataca a si mesmo, a seu próprio passado. Não apenas renega as idéias que nortearam – às vezes o melhor período da sua vida -, mas precisa mostrar, o tempo todo, à direita e a todos os seus poderes, que odeia de tal maneira a esquerda, que já nunca mais recairá naquele “veneno” que o tinha viciado. Que agora podem contar com ele, na primeira fila, para combater o que ele foi, com um empenho de quem “conheceu o monstro por dentro”, sabe seu efeito corrosivo e se mostra combatente extremista contra a esquerda.

Não discute as idéias que teve ou as que outros têm. Não basta. Senão seria tratar interpretações possíveis, às quais aderiu e já não adere. Não. Precisa chamar a atenção dos incautos sobre a dependência que geram a “dialética”, a “luta de classes”, a promessa de uma “sociedade de igualdade, sem classes e sem Estado”. Denunciar, denunciar qualquer indicio de que o vício pode voltar, que qualquer vacilação em relação a temas aparentemente ingênuos, banais, corriqueiros, como as políticas de cotas nas universidades, uma política habitacional, o apoio a um presidente legalmente eleito de um país, podem esconder o veneno da víbora do “socialismo”, do “totalitarismo”, do “stalinismo”.

Viraram pobres diabos, que vagam pelos espaços que os Marinhos, os Civitas, os Frias, os Mesquitas lhes emprestam, para exibir seu passado de pecado, de devassidão moral, agora superado pela conduta de vigilantes escoteiros da direita. A redação de jornais, revistas, rádios e televisões está cheia de ex-trotskistas, de ex-comunistas, de ex-socialistas, de ex-esquerdistas arrependidos, usufruindo de espaços e salários, mostrando reiteradamente seu arrependimento, em um espetáculo moral deprimente.

Aderem à direita com a fúria dos desesperados, dos que defendem teses mais que nunca superadas, derrotadas, e daí o desespero. Atacam o governo Lula, o PT, como se fossem a reencarnação do bolchevismo, descobrem em cada ação estatal o “totalitarismo”, em cada política social a “mão corruptora do Estado”, do “chavismo”, do “populismo”.

Vagam, de entrevista a artigo, de blog à mesa redonda, expiando seu passado, aderidos com o mesmo ímpeto que um dia tiveram para atacar o capitalismo, agora para defender a “democracia” contra os seus detratores. Escrevem livros de denúncia, com suposto tempero acadêmico, em editoras de direita, gritam aos quatro ventos que o “perigo comunista” – sem o qual não seriam nada – está vivo, escondido detrás do PAC, do Minha casa, minha vida, da Conferência Nacional de Comunicação, da Dilma – “uma vez terrorista, sempre terrorista”.

Merecem nosso desprezo, nem sequer nossa comiseração, porque sabem o que fazem – e os salários no fim do mês não nos deixam mentir, alimentam suas mentiras – e ganham com isso. Saíram das bibliotecas, das salas de aula, das manifestações e panfletagens, para espaços na mídia, para abraços da direita, de empresários, de próceres da ditadura.

Vagam como almas penadas em órgãos de imprensa que se esfarelam, que vivem seus últimos sopros de vida, com os quais serão enterrados, sem pena, nem glória, esquecidos como serviçais do poder, a que foram reduzidos por sua subserviência aos que crêem que ainda mandam e seguirão mandado no mundo contra o qual, um dia, se rebelaram e pelo que agora pagam rastejando junto ao que de pior possui uma elite decadente e em vésperas de ser derrotada por muito tempo. Morrerão com ela, destino que escolheram em troca de pequenas glórias efêmeras e de uns tostões furados pela sua miséria moral. O povo nem sabe que existiram, embora participe ativamente do seu enterro.

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3 comentários

  1. Carlos diz:

    O que mais me impressiona no discurso do Emi Sader é o conteúdo pseudo esquerdista que ele usa para tentar criar um falso divisor de águas entre o que ele diz ser de “esquerda” e os demais, pois para o mesmo este “divisor” é a defesa ou não do governo Lula, mas sempre esquecendo que o presidente publicamente disse: “nunca fui de esquerda”.

    Este governo é o que trocou a aliança com o MST e defesa da reforma agrária por elogios e subsidios aos grandes fazendeiros, que hoje em seus discursos trata como heróis:

    “Os usineiros de cana, que há dez anos eram tidos como se fossem os bandidos do agronegócio neste país, estão virando heróis nacionais e mundiais” …

    Ao mesmo tempo em que os sem-terras são assassinados e criminalizados, o IBGE divulga o censo agropecuário revelando o aumento da concentração da propriedade da terra. O censo mostra um país com a maior concentração fundiária do mundo, com 1% dos proprietários com 46% das terras, o que é uma distorção criminosa.

    Outras frases significativas proferidas pelo “esquerdista” Lula antes e depois de ser eleito presidente:

    - “Aqui tem gente que é mais norte americano dos que os próprios”

    “Vi Bush com muita boa vontade para com o Brasil”.

    - “Se disputasse uma eleição, os votos do Sarney não dariam para encher um penico.”

    “O Sarney é um ladrão”.

    “Sarney tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum”

    - “Eu sou radicalmente contra (a liberação dos transgênicos) e acho um retrocesso o governo fazer isso. Isso, na verdade, está acontecendo porque mais uma vez a elite política deste país se rende ao fascínio de uma multinacional.”

    “Mudei minha posição por razões científicas”

    “Você que tem a sua terra e produz, saiba que um governo do PT não vai tolerar desrespeito à sua propriedade.”

  2. Navarro diz:

    Teoricamente, de direita é quem está no governo e de esquerda é a oposição.
    Quanto às convicções internas, a pessoa pode dizer que é socialista, mas nunca foi porque sempre quis ser proprietário (capitalista). O maior capitalista é aquele que quer as coisas do estado e o trabalho do cidadão para usufruto de si próprio. O ditador socialista é o capitalista mais extremado. Seus súditos são obrigados a serem socialistas porque toda as coisas são do ditador.
    Chaves é capitalista-mor da Venezuela. Todo socialista deixa de ser democrático porque capitaliza as coisas do cidadão e socializa o cidadão. Chaves se considera dono da vida e do trabalho de todo cidadão venezuelano. Logo, estava mentindo antes de assumir o poder porque nunca deixou de ser capitalista.
    A ocupação de cargos no governo depois de longa militância na esquerda é apenas a confirmação do próprio instinto capitalista. Na verdade, não mudou de posição, apenas estava enganado, não sabia que estava enganado e ainda não sabe do engano porque diz que está lá no governo para defender o socialismo e faz isso até com sinceridade como a maioria dos socialistas.
    NAVARRO

  3. X da Questão diz:

    Os maiores direitistas que eu conheço são os grandes ditadores que os esquerdistas tanto idolatram. Fidel Castro, Hugo Chaves, Stalin, afinal, não são os direitistas que agem com opressão contra os que não compactuam com suas idéias????
    Não são os direitistas que manipulam a imprensa?????
    Não são os direitistas que mandam matar os ideologicamente contrários??????
    Não são os direitistas que querem se perpetuar no poder????
    Estes senhores citados acima são tudo isso junto.

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